Road trip 3 (II)

Road trip 24 e 25/05 – Huesca, Pamplona, Logroño e Saragoça.

Dali até Pamplona a viagem foi rápida. Chegamos no meio da tarde e rapidamente nos localizamos. A cidade é até que grande, mas muito bem construída, de maneira que fica fácil se orientar por ela. Encontramos o hostel, onde o atendente foi absurdamente simpático. Nos explicou um pouco sobre a cidade e nos deu um mapa, além de me ensinar a falar obrigado em Basco (eskerrik asko)! Não sabia que Navarra também compartilhava a nacionalidade Basca e fiquei encantado com o quanto a língua deles é diferente, em todos os sentidos. Descansamos um pouco e tomamos um banho antes de sair novamente, o calor estava matando a gente!

(Obs da JuReMa: amamos o Hostel Xarma onde nos hospedamos em Pamplona. Além de sermos ultra super bem recebidos, ganhamos mapa, o Picot foi super bem aceito, o Hostel tem uma politica animal friendly! A cozinha pode ser usada sempre, entre 10h30 e 22h30 para preparação individual de alimentos. O café da manhã é incluso no preço e chá e café são gratuitos 24h, você só precisa esquentar sua própria água na chaleira /ou na cafeteira elétrica deles. Os quartos contam com opções coletivas, mais baratas, ou para duas pessoas, casal ou não. Pegamos uma de casal para acomodar o Picot melhor. Os banheiros são coletivos. Tudo muito limpo, charmoso e agradável, além de bem localizado!) 

A cidade de Pamplona (Iruña, em Basco) foi o ponto alto da viagem! A cidade funde o que existe de bom com o que poderia ser ruim mas acabou sendo bom também, e logo me explico. As construções das muralhas, das catedrais e de todo o centro velho se fundem com grupos imensos de jovens, idosos e adultos utilizando o espaço público. O uso da língua Basca e do castelhano se misturam em boa dose e sem presunção, respeitando o turista e o migrante ao mesmo tempo que valoriza o aspecto local. Sem presunção também são os estilos dos jovens, que não parecem se vestir necessariamente com a última moda ou para impressionar. Não é fácil encontrar pessoas super produzidas, mas é comum que cada um respeite seus gostos individuais ou coletivos. O resultado é uma mistura bastante saudável de velhos e novos figurinos que, de maneira geral, parecem feitos para agradar a quem veste, e não os outros. A cidade conta com muitas pichações e cartazes, mas todos em absoluto pedindo por mais liberdades, contra violências de todo tipo e pedindo melhorias no governo federal espanhol (notadamente a instauração de uma república – pra quem não sabe a Espanha é um reinado). As pessoas na rua param para puxar assunto sem mais nem porquê (apesar do Picot ter sido um assunto recorrente) e são agradabilíssimas. Assim, a cidade se enche de vida, de protestos, de história, de barulhos que provam que as pessoas ali tem uma vitalidade que dificilmente pode ser explicada!

Esse comportamento é condizente com a consrução da cidade, uma miríade de muralhas, passadiços, igrejas, fossos e fortes. As vezes é difícil saber pra onde se está indo, mesmo com um mapa, mas isso nunca tem problema, porque certamente o caminho será agradável. Passamos por pessoas bebendo, discutindo política, fazendo atividades circenses ou só passeando com o cachorro. Pasaamos por parques bem cuidados, um fosso transformado em granja para galinhas, patos e marrecos, por muralhas com uma vista surpreendente para o vale em volta.

Dormimos um pouco mais para recuperar nossas forças e saímos em torno das 9h30 de Pamplona. A viagem até Logroño foi tranquila. Lá, conhecemos uma cidade que parece bastante jovem. O centro velho é pequenino, mas muito bem cuidado, e a catedral é dedicada a Santiago, como tudo mais por ali. Me encantei com um parque que fica na beira do rio Ebro (nota: a palavra Ibéria vem desse rio, que os romanos usavam pesadamente) e com a Gran via deles (Juan Carlos I), uma avenida muito larga e com uma parte da calçada coberta pelos prédios, o que faz com que caminhar por ali seja muito agradável em dias ensolarados! Essa avenida me lembrou muito Lisboa, mas como já faz quase 20 anos que visitei Portugal, acho que precisarei voltar para poder ter certeza que a comparação foi boa!

O caminho para Saragoça foi quente, muito quente. Mas pior que isso foi a temperatura em Saragoça em si. Ao chegarmos, vimos o termômetro subir de 33°C para 36°C antes mesmo de parar o carro! O calor nos desaminou muito, e acabamos rodando muito menos do que gostaríamos. Vimos um pouco do centro velho, a praça em frente ao mercado onde há uma estátua de Augustus Cesar e, claro, a Catedral. Na verdade, não tem como não ver a catedral, já que ela toma conta da paisagem na beira do rio, com o seu tamanho e sua imponência. Ao tentarmos atravessar a praça, que é um grande descampado, o Picot começou a saltitar por causa do chão queimando suas patas, e tivemos que correr para a sobra com ele. A Ju até agora não se recuperou dessa cena. Entramos em turnos na catedral para poder cuidar do Picot. O que impressiona lá não é só o tamanho, mas o capricho com cada detalhe. Poucas das catedrais que eu já vi rivalizam com essa.

Ainda em Saragoça vimos um monumento em homenagem à America Latina ( o que me deixou especialmente feliz!) e uma estatuazinha de um cavalo de brinquedo, que deixou o Picot muitíssimo curioso. ele cheirava a estátua, tentando descobrir se era um animal de verdade. Um senhor parou para conversar com nós sobre como ele gostava da estátua e tudo mais, mas a Ju teve que traduzir pra mim, porque eu não entendi uma palavra do que ele disse… Dali fomos até o parque do outro lado do rio onde o carro estava e, antes de pegar a estrada de volta, tomamos um banho nas fontes, todos os três.

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Pamplona (inicio do passeio, recuperados do calor!)

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Catedral de Pamplona

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Centro de Pamplona

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Uma das inúmeras fortificações de Pamplona, hoje uma espécie de granja, com cervídeos, pavões, galinhas, patos, etc. 

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Dentro da Cidadela de Pamplona

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Não lembro o nome da cidadezinha, paramos no caminho só pra ver essa ponte! 

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Águas do Ébro, chegada a Logroño

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Ponte sobre o Ébro

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Logroño

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Igreja de Santiago

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Ponte sobre o Ébro, saindo de Logroño

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Zaragoza

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A (imensa) Catedral de Zaragoza

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Memorial da América Latina 

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Road trip 3 (I)

Road trip 24 e 25/05 – Huesca, Pamplona, Logroño e Saragoça.

Como não estávamos em condição de caminhar devido à um acidente que eu tive com um vidro, resolvemos fazer uma viagem de carro mesmo, para não ficarmos muito parados. Como já havíamos avançado nas regiões próximas da França e também até Tarragona, o destino mais óbvio desta vez foi seguir para Oeste, conhecendo as províncias vizinhas de Aragão, Navarra e La Rioja.

O planejamento foi meio de surpresa, feito de um dia pro outro, mas acho que nós estamos ficado bons nisso, porque mesmo assim a viagem foi surpreendentemente boa, apesar do calor escaldante que enfrentamos…

Saímos em torno das 5h30 de casa e pegamos a estrada direto para Huesca, passando por Balaguer. Ali vimos algumas construções que merecem ser visitadas em outra hora, como igrejas e ruínas que, pra variar, ficam no topo de colinas.

Chegamos em Huesca ainda cedo e demos uma volta a pé pela cidade. A universidade pareceu bem movimentada, e acaba atraindo muita vida jovem para o centro da cidade. A catedral é imensa e feita de uma pedra marrom, porosa, que parece se desgastar com o tempo. Outras construções na cidade são com o mesmo material, e elas ficam com pedaços da pedra faltando, principalmente na parte mais baixa, onde a água provavelmente pega mais… O prédio da prefeitura é bastante impressionante também, e no geral a cidade me pareceu muito tranquila.

Saímos de Huesca em direção norte, passando por um pequeno vale onde está localizada a cidade de Jaca. É claro que pensamos mil vezes em como fazer o trocadilho de enfiar o pé na Jaca, mas no final resolvemos não provocar muito. Isso porque a cidade possui uma presença militar fortíssima, pela sua posição altamente defensável, pela fronteira que faz com a França e provavelmente também porque é um lugar de natureza incrível e algum general de bom gosto resolveu morar ali.

A cidade tinha uma aura de tranquilidade e vida familiar, com conjuntos habitacionais muito simpáticos e aparentemente baratos (ficamos um tempo olhando a imobiliária, como de costume!), mas a falta de variedade de estilos nos jovens (coisa muito comum na Espanha de maneira geral) somado à presença frequente de policiais me fez achar tudo muito artificial e, de certa forma, assutador. A cidade é em si muito bonita, mas preferimos sair de lá um tanto quanto rápido.

Seguimos a viagem para o oeste, e eventualmente passamos em uma represa muito bem cuidada, onde algumas vans de acampamento estavam estacionadas. Isso alimentou ainda mais nossa vontade de fazer isso também o mais rápido possível. Logo depois encontramos ruínas de uma vila romana, imensa e até que bem preservada. Havia baias para os animais, termas e uma ponte que infelizmente já caiu, mas que fica em um cenário de filme de fantasia, cruzando o final de um desfiladeiro.

(Parte II – Pamplona, Logroño e Saragoça na próxima sexta aqui no blog!)

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Huesca

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Jaca

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Refresco pro Picot na estrada, saindo de Jaca

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Ruínas romanas

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Se vocês repararem bem, ali na ravina, há uma ponte romana quebrada. Aliás, que ravina maravilhosa! 

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Detalhes da ruína romana. Daí seguimos para Pamplona (ponto altíssimo da viagem!) que vocês podem acompanhar semana que vem no blog! 

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Cinza

Tirei os fones do ouvido, enrolei-os meticulosamente, como todas as outras vezes, enlaçando a volta final, para que não embolem, mesmo sabendo que todas as vezes quando os pego de novo, estão embaraçados, como todos os fios de fones do mundo. Fechei o caderno depois de anotar o conteúdo dado no dia. Tomei o último gole do chá, já meio frio, na caneca. Fechei o estojo. Empilhei tudo para guardar, a caneca na mão, e depois de deixar os livros, cadernos e estojo no quarto, de guardar o fone na gaveta, coloquei a caneca na pia. Voltei para o computador, único item que foi deixado sobre a mesa, e olhei pela janela. Cinza. O dia está nublado. Talvez chova mais tarde.

Levantei e busquei os fones na gaveta de volta. Hoje preciso de música para trabalhar. Hoje preciso de cor interna para lidar com o cinza do mundo. Não é o dia nublado que me incomoda, pelo contrário, amo dias chuvosos. Sou daquelas que gosta da chuva, das xícaras de chá, dos livros e das cobertas. Amo o frio. E todo esse cenário que me leva a introspecção. Mas hoje o cinza com o qual luto não é o do céu. É o da alma.

Plim. Mensagem. Uma grande amiga. Pequenos pontos de cor e luz no meu dia. Um carinho que ganho enquanto ele passa do quarto para cozinha e me afaga, sem querer atrapalhar o trabalho. Mais um ponto de cor e luz. Entretanto o cinza persiste. Antes de tirar os fones a primeira vez, estava em aula. Conversava com um amiga e aluna. Existe um cansaço pairando no ar. Cinza. Me sinto cansada. Mentira. A energia está aqui. O que falta é motivação. Cinza. Fazer por que? Fazer pra que? Fazer com que objetivo? Tudo está cinza.

Pena que o chá já acabou. Podia tomar mais uma caneca agora. A Tiê no fone me traz um pouco de cor. E as palavras derramam dos dedos em busca de luz. E o cinza continua em frente aos olhos. Fazia tempo que não sentia essa desmotivação toda. E aí, mesmo sem chá, começam as reflexões. Que tanto de cinza é esse na alma? Já sofri saudades profundas. Elas nunca me abandonam de todo, mas estão bem no momento. E ainda assim eu queria colo. Colo, cafuné, de mãe. Daqueles que espantam o cinza da alma.

Quanto mais velha fico, mais percebo o valor da motivação. O brilho dos objetivos claros. E nesse momento sofro duplamente com essa crise metodológica, no trabalho e na vida. Na alma. Qual é o objetivo que vai me tirar de todo esse cinza? Vim para fazer o mestrado e amo muito tudo o que ele me proporciona, especialmente as pessoas e as discussões. Mas será que vou ser uma professora universitária? Será que esse é o objetivo real? Será que terei um emprego no qual me sinta feliz? Que espante o cinza?

Trabalho voluntário, representação discente, estágio. Trabalhar com refugiados, pessoas que precisam muito. Ouvir algum agradecimento. Um elogio de algum professor. De um amigo. De um aluno. Uma boa companhia. Um momento de luz. Pontos de cor. E ainda assim o cinza está lá. Já tive momentos muito piores e consegui ver as cores com mais clareza que agora. Em parte, acho que esse cinza está aí justamente porque nesse momento não tenho prazos curtos, metas imediatas, motivações cotidianas, tudo é de médio a longo prazo, e nesse intervalo o cinza se espalha, na dúvida, na incerteza.

Outro ponto é o cinza que está no mundo. Quanta incerteza estamos vivendo. Quanto impacto sobre sonhos ideológicos. A política não está favorecendo, como disse Clarice no último álbum. Cercados de ódio, vendo crescer posições intolerantes. Cinza. Cinza na alma. Notícias de violências absurdas perpetuadas diariamente. E muitos concordando. De outro lado o circo, quanta informação inútil e incerta circulando. Quanta briga por coisa pouca, quanta falta de posicionamento em coisas grandes.

E não digo em relação a política interna só. Mulheres estão sendo estupradas como moeda de pagamento por serviços de “segurança” de soldados em zonas de conflito. Crianças estão tendo que pagar sua água com sexo oral. Não, isso não é sexo, é violência. E ela está aí. Uma parte de mim pensa: mas sempre esteve e antes só não sabíamos, não era denunciado, então agora estamos na verdade melhorando, pois pelo menos a denúncia está acontecendo. E aí penso, sim, mas se a informação está chegando, o que estamos fazendo de concreto?

Cinza. Sempre tive problemas em ficar só no conceitual. Minha alma queima e quero sair por aí, fazendo justiça com as próprias mãos. Até me lembrar que serei uma das primeiras a morrer se assim fizer. Aí tudo fica cinza de novo. E tenho vontade de ir para o meio do mato. Plantar minhas batatas e por lá ficar. Bem longe de tudo e todos. E deixar que se virem. E então vem o cinza, o cinza de estar sendo egoísta e não fazer nada para mudar a estrutura. E aí vem o cinza que surge do desespero de tentar fazer algo e não conseguir. Frustração.

O cinza tem muitos matizes: a indiferença, o ódio, a frustração, o egoísmo, o medo, e principalmente, a incerteza. O dia está cinza, mas minha alma está cinza pois não sei o que fazer. Hoje não sei qual dos caminhos poderia colori-la mais. Às vezes opto por me doar, e ajudo todos que consigo. Às vezes fico egoísta, e invisto em mim mesma, quem sabe não mudamos pelo exemplo? Às vezes fico otimista, e acho que nos reinventaremos no fim do arco-íris, com todas as cores. Às vezes acho que sei o que estou fazendo.

E em outros dias, só quero as cobertas, o chá e que o tempo passe para transformar minhas incertezas em fatos e acontecimentos, para diminuir a angustia de viver. E quando acho que nada mais tem solução no mundo, que estamos condenados e que nada que eu faça pode mudar nada, aí, bem aí, eu coloco os fones e ouço música. A chaleira ferve e eu faço um chá. A máquina para e eu penduro a roupa com cheiro de lavada. O alarme soa, e eu arrumo a mochila e cumpro com as missões do dia. E a vida volta. Entre obrigações, alegrias, pequenos sucessos. E assim vamos, até a próxima onda cinza. Até que a dúvida volte.

Certeza eu não tenho de nada. Só de que não adianta se entregar ao cinza. Tá difícil sim, pra alguns mais do que pra outros. As angustias e frustrações são muitas. Mas as alegrias e conquistas também. Enquanto isso vou cumprindo com as obrigações e alimentando os sonhos. Mudando o ângulo, ficando de ponta cabeça toda noite para ver a vida de outro lado, e achar soluções na minha imensidão azul, que afasta o cinza e as incertezas temporariamente. Entre tantas dúvidas, sei que resta viver. Tiro o fone mais uma vez, olho pela janela e há um sutil amarelado do sol acima das nuvens. Ele tá lá. Sempre. O dia continua cinza, mas sei onde procurar luz.E sei que tenho que aprender a conviver com o cinza.