Roadtrip de Julho – Parte 2 – Parc du Verdon

Chegando em Castellane, nós ficamos em um camping que se afastava cerca de 1km do centro da cidade, chamado Domaine du Verdon. O local, apesar de ser o mais barato que encontramos, contava com uma estrutura excelente. Os banheiros e os chuveiros eram ótimos e limpíssimos, a área de lanchonetes e recepção era agradável, as parcelas de cada grupo eram espaçosas e o camping dispunha de uma variedade de atividades para famílias, como piscinas e mesas de pingue-pongue. O único motivo pelo qual eu poderia reclamar seria que o local era um pouco empoeirado, mas isso decorria da grande quantidade de pessoas no local, e como esse fator também fazia o preço cair (economia de escala), não achei assim tão ruim!

A rotina do camping se repetia toda noite, ao voltarmos dos passeios, com os banhos alternados entre nós e as meninas, e depois um macarrão feito no nosso novo fogareiro. Este, aliás, demonstrou um bom desempenho e nos deixou felizes com a compra. Eu achei ele um pouco grande, mas a Ju garantiu que o tamanho daria mais apoio na hora de cozinhar, e como é ela que mexe com isso, não discuti! Importante ressaltar que nós levamos uma barra de sabão de coco, e com ela nós lavamos a roupa e a louça. Foi muito útil, não só pela funcionalidade, mas isso não ocupou quase nada de espaço! Tirando esses momentos, nossas redes (Valeu Thuram!), auxiliadas por cordas, garantiram locais muito confortáveis para lermos nossos livros nos momentos vagos.

Outro ponto interessante foi o convívio com outros campers e as observações que fizemos decorrentes disso. Usamos um bom tempo para avaliar as possíveis maneiras de acampar em vans adequadas para isso, e também notamos a quantitade absurda de holandeses e alemães que saem para acampar pela Europa, sendo que por outro lado não vimos nenhum ibérico por ali. Conversamos um pouco com o nosso “vizinho” Martin, um alemão que apesar de muito simpático, tinha uma certa dificuldade de puxar conversa. Imagino que o ponto de ele ter tentado isso foi pedir para que seus filhos pudessem passear com o Picot, o que topamos, tendo em vista que depois pediríamos para olhar dentro de sua van (uma Ford Transit modificada!). O Picot ficou um pouco perdido ao sair com os garotos, mas acostumou com a ideia depois. Um francês que também estava próximo viu nossa placa espanhola e puxou assunto em Castelhano, o qual ele falava um pouco, já que sua avó era andaluz. No último dia dele, ele nos deu um saco de ração, pois ele não mais usaria para seu cão. Com isso, o Picot teve comida até o final da viagem sem precisarmos comprar mais.

Tendo dito essas curiosidades sobre o ato de acampar, passemos aos locais que visitamos. Primeiro temos o Lac de Sainte Croix. Esse imenso lago surgiu ali em decorrência da construção de uma represa, alagando o vale. O resultado foi um local que atrai uma quantidade imensa de pessoas que nadam, remam e descansam ali. Suas águas são muito limpas, mesmo com todo esse movimento, já que o seu fundo é de pedras, e não lama ou lodo, pelo menos na maior parte dele. Também há algumas encostas de onde é possível saltar, apesar de isso não ser muito recomendado. O aluguel de barcos e pedalinhos parece ser uma atividade importante por ali, já que é possível subir o ponto por onde o rio chega, e com isso se aventurar por entre as encostas do desfiladeiro. Claro, no verão este lugar fica cheio de turistas, mas ainda assim compensa a visita. Outro lago que visitamos foi o Lac de Castillon. Este lago também é muito bonito, mas não tanto quanto o outro. A vantagem dele é que ele é bem menos frequentado, além de mais amigável para crianças, já que sua profundidade varia de maneira muito mais suave.

Visitamos também a cidade de Entrevaux. Essa cidade era protegida por um fosso natural do rio, somado às muralhas. Esses fatores, somado ao desenho preservado da cidade medieval e uma citadela em cima da encosta fazem dela um bom destino. A cidade é agradável, mas não é nada que compense um grande desvio. Também comemos crepes na cidade, o que apesar de bons, não compensaram o preço pago, duas vezes mais caros do que os do camping, mas certamente não duas vezes melhor (descobrimos o outro crepe só depois…). No quesito cidade, visitamos também a própria Castellane. A cidade é bem pequena e acaba mais servindo como base para turistas mesmo, mas a uma das igrejas da cidade, que fica sobre um imenso bloco de pedra que eu não sei nomear (muito grande e inclinado para uma colina, muito pequeno para uma montanha), apresenta uma vista privilegiada do vale em volta. A subida é cansativa e quase sem fontes (encontramos só uma, quase junto a uma das entradas da trilha), portanto subam preparados!

O ponto alto da viagem toda, na minha opinião pelo menos, é o Gorges du Verdon em si. O rio cava na pedra um imenso desfiladeiro, que pode ser visto de diversos locais diferentes, com destaque para o Point Sublime, que não recebe esse nome a toa. A altura do lugar, somado às matas em volta e a cor esmeralda da água fazem um cenário único. Só é importante tomar muito cuidado com as pedras nesse local, pois elas escorregam demais! Definitivamente, na beira do desfiladeiro isso pode ser uma combinação delicada. Muito próximo do Point Sublime, no sentido Castellane, há uma pequena estrada que desce até muito próximo do rio, e dali é possível seguir uma trilha pela encosta, passando por diversos túneis que foram usados como uma passagem de trilhos. Alguns desses túneis são realmente longos e escuros, então tenham uma lanterna ou um celular bem carregado! O último deles está fechado, pois houve desabamentos e inundações, mas há um caminho que contorna esse túnel. Para quem quer fazer essa trilha toda, ela começa em algum outro local, e por um bom trecho dela segue como “mão única”. Nós nos deparamos eventualmente com esse ponto e tivemos que voltar. Mas esse trecho que não fizemos deve ser feito só por pessoas hábeis e experientes, já que é marcado como alta dificuldade.

Nós aproveitamos o trecho que fizemos mesmo e descemos alguns pequenos caminhos que chegavam ao rio. Havia indicações de proibido nadar, mas muitas companhias de turismo fazem descidas pela água na região, então não nos deixamos convencer pela hipocrisia e entramos na água gelada. Havia muitos pontos onde era possível subir na pedra e pular seguramente na água de alturas em torno de 10 metros. Nadamos bastante por aqui, aproveitando a lipidez da água e a beleza do cenário, enquanto desviávamos de hordas de pessoas com roupa de neoprene sendo levadas pela correnteza. A Clara demonstrou toda sua coragem nesse dia e pulou diversas vezes de todos os pontos que encontramos no caminho. Logo mais, vídeos desses momentos virão!

Comparando esse lugar com o já descrito Congost de Mont Rebei, devo dizer que não é possível escolher um “vencedor” no quesito desfiladeiro. Os dois apresentam características muito diferentes e possuem seus atrativos em separado. O congost de Mont Rebei é surpreendente pelo caminho cavado no meio da pedra e pelo volume de água entre as paredes, resultado da inundação da represa. As pontes por cima do rio são uma diversão extra também, balançando enquanto as pessoas tentam cruzá-la. Já o Gorges du Verdon possui mirantes mais disponíveis e mais mata à vista. Também é mais fácil de nadar ali, não que seja impossível no primeiro, só mais difícil mesmo. Resumindo, visitar um não anularia nem um pouco a beleza e diversão de visitar o outro!

Seguiremos na próxima sexta com a parte da Itália. Acho que em mais um post encerraremos a descrição dessa viagem!

DCIM100GOPRO

Lac du Castillon

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Entrevaux

DCIM100GOPRO

Vista do Point Sublime

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Passeios nos túneis ao lado do Verdon

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Passeio de pedalinho pelas Gorges a partir do Lac Saint Croix

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Castellane

DCIM100GOPRO

(Para mais fotos e para todos os vídeos, muito bons, com paisagens das estradas, pulos e saltos nos rios e lagos e muito mais, entre na fan page do facebook do Blog da Jurema e acompanhe também pelo Instagram Ju Marra).

Estanys de Certascan e Naorte

Estanys de Certascan e Naorte- 03/07/17

Desde antes de vir para a Catalunha que eu tinha vontade de visitar a região desses lagos, tendo visto eles no google maps e marcando com uma estrelinha, pensando no dia que eu os visitaria. Pois bem, agora nós fomos e podemos contar como foi!

Saímos cedo de La Seu, passamos por cima das montanhas que levam a Sort (esse caminho já está ficando conhecido!) e de lá seguimos o vale na direção norte até a vila de Tavascan. A cidade é minúcula, mas possui alguma estrutura para explorar as altas montanhas que a cercam, como hotéis e jipes. Passamos a cidade e entramos na estrada de terra, mas logo nossas expectativas foram frustradas, pois o caminho que subia até mais próximo dos lagos estava fechado por uma corrente e havia uma placa que dizia que só proprietários podiam passar. Sem querer desanimar, estacionamos o carro e seguimos a pé, afinal uma placa de trânsito só pode legislar sobre a passagem de veículos, mas não de pedestres!

Esse contratempo acrescentou em torno de 3h de caminhada ao nosso dia, em torno de 14km a mais de caminhada e imagino que uns 600m a mais de desnível. Isso sem contar a redução de velocidade que tivemos pelo resto do dia, decorrente da fadiga. Certamente a caminhada ainda assim valeu o dia, mas tivemos muito mais dificuldade para terminar e algumas consequencias, como lesões por impacto e queimaduras de sol.

De qualquer jeito, subimos pela estrada até chegarmos em uma cachoeira, no fundo do vale. Até agora não sei o nome dessa cachoeira! Ali, não encontramos mais o caminho (a estrada seguia para outro lado), mas sabíamos pelo mapa que o lago estava pouco acima de nós. Então perguntamos para 2 funcionários do que parecia uma companhia de energia e que trabalhavam ali se eles sabiam o caminho. Eles nos disseram que teríamos que dar uma volta pela estrada mesmo, um caminho bem longo.

Bom, nós não temos tanto apego assim pelos caminhos oficiais, e decidimos então subir pela encosta, acompanhando a cachoeira! A escalada não foi difícil, mas o terreno, apesar de inclinado, estava bem encharcado, e a Ju pontuou que era o primeiro brejo de encosta que ela via na vida! Eu molhei o pé logo no começo, o que me rendeu uma bolha bem incômoda pelos próximos dias…

Após essa escalada off trail, encontramos o caminho já no topo. Seguimos por ele até o refúgio La Porta del Cel, uma casinha muito arrumadinha quase no lago. Ali, fomos avisados para amarrar o Picot, pois o burro que ali habitava não simpatizava com cães e os atacava. E nós, que inocentemente estávamos preocupados com os ursos que habitam a região, quando o perigo real era o burro!

Logo depois disso, chegamos no que talvez seja o lago mais bonito que já vi na vida. Ele se escondia quase no topo dos Pirineus, a poucos metros da divisa com a França. As montanhas em volta eram imponentes, e a água do lago de um azul escuro surpreendentemente transparente. Podíamos ver a uma profundidade que estimamos ser de 15 metros, mesmo ainda sendo muito próximo da margem, já que o lago afundava muito rápido. A água era extremamente fria, e com isso desistimos de qualquer ideia de tentar nadar.

Não ficamos muito tempo ali, já que o atraso da estrada fechada já tinha nos custado muito, e tínhamos horário para chegar de volta na cidade… Pegamos a trilha que saia desse lago e seguia até o Estany de Naorte, menor e em terreno mais baixo. O caminho foi todo pontuado por pequenos riachos de água transparente, onde matávamos a sede e o Picot se refrescava. Ao chegar no Naorte, paramos um pouco para descansar. Esse lago fica em um local bastante curioso. Logo ao lado dele está um paredão, por onde o ponto em que a água sai dele faz uma cachoeira bem alta. A vista do outro lado do lago faz parecer que ele flutua acima do vale, ameaçando cair a qualquer instante!

Deste ponto, a volta foi pautada por uma descida interminável, onde nenhum de nós três conseguiu completá-la impunemente. O Picot se jogava em qualquer sombra que encontrava, a Ju reclamava de dores em locais variados e eu sentia meu pé rachando no ponto em que ele havia molhado. Mas no final conseguimos chegar sem graves consequências, e o caminho de volta foi também bastante tranquilo. Não fosse as imposições de uma propriedade privada em meio a uma área de preservação (o que me deixou bastante irritado, alguém ser dono de um pedaço de um parque natural) teríamos uma experiência menos sofrida para relatar.

La seu - tavascan

La Seu – Tavscan

Tavascan - Camí

Tavascan até o ponto onde tivemos de deixar o carro

Rota dos estanys

Rota aproximada (mal desenhada no paint) que fizemos a pé. O google não reconhece como trilha possível a pé (talvez por isso tenha sido tão bonita e tão dolorida hehehe)!

DCIM100GOPRO

A cachoeira

DCIM100GOPRO

O dia em que escalamos o brejo!

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Pequeno lago após a cachoeira e antes do refúgio

DCIM100GOPRO

Estany de Certascan

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Estany Naorte

DCIM100GOPRO

Walden feelings

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Ultimo estany pequeno, antes de voltarmos pra estrada (esse tem acesso bem próximo para carros, mas apenas os jipes autorizados).

(Mais fotos na fan page do Facebook!)

Roca de Canalda

29/04/17

Decidimos meio que de supetão que faríamos uma trilha, então eu procurei alguma coisa bem perto para que pudéssemos fazer uma caminhada em pouco tempo. Tivemos uma grande surpresa em perceber que algumas coisas muito próximas a La Seu são absolutamente incríveis, ainda que pouco reconhecidas!

Tem um site muito bom que dá as melhores sugestões. Pra quem gosta de caminhada e está vindo para qualquer parte dos Pirineus, vale a pena dar uma olhada (http://www.rutespirineus.cat/). Pegamos uma próximo da vila de Canalda, um lugarejo encravado no meio das serras, afastado dos vales principais de região. A estrada até lá já é uma coisa deslumbrante, passando por vistas incríveis dos vales maiores, além de algumas vilas muito bem cuidadas. A vila de Canalda é tão pequena que mesmo dentro dela desconfiávamos que era de verdade uma vila. É um aglomerado de 6 ou 7 casas, com uma igreja no meio, não mais do que isso.

O caminho começa indo da vila até um paredão ao norte, do outro lado da estrada principal que leva a Canalda. Após a aproximação do paredão, há uma pequena trilha sem sinalização clara saindo à esquerda. Claro que nós passamos reto e subimos a pedra toda antes de percebermos nosso erro. Nada de mais, pegamos uma vista boa lá de cima e arrumamos nossa rota. Ao entrar nessa pequena trilha o caminho começa a beirar o tal paredão e então, devido à proximidade, é possível ver diversas cavernas naturais pela encosta, a maioria estando entre 5 e 15 metros acima do solo. Também existem partes de ruínas de antigas fortificações feitas no local. Parte dessas ruínas são atribuídas aos Mouros, no período em que tomaram a região.

O caminho segue por uma trilha bem demarcada, mas há opções que se aproximam mais da pedra, e claro que seguimos pelo segundo. Foi possível encontrar algumas casas em ruína e uma inteira, trancada com um cadeado moderno. Não conseguimos descobrir o que havia lá dentro. Havia também uma pequena piscina natural e uma quase-cachoeira, ambas muito bonitas de se ver. Durante o caminho todo é possível observar muitos pássaros, de corvos a rapineiros, todos fazendo seus ninhos na encosta.

A trilha acaba em um pequeno zoológico, que na verdade mais parece uma granja com alguns animais da região, como esquilos, cervos e corujas. Não entramos, pois o Picot não era aceito, mas pra quem tem crianças imagino que seja uma boa experiência, pois há sessões de vôo das aves e a maioria dos animais são dóceis e podem ser tocados. Na grade, pelo lado de fora, encontramos um cervo pequenino, mas adulto (não sei a espécie exata) que encrencou com o Picot. Ele atacava a grade e bufava, enquanto a fêmea corria por detrás. O Picot tentou se aproximar e latir, mas tanto recuava com as investidas do Jão (apelido que o cervo recebeu) quanto seus latidos finos não ajudavam a impor respeito. No final, demos muita risada da situação antes de sairmos do local.

De volta a cidade, pegamos o carro e passamos por algumas cidades, como Sant Llorenç de Morunys, que nos impressionou com o tamanho (incomum pra localização) e pela beleza das montanhas e da represa em volta, e por Tuixent, que já tínhamos passado perto quando fomos a Pedraforca, mas não paramos lá na ocasião. Também vimos a estação de esquí de Port del Comte, já fechada por não ter mais neve suficiente, e um bairro de mansões que se desenvolveu ao pé da tal estação.

No total, o passeio foi bastante agradável e pudemos conhecer uma regiãozinha escondida, tão perto de La Seu e ao mesmo tempo tão desconhecida!

18198051_1460450210694281_1495453553_n

Seguimos (na maior parte do tempo) a trilha verde pontilhada (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

18253888_1460450220694280_217841839_n

Os números marcam os pontos de interesse da trilha e sua descrição pode ser lida na foto seguinte (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

18197249_1460450197360949_1420379929_n

pontos de interesse da trilha (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Paredão

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

É possível ver as Coves dels Moros

DCIM100GOPRO

Na foto não fica claro, mas as gotas caíam leves, mas em grande quantidade, formando uma espécie de cortina de água, que embaixo formavam um riacho. Parecia uma cachoeira de fadas! Na fan page do Facebook estão mais fotos e vídeos. 

DCIM100GOPRO

Essa era a casa que estava em melhor estado, e ainda com portas e janelas fechadas com cadeado e correntes modernos

DCIM100GOPRO

As “Coves” mais baixas são fáceis de entrar e explorar (as mais altas só com equipamento de escalada e vimos vários grampos presos na pedra)

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Jão, o cervo bad boy, pronto pra briga. Para quem quiser conhecer o Zoo:  Zoo del Pirineu

DCIM100GOPRO

Vista de Sant Llorenç de Morunys

Para mais fotos e vídeos, incluindo vídeo do Jão brigando com a grade, da cortina de água e outros, confira nossa fan page do Facebook: Fan Page Blog da JuReMa 

Pedraforca

20/04/17

Fazia tempo que queríamos ir até a famosa Pedraforca, um dos locais mais famosos da Catalunha. Mas devido a sua enorme altitude (passando de 2.500m), estávamos esperando a neve sumir para poder caminhar com mais segurança e menos esforço. Finalmente decidimos ir, num momento em que tínhamos visitas do Couchsurf em casa. Dani e Tiziana toparam ir com a gente, sem saber do perrengue que passaríamos todos juntos…

Começamos a trilha mais tarde, pois acabamos fazendo outras coisas antes de sair, e o caminho até lá também não era dos mais rápidos. Longe não era, mas a estrada passa por uma região de muitas montanhas, reduzindo muito nossa velocidade. Eu fiquei realmente impressionado com a beleza das vilas no caminho, que tinham além de uma excelente paisagem, casas muito elegantes e parques bem cuidados. Só imagino que seja proibitivo viver nessas cidades se você tem labirintite…

Chegando no Mirador Gresolet, ao lado nordeste da Pedraforca, começamos a trilha. Foi um caminho bem curto até o Refugi Lluís Estasen, onde o caminho bifurcava. Estávamos com o plano de subir a pedraforca pelo Coll de Verdet, fazendo a volta em sentido anti-horário. Fato é que muito cedo na trilha nós nos perdemos e até agora eu não consigo precisar o caminho que fizemos. Tentamos nos manter sempre o mais próximo possível da escarpa. Quando o terreno permitiu, atravessamos um grande paredão de pedra e começamos a andar em um terreno de grande inclinação, que eu imagino que era a face norte, já que a neve ainda estava bem alta, apesar de dura a maior parte do tempo. Esse trecho foi um terror para nós, mas uma alegria para o Picot, que rolava na neve com veemência!

Depois de sofrer bastante para andar uma distância bem pequena, devido ao tipo de terreno, alcançamos um pequeno lago e as inclinações amenizaram. Seguimos até um campo que dava vista para Gósol, e portanto do lado oeste da montanha. Dali caminhamos até um dos cumes, caminho que o Dani encontrou rapidamente, e pela crista seguimos mais um tanto, felizes de saber que haveria pouca subida dali pra frente. Digo um dos cumes porque a Pedraforca, como diz o nome, se bifurca, apresentando dois cumes distintos.

Ao terminar o trecho que andava pela crista, bastante acidentado e com uma vista incrível, chegamos ao meio das duas cristas da pedra, e então descobrimos como era acidentado o caminho de volta. A descida talvez tenha sido ainda mais lenta que a subida, já que cada passo era um desafio. O solo se soltava com facilidade e os locais para apoio eram pequenos e escorregadios. De certa maneira isso não seria um problema, pois poderíamos ir mais devagar. O agravante, porém, era que só nos restava 2 horas de luz solar…

Eu tentei manter um ritmo na descida, estimulando o resto do grupo. Todos já estavam muito cansados, inclusive eu, mas não havia outra opção viável. No caminho, fomos agraciados com a visão de um rebanho inteiro de o que imagino que sejam cervos. E, torno de 10 deles ficaram nos vigiando a distância, enquanto nosso grupo se recompunha. O Picot se conteve e evitou correr atrás dos animais, mas imagino que nesse ponto até ele já estava mais cansado.

Parece que durante o processo também pegamos um caminho mais longo do que pensávamos, e o tempo para descer acabou sendo absolutamente justo. Saímos da trilha pouquíssimos minutos antes da mais completa escuridão tomar conta do local. A Pedraforca faz jus a sua fama, sendo um local absolutamente maravilhoso, a vista dos cume alcançando regiões vastas. Mas também não é um local para ser explorado sem muito cuidado e preparo. Ficamos com essa lição!

mapa La Seu - Mirador Gresolet

Mapa trilha

Era para termos feito a trilha pontilhada de verde e branco, acabamos dando uma volta aproximadamente equivalente ao tracejado vermelho que fiz sobre o mapa. 

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Subida de inclinações nada suaves 

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Não é efeito de perspectiva: eu estava aqui e eles lá. Haja perna e pulmão. 

 

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

Obs: mais fotos disponíveis na fã page do facebook: https://www.facebook.com/blogdajurema/

Congost de Mont Rebei

Congost de Mont Rebei – 02/04/17

Dessa vez eu vou escrever um pouco mais, mas não sem motivo. Juro!

A ideia pra essa trilha veio de fuçar a internet, mas a motivação final veio quando uma companheira de aula de catalão, quando perguntada se havia visitado o Prat de Cadí, perguntou de volta se havia ônibus para lá. Com a resposta negativa da professora, veio junto uma cara de frustração e desolamento da aluna. Eu e a Ju não nos aguentamos e a convidamos para caminhar conosco. Fizemos uma lista de locais para visitar, mas a verdade é que o mais bacana de todos e o único sem metros de neve cobrindo a passagem era o tal Congost de Mont Rebei.

Na data combinada então fomos nós dois, o Picot, a Lena (já referida) e a Marion (que também fazia aulas, mas naquela altura já tinha parado) para o Congost. Saímos às 9h e depois de uma longa viagem de 2h30 com direito a uma volta desorientada pelo Território de Aragão, chegamos ao destino. O caminho não é difícil, mas o trecho final, já perto de Pont de Montanyana (sim, escreve assim) é mal sinalizado. Quase tive um enfarte quando chegando lá o guarda da entrada perguntou se eu tinha reserva. Mas ainda haviam vagas de estacionamento livres e isso não fez diferença dessa vez.

Começamos a trilha em meio a uma multidão de gente, devido ao lindo dia de sol, ao fato de ser domingo e também por ser uma das trilhas mais famosas da região (o que, aliás, é plenamente justificado). Caminhamos por um trecho plano e aberto até termos que atravessar uma ponte de metal que cruzava um pequeno desfiladeiro. O Picot achou a ponte perturbadora, mas corajoso e disciplinado como é, atravessou sem reclamar muito.

Logo mais a trilha começou a inclinar, ate chegar a um caminho cavado na pedra, já no paredão do tal Congost. A vista dalí é um tanto assustadora, pela inclinação da queda e pelas dimensões da natureza em volta. O paredão é imenso, e ao olhar para o outro lado e ver o equivalente em outra perspectiva, a sensação de pequenez toma conta da gente rapidamente. A água abaixo é de um tom esverdeado esmeralda que reflete bem a luz do sol, quando essa entra pela abertura do cânion.

Depois de um bom tempo caminhando pelo estreito e movimentado corredor, a trilha finalmente sai do paredão e desce consideravelmente em direção ao rio. Em um trecho ensolarado e pedregoso que pensávamos que podíamos tentar nadar, paramos para comer. Depois disso o bom senso falou mais alto e procuramos um local mais seguro para o banho. Ali era fácil entrar na água, mas parecia realmente difícil de sair depois…

Seguimos a trilha convencional até uma segunda ponte, que atravessa pro outro lado do rio, território aragonês. subimos um trecho bastante inclinado e com uma pedra bastante lisa compondo o caminho. A Lena argumentou que a pedra parecia engordurada, e a Marion nos disse que se quiséssemos seguir sem ela, ela esperaria ali para não nos atrasar, sem saber ela que nós também já estávamos acabados!

Voltamos até o ponto anterior a segunda ponte, onde eu tinha visto antes um píer de madeira no final de uma trilha secundária. Lá nos preparamos pra nadar, mas a maioria do grupo só pulou rapidamente na água e já saiu para o sol, pois estava realmente gelado lá dentro (não tanto quanto na Cascada del Molí, mais ainda assim bem gelado!)

O caminho de volta foi bem tranquilo e, devido ao nosso cansaço, mais silencioso. Também pelo horário, o caminho estava muito mais vazio. Aproveitamos para dar uma última olhada nos precipícios imensos e nas variação de cor de acordo com o horário. A Marion bem observou como as árvores abaixo de nós estavam com uma tonalidade arroxeada, por exemplo. Já no carro, voltando para La Seu, eu e a Ju conversamos longamente com a Lena sobre as possíveis escolhas para o futuro (ela logo mais terá que escolher uma faculdade), enquanto a Marion tirou um cochilo invejável.

Enfim, o dia foi extremamente agradável, em um local maravilhoso e com excelente companhias. O Picot exultava de felicidade com uma matilha muito maior do que estava acostumado e acho que todos nós pudemos aproveitar fartamente o dia!

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

Prat de Cadí

 18/03/17

Depois de um bom tempo sem uma caminhada original pra relatar, resolvemos seguir o conselho de um amigo e explorar a região próxima à face norte da Serra de Cadí. Achamos no nosso mapa algumas marcações que pareciam interessantes e seguimos o caminho até lá!

Pegamos a estrada até Martinet, cidadezinha que faz a divisa da Cerdanyà com Alt Urgell. De lá pegamos a estradinha para Estana. Tivemos a surpresa de cruzar com uma região de bunkers (também especificado por esse amigo), construídos ali, segundo a placa, devido ao medo que Franco tinha de uma possível invasão francesa. A sequência de fortificações e túneis parece aberto em outros dias, mas não no sábado… De qualquer jeito, é bem interessante reparar nesse trecho da história dos Pirineus.

A subida até Estana é longa e tortuosa. Dá pra sentir a temperatura caindo e o vento intensificando. A vila em si é muito charmosa, e tem uma vista privilegiada da serra. Há, no início da trilha, depois de passar a cidade em uns 700m, um estacionamento. Mas nós não sabíamos e paramos na cidade mesmo, o que foi bom, pra poder observar as casas reformadas que provavelmente servem para veraneio.

A trilha segue bem demarcada e sinalizada, apesar de ser em boa parte bem acidentada. Também é uma das mais movimentadas que fizemos até agora, junto com a dos Estanys de la Pera. São obviamente as mais famosas, não à toa, pois são também as mais bonitas. A inclinação do caminho é leve, mas constante. Só um trecho escapa disso, e a neve abundante exatamente ali fez a subida um pouco mais delicada. Vimos, na volta, um grupo de senhores e senhoras desistir da caminhada exatamente nesse trecho. Porém, não estavam com nenhum equipamento específico e apesar da disposição, não pareciam ter a mesma mobilidade de décadas atrás. Mas com exceção desse trecho, o caminho todo até o Prat é fácil, seguindo principalmente por entre bosques e só eventualmente saindo para algum trecho aberto.

A chegada ao Prat é para deixar claro porque a trilha é famosa. De repente, o campo se abre em um platô logo abaixo da Serra de Cadí, com as imensas pedras que formam a espinha tão próximas que é possível ver seus detalhes. O campo estava todo nevado, e se alguma parte já derreteu, eu não quero saber como estava antes! Não levamos equipamento adequado porque não achávamos que seria necessário. Mas afundamos até a coxa na neve, e as mãos doíam de frio ao tentar se levantar. Também tivemos neve adentrando o tênis e a meia, uma sensação desagradável, que nos fez tomar a decisão de guardar nossas polainas de proteção permanentemente no porta-malas do carro.

Algumas pessoas descansavam na lateral do Prat, enquanto outras passavam esquiando pela leve inclinação da região. O Picot ficou realmente impressionado com o fato de pessoas passarem a tal velocidade sem movimentar as pernas. Mas logo depois disso, ele se recuperou e nos ajudou a achar uma trilha para nos aproximarmos mais da Serra sem ter que atravessar a neve. Mas nosso esforço durou pouco, pois logo percebemos que pra qualquer lugar que fossemos a neve nos cercaria.

Voltamos pelo mesmo caminho, agora só na descida. Foi bastante tranquilo, exceto pelas meias molhadas. Conseguimos chegar em casa ainda cedo, não tendo nos desgastado tanto quanto em outras caminhadas. Essa trilha, além de belíssima, também é boa opção pra quem não está com todo aquele preparo físico, mesmo com seu total de aproximadamente 12km.

DCIM100GOPRO

Bunkers

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Vista de Cadí em Estana

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Picot rolando na neve

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Chegada ao platô

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Cadí em detalhes logo aí do lado

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

A travessia do platô exigia equipamento pra neve, mas não tínhamos no dia

DCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Arseguel: cidadezinha onde paramos na volta para conhecer. Um charme! 

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

Dicas de trilha – vestuário

Quando fazemos trilhas parecemos crianças! Tá, eu sei que eu pareço criança sempre, mas o André faz a fachada de sério até estar no meio do mato. E é um tal de senta no chão, se joga de qualquer jeito, sobe em árvore, sacode a neve na cabeça, realmente, o espírito mais moleque fala alto nas trilhas. Aqui, com a neve e o gelo, descobrimos uma nova paixão, esquibunda, ou skibunda, versão neve! Cada colinazinha com um pouco mais de gelo é um convite pra descer escorregando. Descobrimos essa paixão no Pico Negro, como relatado no post específico do tema, e lá foi nosso melhor escorregador até agora pois tinha realmente muito gelo e descíamos facinho! Parceia até tobogã!

De lá pra cá o André tem tentado fazer o mesmo em qualquer barranco com neve que encontramos, e às vezes da certo, às vezes não. O não, às vezes não é um problema, ele só fica parado no chão, mas às vezes é, quando tem pedras no caminho escondidas na neve. E com isso descobrimos alguns senhores rasgos nas calças. Esses rasgos foram costurados e abertos de novo, com adicionais novos na trilha seguinte. Então passei a última semana pesquisando calças impermeáveis e rip-stop, e devido à pesquisa resolvi compartilhar com vocês algumas dicas relativas à vestuário para trilhas!

Dando uma folga na série SP by JuReMa, volto então nas Dicas de Trilha – vestuário! Fiquei muito feliz pois recebi um feedback positivo com o primeiro post de dicas de trilha, no qual comentei calçados, então espero que possa ser útil nesse também.

Bom, o básico de quem faz trilha é o fato de que subir montanhas à pé, geralmente carregando seu próprio equipamento, gera esforço físico e muito calor e suor. Mesmo na neve, mesmo no frio, o calor e o suor estão presentes. Então o bom caminhante se prepara para o esforço físico e se prepara para as camadas! Camadas são a palavrinha chave aqui! Principalmente se considerarmos que numa viagens de vários dias, seja mochilão urbano ou na montanha, você precisa carregar pouco e leve (já que vai tudo nas suas costas mesmo) e estar preparado para variações climáticas. Então vamos à todo meu amor por camadas!

A 1ª camada deve sempre ser de um tecido leve, que facilite a passagem do suor para fora do corpo, que seja de secagem rápida, tanto para secar em uma noite após lavagens quanto para secar do suor. Então prefira tecidos sintéticos, mas não confie em qualquer sintético. Algumas das roupas vendidas por aí como “fitness” ou “roupa de academia” na verdade retêm ainda mais o suor, apesar de secarem rápido após lavar. A roupa deve não só permitir, mas favorecer a transpiração. Para tempo quente, isso fica bem óbvio.

Para tempo frio, existem três opções de 1ª camada. Eu pessoalmente prefiro a mesma dri-fit que uso no verão! Sou calorenta e suo mesmo nas subidas. Mas para os friorentos existem as opções de esqui. Malhas térmicas que favorecem a transpiração e ao mesmo tempo auxiliam à manter o calor do corpo. No Brasil são mais caras, pois a demanda é menor. Aconselho comprar as de esqui, ou de corrida no frio! Existem muitas roupas 1ª camada térmica, que são excelente para dar aquele aporte de calor extra, que secam rápido e são leves e sem volume algum, mas que não são feitas para esporte, e por isso retêm o suor. E aí você me pergunta, mas qual a obsessão com o suor? E daí se eu estiver suada? E daí que se o suor não evaporar, a roupa de baixo fica úmida, a pele fica úmida e com o tempo frio essa umidade vai baixar muito sua temperatura corporal, aumentando o desconforto e o frio. Então no frio é essencial que o suor possa sair e seu corpo possa secar! Nas trilhas eu uso geralmente a primeira camada só na parte superior do corpo (camiseta) pois não sinto tanto frio na calça, e daqui a pouco vou falar das opções de baixo).

A terceira opção de 1ª camada eu ainda não testei mas estou louca para adquirir (assim que o orçamento permitir) que é a lã de merino! Merino é um tipo de carneiro neo-zelandês, que enfrenta temperaturas entre 35º (verão) e -25º (inverno). A sua lã é especial pois no animal ela já cresce em camadas, fazendo o papel que tentamos imitar aqui. Entre suas propriedades estão o fato de que seca muito rápido, segura o frio, permite uma respiração tão boa quanto a de dri-fit no calor, e não fica com odor, permitindo múltiplos usos antes de ser lavada. Por isso é a mais recomendada para excursionistas que acampam por vários dias! Eu quero muito testar essa questão do odor!!! Existem, nas lojas especializadas, desde regatas, passando por blusas justas de manga longa, até casacos de 2ª camada de lã de merino.

Mas se você for contra utilizar lã animal, ou simplesmente não quiser pagar o valor (é mais alto), o sistema de camadas funciona maravilhosamente bem com os sintéticos! Uso há tempos e super recomendo. Não use a primeira camada de algodão! Eu era super a favor do algodão e contra sintéticos, pela saúde da pele. Mas é tudo uma questão de conhecer os diferentes tecidos sintéticos e saber escolher. O algodão permite a transpiração, mas em velocidade mais baixa e com isso fica úmido e pesado. No verão isso já gera uma carga de peso e calor, mas no inverno é terrível, pois ele não seca embaixo das demais camadas, especialmente da impermeável, e com isso você fica com muito frio, além do sobrepeso. Então se foque em uma 1ª camada de excelente transpiração!

A segunda camada é para tempo frio. No calor pule essa etapa! Eu tenho uma preferência por flecee, um tecido sintético, que aporta muito calor, e é muito leve, seca em uma noite e aguenta muito frio! O mais importante, é que ele deixa o suor passar. E com isso não fica úmido nem pesado. Além disso não acumula odor. O flecee existe em diversas gramaturas, assim como qualquer tecido (só não estamos acostumados a reparar) e essa gramatura pode ser observada ao toque ou nas especificações da etiqueta ou site de algumas lojas especializadas. Os mais finos aportam menos calor e os mais densos mais calor. Eu ia escrever os mais grossos, mas a beleza do flecee, é que ao contrário da lã, ele não fica mais grosso, fica mais denso, mas mantém a leveza.

Para finalizar a terceira camada deve ser impermeável. Como sempre existe a preocupação com o clima, seja a chuva, a neve ou o gelo, a terceira camada deve também conter o vento. Existem tecidos impermeáveis, outros perlantes e os softshell, que são corta-vento. Vamos compreender as diferenças! O perlante é aquele que quando molhado por pouco tempo, sem ser submergido, repele a água, ou seja, você consegue visualizar a gota escorrendo sem deixar rastro, mas caso seja submergido ou fique em contato, por exemplo sentada na neve ou na grama úmida, ele vai aos poucos absorvendo parte da umidade. Para trilhas na neve quando você evita sentar no chão (sente em pedras ou sobre o casaco), ou para chuvas finas e breves, funcionam perfeitamente bem. O bom do perlante é que existem alguns que permitem a respiração da pele, e com isso você consegue que a transpiração saia e a pele seque. Mas em caso de ventos fortes, a sensação térmica de frio vai ser maior.

Os impermeáveis de verdade são aqueles que parecem mais plásticos. E por isso mesmo impedem a transpiração. Por isso o ideal é que tenham zíper próximos à axila que você possa abrir nos momentos de maior esforço físico e fechar em caso de chuva ou vento forte, controlando a temperatura interna. O tecido mais plástico tende a ser menos confortável na pele, então convém investir nos um pouco mais caros, que possuem forro telado, que evita o contato direto por dentro. Os impermeáveis devem ser usados no inverno e verão. Para o verão, eu aconselho colocá-los só quando a chuva começar. No frio eles são especialmente úteis, pois impedem que a umidade da neve e do gelo se torne um problema, e barram o vento!

O vento é uma questão muito importante e que muita gente desconsidera. A diferença entre temperatura real e sensação térmica pode variar bastante e com ventos fortes a sensação térmica tende a ficar 10º abaixo da temperatura real. Os impermeáveis, pela característica mais plástica (poros selados), barram completamente o vento. Os tecidos com softshell são os que melhor lidam com o vento, pois possuem uma espécie de cobertura, “casca” que é específica para barrar o vento. Os impermeáveis tendem a ser tecidos mais leves e moldáveis, os softshell são mais rígidos. Para os corredores podem ser úteis, embora sejam mais quentes.

O impermeável, per si, não aquece, embora por barrar o vento e a transpiração já suba a temperatura corporal significativamente. O softshell é menos aconselhado em mochilões, por ser mais rígido e mais adaptado ao frio. Mas caso você faça um mochilão mais urbano ele pode ser mais útil. Vale a pena conhecer.

Em todos os tecidos, de frio ou calor, é importante conhecer a tecnologia rip-stop. Que eu saiba ela foi desenvolvida para roupas militares e aos poucos migrou para o esporte, como acontece com muitas tecnologias. O rip-stop, significa exatamente isso, traduzindo do inglês, para rasgo. O tecido rip-stop possui inúmeros fio extremamente resistentes, embutidos no tecido, formando pequenos quadradinhos. Quando o tecido rasga, o rasgo desfia só até encontrar um desses fios mais resistentes e para ali. É importante destacar que o rip-stop não impede que o tecido rasgue, ele pode ser cortado com facilidade, seja por tesouras, facas, pedras, abrasão, etc. A vantagem é que o tecido não desfia, permitindo que seja costurado e aumentando a durabilidade de um tipo de vestimenta que vai sofrer com as intempéries e abrasões de uma vida ao ar livre.

Minha última observação sobre roupas para a trilha é sobre roupas íntimas. Vale a pena investir em roupas íntimas que também possuem a característica de não reter o suor e ter secagem rápida. Já me aconteceu muito de ficar com a roupa íntima encharcada de suor e a camiseta e calça secas, formando aqueles famosos e indesejados desenhos da sua underwear molhada marcada na roupa. Além de denunciar o que você está usando por baixo, se a roupa íntima fica úmida isso aumenta o desconforto, na trilha aumenta significativamente o risco de abrasão com a pele, especialmente considerando o atrito que justamente essas peças terão contra sua pele. No frio, além do atrito e da abrasão, há a questão do frio provocado pela umidade junto ao corpo. Quando falo de roupas íntimas me refiro não só a calcinhas e cuecas, mas tops (ou sutiã) e meias! As pessoas esquecem que meia também faz o papel de roupa íntima! Meias de secagem rápida fazem maravilhas pelo conforto dos pés! Se o calçado for impermeável ele vai reter o suor, mas com meias desse tipo, 5 minutos após retirar o calçado, seus pés estarão secos, o que fará toda a diferença para dormir, tanto em termos de conforto em geral, quanto de temperatura e odor.

Montando as camadas: (verão) roupa íntima que permita a transpiração, camiseta dri-fit (se for trilha em mato fechado ou com muito sol prefiro mangas longas, mesmo no calor, pois protegem do mato, insetos e raios UV). Por serem muito leves, quando o tempo tá excessivamente quente eu molho a camiseta, e deixo secar no corpo. Alivia o calor, e posso manter a manga longa. Mas as mangas curtas e regatas também funcionam bem, e uso dependendo da situação.

Calças de tecido extremamente leve, rip-stop e transpirante. Eu prefiro calça a short pelo mesmo motivo da manga longa, evita mato alto, cortes de espinhos, alergias a plantas, insetos e sol. Gosto das que possuem zíper e podem ser “transformadas” em bermudas. Podem ser especialmente úteis quando você quer nadar e está sem biquíni por baixo. Se bem que a roupa íntima esportiva tende a cobrir mais que biquíni e rola de usá-la. O zíper às vezes me incomoda um pouco, se a trilha for muito íngreme, e exigir muita flexibilidade do tecido na altura dos joelhos e coxas. Nesses casos o zíper diminui a flexibilidade. Eu gosto muito de leggings nesse tipo de trilha, embora elas não possuam bolsos nem sejam resistentes à abrasão. Algumas marcas especializadas possuem calças com excelente elasticidade, mantendo os bolsos e a resistência. São mais caras, mas eu prefiro. Geralmente também prefiro as perlantes, pois como sou calorenta, acho que as impermeáveis barram muito a transpiração. Mas levo uma impermeável simples na mochila pro caso de chuva forte.

Para o inverno acrescento aí o flecee. Embora na subida ele tenda a ficar na mochila. Até agora, mesmo com a neve e as temperaturas negativas só usei o flecee uma vez durante uma trilha inteira, e foi a da Bastida d’Hortons, que realmente o tempo estava fechado e com muita neve. Às vezes saio com ele, e tiro depois que o corpo esquentou, e até agora tive que colocar depois uma vez só, pois subimos muito e lá em cima estava uma nevasca e ventos assustadores, e acabamos voltando. E o impermeável. No verão o impermeável fica na mochila até segunda ordem (chuva), mas no frio gosto de colocá-lo logo para barrar o vento. E vou abrindo e fechando o zíper para ajustar a transpiração e o controle da umidade.

Meu impermeável foi dos mais completos, mas valeu cada centavo. Ele possui todas as funções, incluindo capuz, que pode ser completamente retirado, ou guardado enrolado em volta da gola. Embora sempre use com ele aberto, para proteger da chuva e/ou vento. Ele é telado por dentro. Já usei no verão só regata e ele por cima e a sensação com a pele é ótima. Além disso ele tem uma infinidade de pequenos bolsos, bolso pra óculos, pra luvas, pra celular, apoio elástico para o fio do fone de ouvido, etc. Também possui mil ajustes, ajuste de cintura, pulso, capuz, barra, e tem um cinturão interno para barrar completamente o vento, travando ele na cintura por baixo com bastante eficácia. Usei no Pico Negro, onde ventava horrores e foi muito eficiente. Na verdade eu descobri 85% das funções dele aqui nas montanhas, embora já tenha há quase três anos, pois no Brasil não tinha pegado nem tanto frio, nem tanta altitude. É o vermelhinho de todas as fotos! Me sinto uma personagem que não muda de roupa, mas a roupa muda, ok! Só o casaco que não!

A calça impermeável cheguei a conclusão, depois dos rasgos da do André, que vale a pena uma mais completa, com tecido rip-stop e aberturas laterais que permitam vesti-la por cima de outra, mesmo já estando no meio da trilha, caso a chuva chegue de repente. Uma lição que aprendi foi comprar a calça impermeável uns 2 números maior e fazer um bom ajuste de cintura! Perdi uma calça impermeável cara assim. Foi triste. Comprei muito justa. Usei no Brasil e estava ótimo, pois usei ela pura, sem outra por baixo. Cheguei aqui e precisei usar por cima de tudo, e dessas roupas mais grossas de inverno e ela ficou ridiculamente apertada, me travou muito a perna e quase joguei ela fora no meio da trilha dos estanys de la Pera, de tanta irritação que estava por não conseguir mexer a perna adequadamente, especialmente na subida, pois ela travava meu movimento ascendente. Prefiro parecer o Bozo com uma calça gigante do que não conseguir me mexer!

O André ouviu meu conselho até demais e comprou a nova impermeável gigante! Grande até demais, mas fizemos ajustes e ainda achamos que melhor grande demais do que pequena demais! Na trilha o conforto é primordial! Quando conseguir vou adquirir outra maior pra mim! Por enquanto tenho as perlantes, e uma impermeável simples, dessas bem de plástico fino, que segura em caso de chuva forte.

Em relação aos assessórios, alguns são imprescindíveis. Eu sempre estou de cabelo preso, e na trilha, com suor, vento, se ele não estiver firme fico louca. Então além de prender com elástico ou presilha, gosto de ter uma faixa que pode ser colocada na testa ou um pouco acima, que além de manter o cabelo fora dos olhos, segura o suor também. Aqui tenho usado muito minha pescoceira. O nome é feio, mas ela é incrível. Comprei uma de ciclista pra pedalar na poeira da seca de Brasília, e ela tá sendo minha salvação na neve! Protege o pescoço do frio, tampa no nariz e as orelhas quando o frio ta pegando, e se faz calor demais e o suor pega, enrolo e coloco na cabeça. A versatilidade dela é chave nesse esquema. o André advoga sempre em defesa do cinto! Além de segurar as calças no lugar, pode ser usado de várias formas no mato, inclusive como apoio de tala em caso de acidente, ou para fazer compressões, substituir uma tira de mochila rasgada, etc.

Por último, uma capa de chuva de mochila. Para ser usada em caso de chuva. A minha mochila, que foi presente de casamento maravilhoso dos amigos maravilhosos (quem te conhece é outra coisa né!) é perlante também, e só precisa da capa em caso de chuva pesada, na neve e chuva fina ela segura bem! Além dela, ganhamos vários equipamentos de camping e trilha, mas faço um outro post pra discutir mochilas, equipamentos, etc, porque já escrevi mais do que vocês dão conta de ler de uma vez!

E não se esqueça: camadas! Camadas e tecidos que permitam a transpiração!  E boa trilha!

ps: Caso você não precise trabalhar com roupas formais ou uniformes específicos, elas funcionam muito bem na cidade também, afinal é a selva de concreto!

ps2: A Decathlon é minha paixão, encontro lá tudo, com várias opções de preço e ótima qualidade. Vale a pena pesquisar bem no site e comparar os stats  da roupa, como nível de aporte de calor, inflexões de impermeabilidade, gramatura, rip-stop, etc, e ver os diferentes itens com diferentes preços.

Além das marcas da Decathlon, como Quechua, Forclaz, Kalenji, Wed’zee, e outras, para outdoors recomendo as coisas da North Face e Nord. A Trilhas&Rumos faz bons equipamentos e mochilas, no Brasil. Me decepcionei um pouco com a Timberland depois da destruição da minha bota na neve, mas nunca tive roupas para comparar. De um modo geral essas marcas são mais caras que as da Decathlon, então opto por essas hoje em dia. Meu casaco impermeável é da Nord, mas já vi outros da Quechua muito semelhantes e até com mais opções. Meus flecees são quase todos Quechua. Tenho um da Nord que veio acoplado no impermeável. O mais importante não é a marca, mas você se sentir confortável e ao mesmo tempo saber que pode confiar, ou seja, que não vai ficar na mão no momento de adversidade. Quando você está no mato o estilo não importa, importa o conforto e a sobrevivência!

Pequenas caminhadas

Um dos principais motivos para viver em La Seu D’Urgell, pergunta que nos é colocada com frequência tanto aqui quanto do pessoal no Brasil, foi uma junção de preços (custo de vida) com o cenário! Estamos aqui para caminhar! Andar muito! E apesar da neve, do frio, do mês auge do inverno, fizemos um número considerável de caminhadas, essas que vocês tanto acompanham aqui pelo blog. Mas algumas semanas chove mais do que outras, o clima fecha, também temos nossos compromissos na cidade, junto à internet, e nem sempre é possível fazer uma caminhada longa. Mas não é por isso que deixamos de andar. Damos nossas voltinhas pela cidade mesmo. Os parques da cidade são muito gostosos. E há também um sem número de caminhadas menores, até os povoados próximos, de 30 minutos, 1h, ou até 2h. Às vezes apertamos uma dessas depois da aula de catalão, ou entre uma chuva e outra, um horário de almoço, etc.

La Seu conta com dois parques muito gostoso, o Valira, que é junto ao rio Valira, mais natural, com uma vista muito bonita. Às vezes vamos lá, embora seja do outro lado da cidade e por isso uns longos 8 minutos de caminhada lenta, saindo de casa. De lá, outro dia, subimos pra Castell Ciutat, e de la andamos sem parar, passando por Montferrer, vendo muitas casas grandes e pequenas, brincando com cachorros e gatos pelas frestas das cercas e portões. Descobrimos uma autêntica torre medieval convertida em pequenos apartamentos, todos para alugar, com uma vista esplêndida do vale. Procuramos uma ponte para cruzar o rio, e não encontrando, andamos entre pequenas chácaras, com muita lama e gelo no nosso caminho. Fizemos amizade com mais cachorros, alguns cavalos, e uma porca, que vivia junto de duas cadelas de guarda e possivelmente se considerava uma delas.

O outro é o Parc Olímpic del Segre, junto ao rio Segre. Ambos margeiam a cidade. O Segre segue paralelo à cidade, mas parte de seu curso foi ligeiramente desviado, formando o parque olímpico de remo, em diversas modalidades, construído para as Olimpíadas de Barcelona. A parte de remo fica aqui em La Seu, e a medalista em remo de 2016 Rio é espanhola, mora e treina aqui. O parque conta com uma infraestrutura para remo, raias de treino e áreas com corredeiras artificiais para rafting. Além disso têm uma academia, centro de treinamento, uma área aberta com parque infantil, alguns bancos, arena de cimento para assistir e é uma parte significativa da representação da cidade. Aqui o Papai Noel não tem vez, quem traz os presentes de Natal na Espanha são os Reis Magos, em janeiro. A Cavalgada dos Reis magos é esperada com ansiedade, e nas cidades grandes, como Madri e Barcelona é um evento muito importante. Em La Seu substituíram a cavalgada pelos botes de rafting. Foi um evento único assistir os 3 reis descendo nos botes, cada qual a sua maneira, entre alegre, desesperado, atrasado, com direito a um show pirotécnico no final, seguido de uma parada pela cidade onde doces eram distribuídos para as crianças. Eu tenho aproveitado muito esse lado lúdico, idílico, da cidadezinha de interior, cheia de festivais feitos à moda antiga, com papel machê, purpurina e participação das crianças e escolas locais. Para os fãs de Gilmore Girls, é meu momento Stars Hollow!

De dentro do parque do Segre sai uma via, que segue em parte calçada, mas logo vira uma trilha de terra, com alguma brita esparsa, que segue margeando o rio até Alas, um povoado bem próximo, 4km. Muitos moradores aproveitam para caminhar, correr ou passear com cachorros nessa trilha. É plana e bem próxima ao rio, mas a paisagem é bonita, especialmente com a Serra de Cadi ao fundo, imponente! Essa é uma das caminhadas que repetimos mais vezes quando o tempo está curto.

Logo atrás do Segre, seguindo pela região mais rural, com pequenas fazendas leiteiras e algumas chácaras com hortas, entre La Seu e Alas, há uma igrejinha simples e bonita, bem no alto de um dos morros menores. Num domingo de chuva escapulimos até lá, quando o tempo abriu um pouquinho. Nos perdemos na lama, encontramos cavalos, muitas vaquinhas e alguns cachorros. Entramos e saímos de propriedades, nem sempre onde deveríamos estar, mas sempre com o intuito de chegar a trilha. Enfim chegamos e subimos até a Igreja. Os arredores mostram sinais de que não são poucos os que sobem ali. Alguns dizeres revolucionários nas paredes, alguns nomes, casais e corações, alguns vestígios. Mas dentro da Ermida de Sant Antoni del Tossal, que estava trancada, dava para ver que estava tudo arrumado e bem conservado.

Num outro domingo atravessamos a estrada (por uma das passarelas, não me canso desses caprichos) e subimos à esmo o morro que dá acesso a Calbinyá, outro povoado minúsculo bem próximo, e encontramos uma pista de pouso de aeromodelismo. Algumas construções meio abandonadas, e uma parte reformada, que parece guardar os equipamentos de manutenção da pista. Voltamos pela estrada e encontramos mais cachorros e lama.

E assim vão passando os dias chuvosos. Quando tivermos mais dias de sol, mais tempo, e mais planejamento, o André volta a contar na sexta de viagens dele um pouco das nossas trilhas mais significativas.

Nessa quarta tínhamos a intenção de subir o Coll Midós de novo (post mais antigo aqui em viagens) e dormir no refugí de lá, acampados, com inverno e tudo. Mas saímos bem mais tarde do que o recomendado, e fomos surpreendidos por muita, muita, muita neve, apesar do sol. Fazia neve e sol ao mesmo tempo (casamento espanhol – finalmente entendi o ditado), a neve chegava na altura do quadril em alguns pontos, tornando a subida quase impossível, e o vento era aterrador. Em alguns momentos o vento quase me derrubou! Aí o bom senso falou mais alto e voltamos pra cidade. As intempéries foram tantas que não consegui tirar nem meia foto! :/

Mas o plano de acampar na neve ainda está de pé. Só precisamos planejar melhor! Aí a gente dá os detalhes!

Valira:

img_3492img_3496img_3498img_3499img_3503img_3505img_3544

Segre:

img_3257img_3258img_3259img_3260img_3262img_3263img_3264img_3266img_3267img_3269img_3270img_3272

Églesia de Sant Vicenç de Montferrer, rellotge de sol (inscripció): Sine Sole Solus Sole Salus

eglesia-de-sant-vicenc-de-montferrer

Ermida de Sant Antoni del Tossal:

img_3547img_3553img_3554img_3555img_3556img_3562img_3564

Turó de Porredon e Bastida de Hortons

26/01/17

A previsão para o dia era de clima fechado em todas as regiões próximas da Espanha, mas com um pouco de curiosidade, descobrimos que na França faria sol. Pode parecer meio estranho, já que a França está a poucos quilômetros de distância. Mas como tem uma cadeia de montanhas no caminho, parece ser frequente cada lado apresentar um clima distinto. Então nos preparamos para uma volta maior até um mina de estanho por lá, mas quando saímos de casa na manhã seguinte, descobrimos que todo o nosso planejamento foi em vão. Havia nevado tanto que as estradas que passaríamos certamente estariam intransitáveis. Para não perder a viagem, decidimos por uma trilha bem próxima e até curta e baixa, visto os obstáculos que já se apresentavam. Fizemos o seguinte caminho:

La Seu – Turó de Porredon – La Bastida de Hortons – La Seu

Saímos da cidade pela ponte que cruza o Segre e seguimos pela estrada que indicava a Bastida. Nosso plano era passar primeiro na vila e depois no Turó, mas no caminho encontramos uma placa que indicava uma trilha para a montanha e resolvemos aproveitar. Seguimos pelo lado de um canal artificial, mas a água estava toda congelada, às vezes até com neve por cima (no gelo tende a não acumular tanta neve). Era possível ver inúmeras pegadas de animais diversos tanto dentro do canal quanto fora, parece que muitos andam pela região!

Depois de aproximadamente 1km, uma ponte apareceu e a trilha, bem demarcada seguiu por uma lateral da estrada que passava por ali. Aqui começou a subida leve mas constante que se manteve até o pico. Começou também um questionamento meu sobre os motivos de subir se não veríamos muita coisa lá de cima. Mas a novidade de caminhar dentro de um bosque inteiro nevado (em outras ocasiões pegamos neve alta, mas só em descampados) acalmou minha inquietação. O frio fazia a respiração ser difícil, e parar pra descansar anulava o conforto térmico que o caminhar gerava. Não tinha muito como evitar os dois problemas simultaneamente, então alternávamos um pouco. Por várias vezes eu também assustei pensando que algum animal se movia nos arbustos, mas era apenas a neve que caía e com isso o galho, mais leve que antes, saltava.

Passamos por um pico menor, onde meu ceticismo paisagístico se desfez. Podíamos ver montanhas muito distantes por cima das nuvens baixas. No vale estava uma bruma pesada, mas passamos para cima delas e a mistura de tonalidades de branco com a imponência das montanhas foi algo para não se esquecer mais. Claro, o céu continuava nublado, mas já eram nuvens distantes. Seguindo a trilha, fomos até o pico, enquanto a paisagem lentamente se tornava mais e mais imponente.

Depois dos 500 metros de desnível entre La Seu e o pico, começamos a descida. Primeiro por uma trilha, depois por uma estrada. Houve uma pausa para construir um boneco de neve, mas a mão da Ju, mesmo de luva, começou a esfriar muito. O boneco não ficou muito completo ou bonito, mas minha esposa continua tendo duas mãos, então acho que estamos no lucro!

Chegamos rapidamente na Bastida, um povoado com casas mais imponentes que qualquer outra vila até agora, além de um cão fofíssimo que conhecemos no portão de uma dessas casas. Muita coisa na cidade também estava desabando, e eu achei particularmente curioso essa dualidade de mansões/ruínas. Dali, em vez de pegar a estrada de volta, fomos por um atalho de trilhas. Nesse trecho, o sol começou a aquecer o vale todo e podíamos ver as árvores todas pingando neve derretida e refletindo o sol. Acho que por mais que tentássemos, isso não poderia ser bem representado por fotos, já que o processo todo envolve muito movimento e imersão na cena.

O caminho de volta foi tranquilo, a nossa trilha chegou à estrada e de lá voltou até La Seu sem obstáculos. Nesse ponto já nos desfazíamos do equipamento mais pesado para neve (um beijo especial para as polainas, que evitaram que as botas se encharcassem) e caminhávamos mais descontraídos.

Acho que não haverá mais um dia de neve tão pesado quanto esse. Sinceramente, morar em local frio não é um absurdo, como se pinta por aí. Com roupas adequadas e uma casa construída com isolamento adequado, sente-se muito menos frio do que no inverno paulista, por exemplo. Fica a saudade da nevasca e a decepção por não ter sido tão assustadora quando pareceu que seria…

img_3585

O estacionamento, coberto de neve. 

img_3587

img_3588

Tentando limpar toda a neve do carro

img_3589

img_3590

Dentro do carro, quando percebemos que ir de carro não seria uma boa ideia, e resolvemos olhar o mapa e decidir por uma trilha próxima a pé

img_3591

Rio Segre às 8h30 da manhã 

img_3592

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Essa parte reta no centro baixo da foto é uma ponte, o rio ta embaixo dela, da neve e do gelo

DCIM100GOPRO

Trilha a esquerda da foto, com as pegadas e rio a direita

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Mesmo com a neve a sinalização é visível, tanto em placas quanto nas árvores com faixas pintadas das cores das trilhas 

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

img_3593img_3595img_3600

img_3607

Marcas de trilha pintadas no tronco da árvore

img_3608img_3609img_3610

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Quando o sol começou a abrir, cerca de 13h da tarde

DCIM100GOPRO

img_3623img_3624

Serra del Morral

19/01/17

Fizemos essa trilha bem pertinho da cidade pra ver de perto o que o nosso mapa indica como Torreta dels Moros e Torre de Sant Climenç. O caminho foi todo por uma serra baixa que faz a parede nordeste do vale de Castellbó, com a ida pelo lado Sul e a volta pelo lado norte. Foi uma trilha curta e sem grandes dificuldades, e as recompensas que ela trouxe foram menos exuberantes do que em outros locais como os Estanys de la Pera ou Pic Negre, mas ainda assim foi agradabilíssima e ainda fizemos algumas amizades inter-espécies no caminho! Começamos e terminamos por Aravell.

Aravell (1) – Hotel Rural Mas d’en Roqueta Pirineos (2) – Torrent de Mas d’en Roqueta (3) – Mardiscla (4) – Torreta dels Moros (5) – Torre de Sant Climenç(6).

1 – Essa cidadezinha parece quase inteiramente composta de “segundas casas”. Tudo parecia muito caro e fechado, além da presença incomum de um campo de golfe. Na verdade, pouco mais pode ser dito desse lugar, exceto que não é muito convidativo e que abundam as placas de “propiredade privada, proibido passar”…

2 – O caminho seguiu até esse hotel, que parecia ter pouco movimento na ocasião. Há quadras de tênis e outras coisas do estilo. O que realmente fez valer a pena ignorar as placas avisando para não passar foram 2 cabras muito simpáticas em um recinto de madeira!

3 – Subindo pela lateral direita do hotel, a trilha faz uma curva a direita e logo outra a esquerda. Nesta segunda, uma pequena estradinha de terra sai pelo lado. Depois de evitar vários caminhos onde as placas nos proibiam, resolvemos ignorar o aviso e passamos a linha imaginaria dessa tal propriedade (não havia sequer um arame para demarcar). O caminho então seguiu até um riachinho encoberto por uma mata alta e depois o acompanhou. Eventualmente a estrada nos obrigou a uma virada brusca à esquerda e uma ladeira inclinadíssima surgiu, como esperado pelo mapa.

4 – Depois de subir um trecho curto mas quase vertical, chegamos ao topo da Serra del Morral, e a estrada seguiu até uma casa isolada na montanha e que serve como marco na trilha. Não sei quem vive ali, mas imagino que tenha alguma habitação permanente, pois havia um cachorro que nos detectou de longe. A vista deste local é privilegiada!

5 – Quase passamos reto por aqui. Eu vi num canto afastado da estrada uma construção antiga de pedra e ao verificarmos percebemos que já era a tal Torreta. Parece bem antiga, a maior paerte dela já desabou. Também não é muito grande, até porque só serviria pra vigiar o tal vale de Castellbó, que não é assim um vale tão importante. Paramos aqui para almoçar um pouco de pão e pra eu procurar minha funda que eu tinha feito na noite anterior e já perdido. Mas achei, ainda bem! Mais na frente há uma outra ruína, no meio da neve, que parecia uma casa.

6 – A estrada bifurca algumas vezes depois da Torreta, mas mantendo a esquerda é possível dar a volta na serra. Chegamos a outra casa de grande porte, identificada como a Torre de Sant Climenç. Não vimos nenhuma torre, no entanto… Havia sim 3 cavalos soltos num pasto próximo, dois dos quais muitos dados. Vieram nos receber e ficaram pedindo carinho e nos seguindo. Mais um pouco e eu teria trazido eles para o apartamento para dormir conosco de conchinha. Mas acho que eles não conseguiriam entrar no elevador… Também havia uma igreja abandonada ali pertinho, descendo uma encosta e atravessando um rio e um espinheiro. O machado novo que levei (sim, eu comprei um machado!) quase foi útil, mas a Ju achou caminhos escondidos pelo meio dos espinhos e o meu trabalho foi em vão. Conseguimos depois de muito esforço e muitos cortes entrar na igreja, pensando constantemente em quem teria construído aquele coisa tão isolada. Dali, o caminho de volta foi só seguir pela estrada de volta até o hotel já mencionado.

Obs da JuReMa: na volta, já na cidadezinha de Aravell, enquanto andávamos na direção do carro, vi uma raposa linda, próxima a cerca do campo de golfe. Mostrei pro André e dessa vez ele viu também! (já tinha visto outra na estrada, mas como ele estava dirigindo não viu). Tentamos nos aproximar, mas no primeiro movimento ela fugiu. Foto, só as da memória! 

la-seu-aravell-hotel-mas-den-roqueta

La Seu – Aravell fizemos de carro. Até o Hotel Rural foi a pé. 

trilha-serra-de-morral

O trecho em laranja o google não marca, então fiz a mão mesmo. Seguimos pelo rio, até começar a subida, como descrito no texto. O trecho em azul é mais bem marcado, como uma estrada, o que fizemos em laranja são trilhas mais fechadas. O ponto marcado como Unnamed Road é a Torre de Sant Climenç. O trecho em laranja não está contabilizado e deve ter acrescentado cerca de  1h, na caminhada, dado que é uma subida. 

img_3516img_3517img_3518img_3520

wp_20170119_002

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Não parece, mas essa era a ladeira quase vertical. Minhas panturrilhas ficaram cheias de lembranças desse local no dia seguinte. 

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Torreta dels Moros

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

 

wp_20170119_003wp_20170119_004wp_20170119_005

img_3521img_3522img_3524

wp_20170119_006

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

Torre de Sant Climenç

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRO

 

img_3539img_3538img_3535img_3533img_3529

DCIM100GOPRO

A igrejinha em ruínas lá em baixo

DCIM100GOPRO

DCIM100GOPRO

o mar de espinheiros ao redor dela que deixou lembranças

DCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPRODCIM100GOPROwp_20170119_007wp_20170119_009

wp_20170119_007wp_20170119_008wp_20170119_009

wp_20170119_011

Essa comemoração toda era por ter entrado! Ficamos um bom tempo até conseguir acessar a porta por causa dos espinheiros. 

wp_20170119_012

img_3540wp_20170119_012DCIM100GOPRO