Não viaje só para tirar fotos

Post rápido, só pra compartilhar com vocês um pequeno texto que li e concordei muito.

Nas minhas andanças, muitas vezes vejo as pessoas que estão ali, naqueles locais incríveis, apenas para tirar a foto com jeito de quem bate o ponto, e sair rápido em busca da próxima selfie, do próximo destino, da próxima compra. Muitas pessoas não sabem nada sobre os locais que estão conhecendo, não leem a respeito antes, durante ou depois (eu muitas vezes prefiro ler durante ou depois, para ter uma primeira impressão “não contaminada” das visões dos folhetos e guias, mas em outros momentos prefiro planejar bem, depende da viagem), não interagem com os locais de verdade. A impressão que tenho é que algumas pessoas não querem sair da mesma vida globalizada de sempre, com as mesmas lojas, comidas, caras e roupas e apenas tirar selfies com “fundos” diferentes, como se fossem o gnomo da Ameliè Poulain.

E penso também nas pessoas que gostariam de viajar e não podem financeiramente, ou que não conseguem por questões de medo, ou insegurança, e que são muitas vezes pessoas que conhecem os lugares, por livros, guias, mais do que locais!

Então é preciso juntar essas paixões! Se você pode viajar, faça uma viagem envolvente, que te mude de fato! Leia a respeito, pesquise e vivencie o local para além das selfies clichês dos pontos turísticos e da balada famosa. O mundo ainda é muito grande e diferente.

E se você gosta tanto de ler a respeito e sonhar, vá! Tome coragem, planeje-se financeiramente e em relação ao tempo e as dificuldades da vida. Muitos viajam com pouco, comendo comida feita em casa, pegando caronas, dormindo em casa dos outros. É possível, com um pouco de esforço e planejamento!

De todas as formas, por favor, viaje muito e viaje com a cabeça aberta e volte diferente, sempre!

Não vá viajar apenas como turista, pra tirar algumas fotos, postar no Instagram e voltar pra casa

“Eu sempre acreditei que, ao fazer uma viagem, o mais importante é ter a cabeça aberta.  Cabeça aberta e livre de preconceitos pra entender a cultura que você está emergindo. Pra experimentar as comidas típicas e fugir dos fast foods americanos. Pra conversar com os locais além de taxista, garçom e atendente do hotel.

 E eu te peço, não vá viajar apenas como turista, pra tirar algumas fotos em frente à monumentos, postar no Instagram e voltar pra casa.

Explore os lugares que você visita. Converse com as pessoas, ande sem direção pelas cidades, mergulhe de cabeça nas diferentes culturas que você conhecer ao longo da sua vida.

Deixe o mapa de lado e se perca. As vezes é se perdendo por uma cidade desconhecida que você se encontra na vida.

Se for um país pobre, não ande com medo dos locais.

Se for um país rico, não o ache melhor que os demais países. 

Entenda e respeite as diferenças de cada lugar.

Dessa forma, você terá sempre um pouquinho de cada cultura dentro de si, e nunca andará sozinha por aí.

 Não volte de uma viagem do mesmo jeito que chegou, apenas com umas fotos bonitas a mais no celular e uns dólares a menos na conta do banco. 

Volte sempre diferente, com novos aprendizados, novos amigos, novas histórias.

O conhecido já estará te esperando em casa, pra quando você voltar.

Fuja o máximo possível dele enquanto estiver longe.

Brinque com as crianças na rua, compre comida nas feiras, ande de transporte público, se vista com as roupas típicas, saia a noite com os locais.

Se uma viagem não te desafiar a sair da sua bolha, ela não estará te agregando em nada.

Crie laços com o desconhecido, é ele que vai te levar mais longe.” 

Texto da Amanda Areias disponível no: Mochila Brasil.

The Sounds

Outro Bloquinho de 3, ainda com inspiração do Goyte. O fio conector hoje são os áudios de início e fim, e as músicas menos convencionais. São 3 que eu gosto muito, apesar de admitir que não são das mais fáceis ou suaves de ouvir.

Goyte – In the State of Art

The White Stripes – Little Acorns

The Black Keys – Fight For Air

Vagabunda, anjo, mãe, filha: mulher

Fazia tempo, muuuuuito tempo que não rolava um bloquinho de 3 aqui, então vamos em homenagem à luta que é ser mulher, nos presentear com um pouquinho de música! E com mais de 3 músicas, porque eu não dou conta de tanta letra incrível e interpretações boas!

Mix up de Vagabunda e Problema Meu – Clarice Falcão

Vagabunda (completa) – Clarice Falcão

Problema Meu (completa) – Clarice Falcão

Cassia Eller – 1º de Julho

Letícia Sabatella – Geni e o Zepelim

Balzac

**Spoiler alert**

Geralmente faço referências difusas em meus reflexos, mas hoje receio citar a frase final de um livro, então, embora não seja novidade e nem capítulo da última série do momento, aviso, para aqueles que preferirem não ler o texto sem ter lido o livro.

Foi no ônibus. Embora seja final de setembro, em São Paulo ainda faz frio. Mas hoje fazia sol, apesar do vento cortante. Quem me lê com frequência sabe como aprendi a amar os poucos e raros dias frios porém ensolarados de SP. São meus novos dias preferidos. E acabo lendo muito no ônibus, melhor jeito que encontrei de lidar com as horas de trânsito dessa cidade. Minha combinação de fone de ouvido anti-ruído + músicas preferidas + livro me transporta para um mundo paralelo e me tira do caos e do stress dessa vida excessivamente urbana.

A trilha hoje era Travis. Estava lendo em português, e para não me distrair sempre inverto o idioma da música com o da leitura, ou ouço instrumentais enquanto leio. O cheiro que me invadia era o dos meus próprios sapatos, botas de chuva da Melissa, pois apesar da tarde ensolarada o dia amanheceu fechado. O sol na nuca, refletido do livro, a música e o cheiro de plástico foram meus companheiros das últimas páginas dessa leitura: A Mulher de Trinta Anos.

Uma gestação. Nove meses. O livro foi adquirido em dezembro de 2015, quando fui a Brasília no fim do ano, para as logo antes das festas. Agora em vinte e poucos de setembro, com os nove meses completos, eis que minha saga chegou ao fim, terminei a leitura. Não pense que demorei tudo isso para ler. Li em cerca de 5 ou 7 dias. O total que consegui em 9 meses dedicar para essa leitura tão pessoal. A vida não é mais a dos meus 13 anos, quando lia 30 livros em 9 meses por gosto. Aos quase 30, devo tempo à vida, enquanto mais um ano se passa.

Mais alguns dias e serei balzaquiana. Já que assim a vida é, e que já compartilhamos tantos verões, decidi lê-lo. O livro é um belo retrato de sua época, ilustrado por alguém muito à frente de seu tempo. Pensando no que era o papel da mulher no século XIX, ler a palavras de um homem que nos admirava e que escreveu uma personagem forte e sofrida, mas com empatia pelo seu sofrimento, é, na minha opinião, algo digno de nota.

De certa maneira me lembrou Chico Buarque, com sua capacidade incrível de ter eu líricos tão distintos e que expressam sentimentos coletivos tão bem. De certa maneira me lembrou Clarice Lispector, com suas personagens introspectivas, que vivem mil infernos enquanto compram ovos para a família. Pensando assim, a mulher do século XIX e a do XX mudaram a roupa e a roupagem, mas nem sempre o sentimento. Acho que a do século XXI está começando a mudar. Sou filha do século passado, da transição entre séculos, mas acho que as filhas desse século já estão mudando mais ainda.

Parei a 3 páginas do fim. Olhei a passagem, tive meu cheiro de Melissa brevemente suplantado pelo fedor do Rio Pinheiros enquanto o ônibus cruzava a marginal. O sol baixando. Uma pausa dramática? A vontade de prolongar os últimos momentos? Não. Apenas muitas reflexões. Eu sou daquelas que demora para entrar nos livros às vezes. Alguns me ganham na primeira página, outros só no terço final. Esse são os que gasto 4 meses para ler o primeiro capítulo, 1 mês para ler os capítulos todos até o meio e 3 dias para terminar. Balzac foi assim. Um pouco pior.

A literatura é definitivamente uma conversa. Nunca um livro é igual para duas pessoas diferentes, ou a mesma pessoa em duas épocas da vida, porque somo pessoas diferentes. E eu quis conversar com Balzac nessa virada para meus trinta anos, porque queria conversar com Balzac nos mesmos termos. Já fui Julie, já fui Juju. Talvez seja sra. d’Aiglemont, ou senhora Marra algum dia. Hoje conversamos de Jurema para Juliette. De Jurema para Hélene. De Jurema para Moina.

Em outro dia, um dia cinza, num outro ônibus da mesma linha, cheguei a sublinhar em caneta laranja as passagens mais significativas sobre a Juliette. Aquelas que estou segura são as mais conhecidas. Aquelas nas quais Balzac descreve e define a mulher de trinta anos. São passagens bonitas. Passagens que mostram uma Juliette com a qual a Jurema certamente conversa. Hoje, posso completar meus trinta verões segura de que compreendo Balzac. Certamente a mulher de trinta anos que sou partilha da força e da superação da inocência tal qual a balzaquiana:

“{…} porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abarcar todo o seu curso, tanto passado como futuro. As mulheres conhecem então todo o preço do amor, do qual desfrutam com o temor de perdê-lo: então sua alma ainda tem a beleza da juventude que as abandona, e sua paixão vai se fortalecendo sempre com um futuro que as apavora”.

Mais como a literatura é uma conversa única e pessoal, a parte que mais conversamos sobre, Balzac e eu, não foi sobre a mulher de trinta anos. Nisso concordamos, dado as diferenças de contexto histórico e sócio-cultural, e seguimos em frente. Paramos para filosofar na frase final. E aqui entra o grande spoiler, meus caros.

“- Perdi minha mãe!”

Foi aqui, na última frase do livro, que ele foi inteiramente resinificado, foi aqui, na última página, que nossa longa conversa começou. Foi aqui, onde a vida de Julie acabou, que a Jurema se viu. Não na Moina. A Moina é ainda a jovem, a mulher, talvez, de vinte anos. Eu provavelmente já fui um pouco Moina, e juntas perdemos nossas mães. Inclusive porque quando a perdi não era ainda a Jurema de trinta anos. A Jurema nasceu exatamente do luto. A Jurema conversa com Balzac depois que o livro acaba.

Claro que os trechos como “Suas dores secretas pairam sempre sobre sua alegria artificial como uma nuvem leve que esconde imperfeitamente o sol”, já estavam grifados em caneta laranja antes do fim, bem como “Será a tristeza, será a felicidade que confere à mulher de trinta anos, à mulher feliz ou infeliz, o segredo da presença eloquente?”. Jurema e Balzac já estavam conversando sobre a tristeza e a felicidade bem antes do fim. E embora a Jurema tenha tido lá suas dores de amores, elas foram pequenas perto das dores da perda, da morte, da ausência e da saudade, então esse diálogo, desde o começo, tinha um quê de unilateral, só para ao final se descobrir compreendido.

Baixando o livro de novo e contemplando o já quase pôr-do-sol, pensei nas minhas mulheres. Eu sou filha de uma mulher de trinta anos. Nasci nesse período. Venho de alguém que já tinha suas dores e decepções. Crescemos juntas. Na verdade, passamos pela perda da mãe juntas três vezes, pois venho de uma família matriarcal, onde mães e filhas muito compartilham. A primeira morte que vivi foi a da minha bisa, Vó Santinha, aos doze, e vi os efeitos aterradores que se abateram sobre minha vó, senhora soberana de nossa casa e família. Foi a primeira vez que acompanhei um enterro, e que vivi um luto dentro de casa. Minha festa de 13 foi cancela, e virou festa surpresa na casa de amigas.

Aos 23 vivi o luto da minha avó, e ouvi da boca da minha mãe a frase final de Balzac. Foi um período intenso. Desde a morte do meu avô, vivemos as três em casa, já três adultas, a de 20, a de 50, e a de 80. Foi uma convivência muito intensa. Com todos os trinta anos que separavam cada uma de nós, uma da outra. Se eu sou filha de uma mulher de trinta anos, minha mãe também foi. E essa diferença nos fez amigas ao longo das gerações, embora impossibilitadas de entender as dores de cada uma.

Tenho desse período da nossa vida a três memórias muito doces e memórias muito amargas. As brigas foram privadas e doloridas. As acusações cruéis. As dores reveladas, foram aquelas que elas nunca tinham revelado para ninguém. E apesar dos nossos duplos trinta anos de diferença conversamos sobre homens, sobre sexo, sobre amor, sobre casamento, sobre aborto, sobre liberdade, como nunca antes. Sem filtros, sem amarras. Às vezes com muito ódio, às vezes com muita dor. Naquele período eu conheci mulheres. Eu vi a face que não era da mãe e muito menos da avó. Eu conheci dores para as quais ainda não estava preparada.

Olhei para cima para os olhos beberem as lágrimas que os olhos marejados ameaçavam derramar em pleno ônibus e pedi perdão àquelas mulheres fortes que me criaram. Eu, com a inocência e a intolerância dos meus vinte anos não soube respeitar, admirar e compreender suficientemente suas dores. Fui Moina. Fui até Helene. Espero que elas saibam. Sei que no fundo sabem, pois eu é que nunca tinha sido uma mulher de trinta, e ainda não sou de 50 ou 80, elas já tinham sido mulheres de 20 anos. E nos momentos mãe e avó, me amaram e me perdoaram. Mas guardo na alma os momentos mulher, em que apenas nos odiamos, ameaçamos, machucamos.

Hoje, se tenho algo com que conversar com Balzac é sobre essa dor. A dor da incompreensão entre as mulheres de distintas gerações. Queria tê-las hoje vivas para dizer que começo a compreender. Mas tudo que posso dizer para Balzac hoje, é que perdi minha mãe. Faço o compromisso de reler aos 50, para conversarmos de novo, sobre Bia, sobre Zilah, sobre a senhora d’Aiglemont. E quiçá aos 80, quando nem Balzac mais me compreenderá. A única certeza é que a perda me ensinou muito. Principalmente sobre essa incompreensão.

Não sei se conseguirei conversar com o devido respeito, admiração e dedicação com as mulheres de outras gerações de seus 30 a mais, mas certamente conseguirei conversar com as de 30 a menos, alunas, sobrinhas, amigas, e perceber que se elas não me compreendem, pelo menos não precisam me perder por isso. Assim, espero, Balzac. Ou que no momento inevitável da perda, tenham pelo menos seus 30 anos, e que comecem a compreender.

Dos elogios feitos à mulher de 30 anos nada tenho a agradecer, nem reconhecer. No máximo concordar. Coloco meu pé nos 30 com a certeza de me sentir plena e feliz, embora sinta a exata sensação da felicidade sendo o sol, e das minhas dores sendo as leves nuvens, que perpassam os olhos em breves momentos do dia, às vezes chovendo nas noites, calada. Não sofro mais do que devo e me considero uma mulher livre, independente e muito feliz. Mas uma mulher não chega aos 30 anos sem conhecer pelo menos uma dor, nisso, concordamos, Balzac e eu. O peso que cada uma decide dar a essas dores, contudo, varia. A Jurema sugere que a mulher de 30, embora conhecedora das dores, seja leve, e livre.

Bem vindos, trinta! ❤

Spiritual

Faz tempo que não entro aqui. Faz tempo que não me escuto. Ocupada? Sim. Mas é mais que isso, é uma agitação e uma ansiedade que me fazem evitar o contato íntimo com a minha alma. Semana passada ouvi de uma amiga e professora, uma frase que ouvia da minha mãe com alguma frequência: “Ju, você precisa prestar mais atenção na respiração!”. É incrível como quando me abalo o que primeiro sofre é a respiração. Fico desequilibrada, desconectada, física, emocional e mentalmente.

Nas últimas semanas o tempo passou, e eu não. Ou eu passei, e o tempo não. Parece que eu e o tempo estamos desencaixados, descompassados. Ele não sobra, mas também não falta, e ainda assim não consigo cumpri-lo, cumprimenta-lo, olha-lo nos olhos. Estamos em vibrações diferentes. O desejo de dormir, de apagar, de vê-lo passar sem minha participação, aumenta.

Mas quando isso acontece nos distanciamos cada vez mais, fico fora do eixo, fora de mim, fora do tempo. Hoje isso chegou num pico. Percebo meu desequilíbrio. Tive vários pesadelos. Chorei algumas vezes, por cada besteira, ao longo do dia. Agora mesmo sinto meus olhos marejarem e as letras na tela embaçam por alguns segundos. Bebo mais um gole do chá, canela e gengibre, e volto a enxergar.

E o que há de errado, você me pergunta? E eu te digo, nada! E eu me pergunto, o que há de errado, Jurema? E me respondo: o mundo! Decepções, ansiedades, prazos, a loucura das pessoas. Existe algo de muito libertador em trabalhar de casa, estudar, fazer seu horário. E existe algo de muito tedioso, brochante e carregado em expectativas frustradas e ansiedades em escrever e reescrever o mesmo texto por dois anos. Em marcar e ter aulas particulares desmarcadas, em planejar breves viagens de fim de semana e ver a chuva cair, e a mochila voltar pro armário intacta, em fazer planos e eles serem esmagados pelo dia-a-dia inescrupuloso da vida na cidade grande, a cidade que não dorme, onde ninguém tem tempo, ninguém se vê, e um simples café é remarcado 3 ou 4 vezes antes de dar certo, se é que vai dar.

O celular vibra, incessantemente, 24h por dia, 7 dias na semana. Quantas mensagens e ligações são de fato, mensagens para você? Amigos, conversas, familiares? 2 ou 3 talvez, em uma semana boa. Trabalho, negócios, prazos, congressos, eventos, discussões nulas, negociações, preços, consultas, essas ocupam as outras horas todas. Mais uma vibrada, e eis que às vezes são familiares ou amigos de verdade. Pontos de luz. Problemas que se destravam, amizades que se renovam.

Alguns dias são tranquilos, e estar em casa é estar em paz. Alguns dias são angustiantes. Alguns dias são tristes e chuvosos. Alguns dias são de picnic no parque e caminhadas que renovam o amor pela vida. O chá, sempre fiel, ajuda. E a música, essa cura, resolve, acalma a respiração, me traz pro eixo de novo. Se escrevo isso agora é só porque fiz uso do meu remédio preferido, acabei de ouvir Beyonde the Missouri Sky inteirinho de novo. Mais uma vez. Só assim pra conseguir ao menos desabafar. Já compartilhei esse remédio dos anjos mil vezes com vocês. Deixo aqui de novo, novamente, sempre, e pra sempre, a música que me acalma, me traz pro eixo, de um tanto que a tenho na pele!

Que amanhã possa ser um dia de mais eu e menos mundo!

Ando tão à flor da pele

O sol bate em meu rosto. Depois de hesitar algumas vezes, verifico que o ônibus está quase vazio. Uma moça no banco do outro lado do corredor, comendo uma maçã, dois senhores na parte da frente. Um homem de terno uns três bancos à frente. Ninguém atrás. Ninguém pra me observar. Pego finalmente o celular e começo a digitar o texto. Esse é daqueles que vem me consumindo há dias, talvez semanas. Esse é daqueles que preciso cuspir. Vomitar palavras pelas pontas dos dedos. Pauso pra tirar o cabelo do rosto, observo o MIS ao lado. O sol bate gostoso, ainda é inverno e dias de sol são tão raros em SP! Essa é a combinação que me exige expor o texto agora, o sol, que alimenta a vontade de sair por aí, e a música, sempre no fone, onde o Zeca Baleiro afirma sua vontade de chorar e nesse ponto eu percebo o quanto estou à flor da pele! Não vejo novela, mas qualquer demonstração de emoção tem me feito chorar! Seja uma reunião de orientação, uma conversa com o marido (ainda é muito curioso chamá-lo assim), um e-mail, um sonho de padoca, adicionado da culpa por o ter ingerido, ou o brigadeiro negado! Tudo me faz chorar, ou pelo menos ter vontade de chorar. Sim, estou à flor da pele.
O trânsito empacou! Checo o relógio e me pergunto se chegarei na USP a tempo de tudo o que preciso. Não aguento mais precisar tanto de tantas coisas. Como diz o Zeca na minha orelha, não preciso de muito dinheiro, Graças a Deus! Mas cumpro meus compromissos, e agora são 4 meses pela frente de compromisso! Amanhã defendo a quali! Estou mais calma do que esperava. Só torço para não chorar! Essa flor da pele toda me complica muito às vezes!
As passagens estão compradas! Vou ficar quase um mês longe do meu amor, o que aperta o coração com antecedência! Mas vou ficar sabe-se lá quanto tempo longe de todo o resto. E isso aperta mais a boca do estômago do que o coração. Ansiedade! Vontade de ir logo! E ao mesmo tempo aquela expectativa adiantada.
Não é a primeira vez que vou! Longe disso! Sei bem, desde os 11 anos de idade, depois reforçado aos 15, que uma vez que essa mosquinha da viagem pica a gente, já era. É uma doença pra vida. Chega uma mensagem. Paro para responder. É justamente ele, pedindo informações sobre documentos que estamos organizando para as burocracias. That’s it! Agora é diferente. Por vários motivos. Vou sem saber de muita coisa. Quase sem certezas! Mas não vou só! Como a vida da voltas. Já fui várias vezes e todas com a estadia, a volta, todos os detalhes nas mãos. Mas geralmente sozinha. Às vezes até tinha um grupo, mas o sentimento foi encarado só. Nem todos nos grupos são picados pela mosquinha da viagem. Nem todos voltam sem saber seu lugar no mundo, pelo contrário. Para alguns ir mostra exatamente qual o lugar que esse ser de insere, seja aqui ou lá. Alguns são nômades, aliens, E.T.s, peças sem quebra-cabeça. Às vezes acho que quebrei uma parte da minha peça e por isso não me encaixo em lugar algum. Depois lembro que não foi um acidente, fui criada assim. Nessas horas sou Mafalda.
Paro pra pegar um mini Halls cereja sem açúcar. Ainda estamos no trânsito. Essa cidade me envolveu de uma forma inexplicável, viciante, encantadora e desesperadora ao mesmo tempo. Às vezes só quero fugir, ir embora, não ter que enfrentar o trânsito, as horas no ônibus cheio, os preços altos, a pressão inerente à tal da “locomotiva do país”. Às vezes tenho medo desse lugar e das pessoas daqui. Às vezes amo! Amo todas as padocas portuguesas com PFs em toda esquina. Os salgados veganos espelhados por aí aos montes, os casarões velhos, os museus, as exposições, o centro, os imigrantes, os refugiados, a miríade de línguas ouvidas numa volta pra casa de 15 min a pé passando pela Paulista, e, principalmente as pessoas. Amo as pessoas desse lugar! Pessoas inteligentíssimas que conheci aqui, gente com muito amor pra compartilhar, dispostos a ser família um dos outros, já que tantos nesse caos urbano deixaram suas famílias pra trás. Os serviços bem prestados. A Augusta cheia na hora de voltar pra casa a pé à meia noite sem medo!
São tantas sensações! Às vezes não consigo lidar! Bate um sono! Uma preguiça, uma vontade de chorar, um amor, uma liberdade, um medo.
Daqui a pouco o ônibus chega e as palavras ainda não saíram todas. Talvez tenha que acabar de escrever depois. E aí já não sei se as palavras vão colaborar.
Hoje me peguei pensando enquanto fazia o almoço “amanhã é a quali, será que minha mãe vai querer assistir…” E nem consegui terminar o pensamento. Às vezes eu ainda esqueço. Mesmo que seja por 1 segundo. E aí tem as emoções. Sabe, a parte mais importante de ter emoções e poder compartilha-las! E por mais que eu tenha um companheiro maravilhoso, amigos incríveis, uma família unida, tenha acesso frequente a todos graças a tecnologia, e além de tudo o blog, pra compartilhar com o mundo, ainda assim faz falta. Não ter minha mãe, meus avós, meu pai. E os momentos mais felizes são aqueles que projetam as sombras mais longas. No dia-a-dia já nem penso. E quando penso é leve. Tranquilo. Mas nesses meses tenho sentido uma falta que não dói, não gera choro de desespero, é só uma ausência tão presente! E entre uma feira e outra, um almoço e outro, uma aula e outra, a ausência está lá, ao meu lado. Mostrando toda sua falta! E quando recebo um abraço, um elogio, ou uma crítica, vem as lágrimas, tão à flor da pele. Bom, cheguei, melhor guardar o celular e descer do ônibus. Deu tempo, e agora não tenho tempo pras minhas flores e peles. Elas ficam pro próximo devaneio. Pro próximo dia de sol, pra próxima vez que ouvir Cássia Eller, cantando 1 de julho e acrescentando o “meu Chicao” depois de “meu amor”! Só sei que meu desejo é tão grande que nem sei o que. Flores pra nós!

(*texto de 04/08/16, que tava entalado até hoje no celular, eu na dúvida se publicava ou não, por isso o blog acabou sem post na última terça. Ficou pra hoje. Dia de sol e sombras longas. Feliz dia dos Pais ❤ !)

(Vídeos: Ando tão à Flor da Pele – Zeca Baleiro;  1 de Julho – Cássia Eller – acústico MTV)

Barcelona and more

Nossa trilha. Minha trilha. Para variar, começou com Skank, e todo o clima bom, de férias, de verão, de Barceloneta, que o Velocia me trouxe, antes mesmo de sair do Brasil. Depois passamos pelas longas distâncias, enquanto descobrindo as proximidades incríveis que parecem até de outras vidas. Vieram as cidades novas para mim, e agora virão para você também. E a cada passo vamos construindo esse caminho eterno. E não se engane, eu sempre registro nossa trilha e posso contar nossa história por meio da música, afinal, “os poetas não dizem nada que eu não possa dizer”, mas dizem com muito mais ritmo!

Para quem quiser ouvir nossa história, tem link da playlist no spotify, mas vou colocar os nomes e artistas, para quem preferir seguir de outras formas:

 

 

Aniversário – Skank (Velocia)

 

Everybody’s Free (To Wear Sunscream, Class 99′) – (Romeo and Juliet Soundtrack/ Baz Luhrmann Films)

 

Alexia – Skank (Velocia)

 

Ali – Skank (Ao Vivo MTV)

 

Macaé – Clarice Falcão (Monomania)

De Todos os Loucos do Mundo – Clarice Falcão (Monomania)

 

O Último Por do Sol – Lenine (MTV Acústico)

Por Onde Andei – Nando Reis (Ao Vivo)

Segredos – Frejat (Amor para Recomeçar)

 

Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos (Toca Lulu)

Por Enquanto – Cássia Eller (MTV Acústico)

 

Seus Passos – Skank (Carrossel)

Fica – Skank (Maquinarama)

 

Telegrama – Zeca Baleiro (Pet Shop Mundo Cão)

 

Mapa Mundi – Tiê (A Coruja e o Coração)

Fotos na Estante – Skank (Multishow ao Vivo – Skank no Mineirão)

Índios – Legião Urbana (As Quatro Estações)

João e Maria – Nara Leão e Chico Buarque (20 Grandes Sucessos de Nara Leão)

Golden Slumbers – The Beatles (Abbey Road)

Can’t Keep It Inside – Benedict Cumberbach (August: Osage County Soundtrack)

Proibida pra Mim – Zeca Baleiro (Top Hits)

Comigo – Zeca Baleiro (Top Hits)

Malandragem – Cássia Eller (MTV Acústico)

Pra Alegrar meu Dia – Tiê (A Coruja e o Coração)

Soldier of Love – Pearl Jam (Last Kiss)

Black Bird – The Beatles (The Beatles)

Seja Como For – Banda do Mar (Banda do Mar)

Cidade Nova – Banda do Mar (Banda do Mar)

Te Mereço – Tiê (A Coruja e o Coração)

Longing to Belong – Eddie Vedder (Ukulele Songs)

Só Sei Dançar com Você – Tiê (A Coruja e o Coração)

Vamo Embora – Banda do Mar (Banda do Mar)

Society – Eddie Vedder (Into The Wild Soundtrack)

 

Os vídeos não são necessariamente as mesmas versões descritas por falta de disponibilidade. Espero que consigam acessar os vídeos, e a playlist completa no Spotify, mas caso não consigam, todas as músicas são conhecidas e de fácil acesso por pesquisa simples.

 

Aproveitem e vamos celebrar a vida! ❤

 

Phoebe

Eu sempre odiei esportes! Que frase forte, né?! Tão categórica. Tá, na verdade eu não odiava, tive um breve período de ódio, mas logo virou uma certa indiferença e mais tarde uma fuga deliberada. Mas deixa eu contar a história direito, porque estou pondo os carros na frente dos bois (será que essa minha “expressão de vó” ainda faz sentido?).

Quando eu era pequena, bem pequena, desde que consigo andar sozinha, eu ando. Eu odiava ficar em carrinhos de bebê, e tenho até uma história (previamente comentada aqui nos posts do blog) sobre quando luxei o calcanhar com dois anos recém completos e destruí o gesso em uma semana. O médico não quis por salto porque eu era muito pequena e cairia sem saber andar com o gesso e que deviam me deixar no carrinho de bebê, e eu fugia o tempo todo, obviamente, só andava e o plano do médico foi por água abaixo, enfim, esse meu pé esquerdo nunca foi meu melhor, talvez por isso.

Minha mãe tinha o hábito de fazer longas caminhadas e desde essa época eu andava com ela. Às vezes de bicicleta, outras a pé, às vezes levando o cachorro, às vezes sozinhas. Quando fiquei mais velha, às vezes voltava da escola a pé, e muitas, mas muitas vezes mesmo, economizei o dinheiro do ônibus e gastei minhas pernas mesmo. Inclusive eu sempre tinha um dinheirinho sobrando para fazer minhas vontades e minha mãe se perguntava de onde eu tirava “tanto” dinheiro, e um dos motivos era esse, vários ônibus economizados, e alguns almoços também. Eu fui dessas adolescentes que pulava café da manhã e às vezes até o almoço (infelizmente depois me enchia de besteiras à tarde).

Mas o que isso tem com os esportes, bem, vamos falar da definição de esportes daqui a pouco. Enquanto isso eu devia mencionar que sou a pessoa mais descoordenada que eu mesma conheço. Nem bater palmas no ritmo eu consigo. Não, isso não é charme. Não é para falar, “ah, que isso”! É apenas verdade. E hoje em dia eu fiz as pazes com essa ideia. Embora seres inanimados como a cadeira e o guarda-chuva insistam em me atacar, volta e meia, e eu acabe a semana cheia de hematomas que nem eu mesma sei de onde vieram. Essa semana mesmo o guarda-chuva me atacou e me tirou uma pelinha do dedo, só porque abri ele na chuva.

Essa falta de coordenação tão evidente sempre me fez ir relativamente mal em esportes, especialmente os em time. A pressão só me faz ficar ainda mais descoordenada. Meus melhores momentos são aqueles quando não tem ninguém olhando, e justamente por isso fica difícil argumentar que eu até consigo ser um pouco mais coordenada do que parece. Correr para mim sempre foi o pior. Sinônimo de tortura, de vexame, de humilhação. Eu fico vermelha, sem ar, perco o folego, às pernas vacilam, os joelhos falham, eu caio, tropeço no meu próprio pé, esbarro um joelho na panturrilha da perna oposta e me derrubo, é uma cena circense do tipo trágica. Ou melhor, é a Phoebe correndo no parque!

E isso, com toda certeza, não em fez a pessoa mais competente em esportes. E eu sempre soube disso. Eu preferia não estar no time do que ver o time sofrer as consequências pela minha presença. Além disso eu sempre odiei competição. Eu não gosto de necessariamente ganhar, embora o reconhecimento seja geralmente prazeroso (até certo ponto, também não gosto de chamar muita atenção por esse motivo). Por outro lado, eu amo jogos! Jogos de tabuleiro, brincadeiras de criança, eu me divirto muito com essa interação prazerosa e relaxada da atmosfera dos jogos, onde o mais importante e brincar. É muito frequente, quando eu jogo algo em que um, ou um time, ganhe, que, se meu adversário for muito competitivo, eu deixe ele ganhar. Só para acabar mais rápido, ou só para o outro ficar feliz, afinal de contas para mim ganhar nunca foi tão importante. Outro motivo é que eu adoro testar estratégias novas, explorar dimensões novas do jogo, mesmo que algumas pareçam suicidas a princípio, e muitas vezes eu acabe perdendo com elas mesmo, mas gosto de testar, de descobrir o porquê delas não darem certo, eu gosto de aprender, de conhecer e de entender, muito mais do que de ganhar.

Então eu me voltei para esportes solitários, e por toda minha vida escolar fiz natação. Eu amo nadar. Nunca perco uma oportunidade de me jogar na água, especialmente quando estou viajando e posso nadar em lugares novos. Já nadei do Lago Paranoá em Brasília, até o Sylvan Lake, em South Dakota. Já nadei no rio São Francisco, na nascente, em Capitólio- São Roque de Minas e nele já largo, em Petrolina, depois da represa de Paulo Afonso. Já nadei em muito mar, da praia do Porto da Barra em Salvador, à Barceloneta, em Barcelona. Só não me joguei no Loch Ness porque era janeiro e aí realmente seria uma estratégia suicida, e na vida não dá para testar os limites da mesma maneira que no jogo.

Outra paixão são as longas caminhadas! Eu amo sair por aí, com ou sem rumo, amo fazer as coisas a pé, me sinto tão independente do mundo, é tão bom, tão libertador, simplesmente sair de casa e andar e pronto, sem pensar em trânsito, nem vaga, nem garagem, nem preço. Muitas vezes saio sem carteira, às vezes nem levo o celular. Vou com a roupa do corpo, um headphone no ouvido. Me basto! Essa sensação vale tanto. Gosto tanto dela. Amo também andar em meio a natureza, em parques, serras, montanhas, trilhas, cachoeiras. O ideal é combinar a caminhada com a natação e ter a oportunidade de nadar em algum ponto da caminhada mais longa!

Mais recentemente na vida, eu descobri as técnicas corporais que compõe a parte prática da filosofia do Yôga. E amo praticá-las! Sinto falta de não fazer todos os dias. Me sinto leve, livre e dona do meu corpo. Me lembro um pouco da época que fiz circo, duas vezes uma na infância, quando aprendi a andar de perna de pau, e a fazer mil tipos de cambalhotas. A proximidade com o chão era maior. E outra na adolescência, quando de novo fiz circo, mais dessa vez a proximidade era com o ar, entre malabares, e a lira voando no alto, e o fogo cuspido distante. Hoje, praticando essas técnicas do Yôga, vario entre a proximidade com o chão e com o ar, de uma forma tão desafiadora e gostosa.

Depois de tudo isso eu descobri, eu não odeio esportes. Eu odeio competição, comparação e necessidade de me enquadrar em moldes pré-estabelecidos. Não acho que eles sejam errados, pelo contrário, os esportes precisam de regras, e o circo tem muito mais regras do que vocês imaginam, e o Yôga também. Na verdade, essas coisas ficam muito mais perigosas sem regras, e é preciso saber fazê-las, aprender a fazê-las primeiro e com calma. Mas eu não acabo com a moral do meu time se eu for descoordenada. No máximo me engasgo numa cambalhota na piscina, ou caio de uma posição. Ninguém se machuca, geralmente nem eu. Não assim. E o mais importante, eu me supero. Eu descubro novos limites e cada vez que isso acontece, eu “ganho”! Sem precisar me comparar com o outro, sem precisar ser melhor, sem ninguém precisar perder. Todos que fazem ganham. Seja ganhar um corpo mais saudável, novos amigos e colegas, ou uma vista bonita numa caminhada, o encontro com animais, o sentimento de frescor ao se jogar na água. São tantas as delícias!

E aprendi a ter um enorme prazer nas coisas que eu faço. Amo andar, amo nadar, amo praticar. Tudo assim, do meu jeito, do jeito Phoebe. Um pouco fora dos moldes. Às vezes as pessoas até ficam um pouco desconfortáveis, eu sei. Eu falo coisas sem noção às vezes, interrompo com minhas reminiscências fora de hora, falo demais numa hora e de menos em outras. Me atropelo e me perco no raciocínio, “pago altos micos” por aí. Mas juro, sou feliz! E aprendi a amar, em vez de odiar. Então sigo assim, no meu jeito Phoebe de ser. Sei que sou estranha, e isso sempre me gerou poucos amigos de verdade, embora as pessoas em geral me achem uma companhia agradável. Os meus amigos, e o namorado, sabem que eu não sou uma estranha qualquer, sou a estranha deles, e todo mundo se diverte (e às vezes se exaspera) com minha descoordenação feliz e animada. E aí? Vamos dar uma corridinha no parque? Sem medo de ser feliz, ok?!