A prata da casa

Nós geralmente contamos das viagens que fazemos pela Catalunha toda, e algumas vezes até além disso. Mas eu reparei que muito pouco foi dito da região próxima a La Seu. As grandes belezas naturais estão mais afastadas da cidade que a gente escolheu, é verdade, mas algumas pequenas jóias podem ser encontradas por perto, e resolvi dedicar um post para este assunto. Ainda mais com a nossa nova busca por locais adequados para banhos!

Organyà – Para começar a lista, essa cidade que a primeira vista é só uma passagem na estrada. Nela, contudo, estão alguns grupos de paraglider, o que já a torna um destino interessante. Porém, o mais valioso, para nós pelo menos, é um rio que cruza ao sul da cidade. Nele é possível encontrar pelo menos 4 cachoeiras, além de algumas piscinas naturais. O lugar, além de muito bonito, é pouco frequentado, o que torna muito agradável nadar por ali. A água é um pouco fria, mas nada perto do que encontramos em outros locais por aí. Temos ido com frequência, tentando nos refrescar no verão abafado da cidade.

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Tost – Uma vila toda em ruínas, exceto pela igreja, reformada e trancada. Além da diversão de explorar uma cidade abandonada e tomada por plantas, o lugar tem também uma figueira imensa crescendo dentro de uma de suas casas. Eu estou tentando monitorar o crescimento das frutas, que devem amadurecer logo mais, para tentar fazer uma colheita!

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Coll de Nargó – Outro cantinho bom para um banho de rio! A piscina natural daqui é maior e mais conhecida. Dividimos ela com muitos jovens e algumas outras pessoas não tão jovens assim. É bacana para quem quer realmente nadar ou socializar. Tem um poço menor um pouco acima do lago principal que é pequeno, mas muito profundo, e imagino que pode ser perigoso para crianças…

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Camarasa – Já não tão perto assim, mas ainda possível de fazer um bate-e-volta sem cansar muito, está a praia fluvial de Camarasa. Ali, o rio Segre é limpo e volumoso, seguindo com uma forte correnteza perto de uma ponte antiga e desabada. Algumas pessoas se aventuram a pular da ponte, alguns de um trecho mais baixo, onde a pilastra desabou, outros do topo, arriscando ferimentos na perna. Há também uma região onde o rio é mais suave, mas não chegamos a explorar porque havia um pessoal com cães soltos e tentávamos evitar encrenca para o Picot.

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(obs: vídeos disponíveis na fanpage do Facebook, inclusive um muito lindo do Picot pulando que nem um cabrito na praia fluvial de Camarasa).

Road trip 3 (II)

Road trip 24 e 25/05 – Huesca, Pamplona, Logroño e Saragoça.

Dali até Pamplona a viagem foi rápida. Chegamos no meio da tarde e rapidamente nos localizamos. A cidade é até que grande, mas muito bem construída, de maneira que fica fácil se orientar por ela. Encontramos o hostel, onde o atendente foi absurdamente simpático. Nos explicou um pouco sobre a cidade e nos deu um mapa, além de me ensinar a falar obrigado em Basco (eskerrik asko)! Não sabia que Navarra também compartilhava a nacionalidade Basca e fiquei encantado com o quanto a língua deles é diferente, em todos os sentidos. Descansamos um pouco e tomamos um banho antes de sair novamente, o calor estava matando a gente!

(Obs da JuReMa: amamos o Hostel Xarma onde nos hospedamos em Pamplona. Além de sermos ultra super bem recebidos, ganhamos mapa, o Picot foi super bem aceito, o Hostel tem uma politica animal friendly! A cozinha pode ser usada sempre, entre 10h30 e 22h30 para preparação individual de alimentos. O café da manhã é incluso no preço e chá e café são gratuitos 24h, você só precisa esquentar sua própria água na chaleira /ou na cafeteira elétrica deles. Os quartos contam com opções coletivas, mais baratas, ou para duas pessoas, casal ou não. Pegamos uma de casal para acomodar o Picot melhor. Os banheiros são coletivos. Tudo muito limpo, charmoso e agradável, além de bem localizado!) 

A cidade de Pamplona (Iruña, em Basco) foi o ponto alto da viagem! A cidade funde o que existe de bom com o que poderia ser ruim mas acabou sendo bom também, e logo me explico. As construções das muralhas, das catedrais e de todo o centro velho se fundem com grupos imensos de jovens, idosos e adultos utilizando o espaço público. O uso da língua Basca e do castelhano se misturam em boa dose e sem presunção, respeitando o turista e o migrante ao mesmo tempo que valoriza o aspecto local. Sem presunção também são os estilos dos jovens, que não parecem se vestir necessariamente com a última moda ou para impressionar. Não é fácil encontrar pessoas super produzidas, mas é comum que cada um respeite seus gostos individuais ou coletivos. O resultado é uma mistura bastante saudável de velhos e novos figurinos que, de maneira geral, parecem feitos para agradar a quem veste, e não os outros. A cidade conta com muitas pichações e cartazes, mas todos em absoluto pedindo por mais liberdades, contra violências de todo tipo e pedindo melhorias no governo federal espanhol (notadamente a instauração de uma república – pra quem não sabe a Espanha é um reinado). As pessoas na rua param para puxar assunto sem mais nem porquê (apesar do Picot ter sido um assunto recorrente) e são agradabilíssimas. Assim, a cidade se enche de vida, de protestos, de história, de barulhos que provam que as pessoas ali tem uma vitalidade que dificilmente pode ser explicada!

Esse comportamento é condizente com a consrução da cidade, uma miríade de muralhas, passadiços, igrejas, fossos e fortes. As vezes é difícil saber pra onde se está indo, mesmo com um mapa, mas isso nunca tem problema, porque certamente o caminho será agradável. Passamos por pessoas bebendo, discutindo política, fazendo atividades circenses ou só passeando com o cachorro. Pasaamos por parques bem cuidados, um fosso transformado em granja para galinhas, patos e marrecos, por muralhas com uma vista surpreendente para o vale em volta.

Dormimos um pouco mais para recuperar nossas forças e saímos em torno das 9h30 de Pamplona. A viagem até Logroño foi tranquila. Lá, conhecemos uma cidade que parece bastante jovem. O centro velho é pequenino, mas muito bem cuidado, e a catedral é dedicada a Santiago, como tudo mais por ali. Me encantei com um parque que fica na beira do rio Ebro (nota: a palavra Ibéria vem desse rio, que os romanos usavam pesadamente) e com a Gran via deles (Juan Carlos I), uma avenida muito larga e com uma parte da calçada coberta pelos prédios, o que faz com que caminhar por ali seja muito agradável em dias ensolarados! Essa avenida me lembrou muito Lisboa, mas como já faz quase 20 anos que visitei Portugal, acho que precisarei voltar para poder ter certeza que a comparação foi boa!

O caminho para Saragoça foi quente, muito quente. Mas pior que isso foi a temperatura em Saragoça em si. Ao chegarmos, vimos o termômetro subir de 33°C para 36°C antes mesmo de parar o carro! O calor nos desaminou muito, e acabamos rodando muito menos do que gostaríamos. Vimos um pouco do centro velho, a praça em frente ao mercado onde há uma estátua de Augustus Cesar e, claro, a Catedral. Na verdade, não tem como não ver a catedral, já que ela toma conta da paisagem na beira do rio, com o seu tamanho e sua imponência. Ao tentarmos atravessar a praça, que é um grande descampado, o Picot começou a saltitar por causa do chão queimando suas patas, e tivemos que correr para a sobra com ele. A Ju até agora não se recuperou dessa cena. Entramos em turnos na catedral para poder cuidar do Picot. O que impressiona lá não é só o tamanho, mas o capricho com cada detalhe. Poucas das catedrais que eu já vi rivalizam com essa.

Ainda em Saragoça vimos um monumento em homenagem à America Latina ( o que me deixou especialmente feliz!) e uma estatuazinha de um cavalo de brinquedo, que deixou o Picot muitíssimo curioso. ele cheirava a estátua, tentando descobrir se era um animal de verdade. Um senhor parou para conversar com nós sobre como ele gostava da estátua e tudo mais, mas a Ju teve que traduzir pra mim, porque eu não entendi uma palavra do que ele disse… Dali fomos até o parque do outro lado do rio onde o carro estava e, antes de pegar a estrada de volta, tomamos um banho nas fontes, todos os três.

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Pamplona (inicio do passeio, recuperados do calor!)

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Catedral de Pamplona

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Centro de Pamplona

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Uma das inúmeras fortificações de Pamplona, hoje uma espécie de granja, com cervídeos, pavões, galinhas, patos, etc. 

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Dentro da Cidadela de Pamplona

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Não lembro o nome da cidadezinha, paramos no caminho só pra ver essa ponte! 

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Águas do Ébro, chegada a Logroño

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Ponte sobre o Ébro

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Logroño

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Igreja de Santiago

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Ponte sobre o Ébro, saindo de Logroño

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Zaragoza

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A (imensa) Catedral de Zaragoza

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Memorial da América Latina 

Lembrando que as demais fotos e os vídeos estão disponíveis na página do Facebook Blog da JuReMa !

Road trip 3 (I)

Road trip 24 e 25/05 – Huesca, Pamplona, Logroño e Saragoça.

Como não estávamos em condição de caminhar devido à um acidente que eu tive com um vidro, resolvemos fazer uma viagem de carro mesmo, para não ficarmos muito parados. Como já havíamos avançado nas regiões próximas da França e também até Tarragona, o destino mais óbvio desta vez foi seguir para Oeste, conhecendo as províncias vizinhas de Aragão, Navarra e La Rioja.

O planejamento foi meio de surpresa, feito de um dia pro outro, mas acho que nós estamos ficado bons nisso, porque mesmo assim a viagem foi surpreendentemente boa, apesar do calor escaldante que enfrentamos…

Saímos em torno das 5h30 de casa e pegamos a estrada direto para Huesca, passando por Balaguer. Ali vimos algumas construções que merecem ser visitadas em outra hora, como igrejas e ruínas que, pra variar, ficam no topo de colinas.

Chegamos em Huesca ainda cedo e demos uma volta a pé pela cidade. A universidade pareceu bem movimentada, e acaba atraindo muita vida jovem para o centro da cidade. A catedral é imensa e feita de uma pedra marrom, porosa, que parece se desgastar com o tempo. Outras construções na cidade são com o mesmo material, e elas ficam com pedaços da pedra faltando, principalmente na parte mais baixa, onde a água provavelmente pega mais… O prédio da prefeitura é bastante impressionante também, e no geral a cidade me pareceu muito tranquila.

Saímos de Huesca em direção norte, passando por um pequeno vale onde está localizada a cidade de Jaca. É claro que pensamos mil vezes em como fazer o trocadilho de enfiar o pé na Jaca, mas no final resolvemos não provocar muito. Isso porque a cidade possui uma presença militar fortíssima, pela sua posição altamente defensável, pela fronteira que faz com a França e provavelmente também porque é um lugar de natureza incrível e algum general de bom gosto resolveu morar ali.

A cidade tinha uma aura de tranquilidade e vida familiar, com conjuntos habitacionais muito simpáticos e aparentemente baratos (ficamos um tempo olhando a imobiliária, como de costume!), mas a falta de variedade de estilos nos jovens (coisa muito comum na Espanha de maneira geral) somado à presença frequente de policiais me fez achar tudo muito artificial e, de certa forma, assutador. A cidade é em si muito bonita, mas preferimos sair de lá um tanto quanto rápido.

Seguimos a viagem para o oeste, e eventualmente passamos em uma represa muito bem cuidada, onde algumas vans de acampamento estavam estacionadas. Isso alimentou ainda mais nossa vontade de fazer isso também o mais rápido possível. Logo depois encontramos ruínas de uma vila romana, imensa e até que bem preservada. Havia baias para os animais, termas e uma ponte que infelizmente já caiu, mas que fica em um cenário de filme de fantasia, cruzando o final de um desfiladeiro.

(Parte II – Pamplona, Logroño e Saragoça na próxima sexta aqui no blog!)

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Huesca

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Jaca

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Refresco pro Picot na estrada, saindo de Jaca

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Ruínas romanas

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Se vocês repararem bem, ali na ravina, há uma ponte romana quebrada. Aliás, que ravina maravilhosa! 

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Detalhes da ruína romana. Daí seguimos para Pamplona (ponto altíssimo da viagem!) que vocês podem acompanhar semana que vem no blog! 

Lembrando que as demais fotos e os vídeos estão disponíveis na página do Facebook Blog da JuReMa !

Roca de Canalda

29/04/17

Decidimos meio que de supetão que faríamos uma trilha, então eu procurei alguma coisa bem perto para que pudéssemos fazer uma caminhada em pouco tempo. Tivemos uma grande surpresa em perceber que algumas coisas muito próximas a La Seu são absolutamente incríveis, ainda que pouco reconhecidas!

Tem um site muito bom que dá as melhores sugestões. Pra quem gosta de caminhada e está vindo para qualquer parte dos Pirineus, vale a pena dar uma olhada (http://www.rutespirineus.cat/). Pegamos uma próximo da vila de Canalda, um lugarejo encravado no meio das serras, afastado dos vales principais de região. A estrada até lá já é uma coisa deslumbrante, passando por vistas incríveis dos vales maiores, além de algumas vilas muito bem cuidadas. A vila de Canalda é tão pequena que mesmo dentro dela desconfiávamos que era de verdade uma vila. É um aglomerado de 6 ou 7 casas, com uma igreja no meio, não mais do que isso.

O caminho começa indo da vila até um paredão ao norte, do outro lado da estrada principal que leva a Canalda. Após a aproximação do paredão, há uma pequena trilha sem sinalização clara saindo à esquerda. Claro que nós passamos reto e subimos a pedra toda antes de percebermos nosso erro. Nada de mais, pegamos uma vista boa lá de cima e arrumamos nossa rota. Ao entrar nessa pequena trilha o caminho começa a beirar o tal paredão e então, devido à proximidade, é possível ver diversas cavernas naturais pela encosta, a maioria estando entre 5 e 15 metros acima do solo. Também existem partes de ruínas de antigas fortificações feitas no local. Parte dessas ruínas são atribuídas aos Mouros, no período em que tomaram a região.

O caminho segue por uma trilha bem demarcada, mas há opções que se aproximam mais da pedra, e claro que seguimos pelo segundo. Foi possível encontrar algumas casas em ruína e uma inteira, trancada com um cadeado moderno. Não conseguimos descobrir o que havia lá dentro. Havia também uma pequena piscina natural e uma quase-cachoeira, ambas muito bonitas de se ver. Durante o caminho todo é possível observar muitos pássaros, de corvos a rapineiros, todos fazendo seus ninhos na encosta.

A trilha acaba em um pequeno zoológico, que na verdade mais parece uma granja com alguns animais da região, como esquilos, cervos e corujas. Não entramos, pois o Picot não era aceito, mas pra quem tem crianças imagino que seja uma boa experiência, pois há sessões de vôo das aves e a maioria dos animais são dóceis e podem ser tocados. Na grade, pelo lado de fora, encontramos um cervo pequenino, mas adulto (não sei a espécie exata) que encrencou com o Picot. Ele atacava a grade e bufava, enquanto a fêmea corria por detrás. O Picot tentou se aproximar e latir, mas tanto recuava com as investidas do Jão (apelido que o cervo recebeu) quanto seus latidos finos não ajudavam a impor respeito. No final, demos muita risada da situação antes de sairmos do local.

De volta a cidade, pegamos o carro e passamos por algumas cidades, como Sant Llorenç de Morunys, que nos impressionou com o tamanho (incomum pra localização) e pela beleza das montanhas e da represa em volta, e por Tuixent, que já tínhamos passado perto quando fomos a Pedraforca, mas não paramos lá na ocasião. Também vimos a estação de esquí de Port del Comte, já fechada por não ter mais neve suficiente, e um bairro de mansões que se desenvolveu ao pé da tal estação.

No total, o passeio foi bastante agradável e pudemos conhecer uma regiãozinha escondida, tão perto de La Seu e ao mesmo tempo tão desconhecida!

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Seguimos (na maior parte do tempo) a trilha verde pontilhada (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

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Os números marcam os pontos de interesse da trilha e sua descrição pode ser lida na foto seguinte (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

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pontos de interesse da trilha (fonte: http://www.rutaspirineos.org/rutas/roca-de-canalda)

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Paredão

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É possível ver as Coves dels Moros

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Na foto não fica claro, mas as gotas caíam leves, mas em grande quantidade, formando uma espécie de cortina de água, que embaixo formavam um riacho. Parecia uma cachoeira de fadas! Na fan page do Facebook estão mais fotos e vídeos. 

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Essa era a casa que estava em melhor estado, e ainda com portas e janelas fechadas com cadeado e correntes modernos

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As “Coves” mais baixas são fáceis de entrar e explorar (as mais altas só com equipamento de escalada e vimos vários grampos presos na pedra)

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Jão, o cervo bad boy, pronto pra briga. Para quem quiser conhecer o Zoo:  Zoo del Pirineu

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Vista de Sant Llorenç de Morunys

Para mais fotos e vídeos, incluindo vídeo do Jão brigando com a grade, da cortina de água e outros, confira nossa fan page do Facebook: Fan Page Blog da JuReMa 

Prat de Cadí

 18/03/17

Depois de um bom tempo sem uma caminhada original pra relatar, resolvemos seguir o conselho de um amigo e explorar a região próxima à face norte da Serra de Cadí. Achamos no nosso mapa algumas marcações que pareciam interessantes e seguimos o caminho até lá!

Pegamos a estrada até Martinet, cidadezinha que faz a divisa da Cerdanyà com Alt Urgell. De lá pegamos a estradinha para Estana. Tivemos a surpresa de cruzar com uma região de bunkers (também especificado por esse amigo), construídos ali, segundo a placa, devido ao medo que Franco tinha de uma possível invasão francesa. A sequência de fortificações e túneis parece aberto em outros dias, mas não no sábado… De qualquer jeito, é bem interessante reparar nesse trecho da história dos Pirineus.

A subida até Estana é longa e tortuosa. Dá pra sentir a temperatura caindo e o vento intensificando. A vila em si é muito charmosa, e tem uma vista privilegiada da serra. Há, no início da trilha, depois de passar a cidade em uns 700m, um estacionamento. Mas nós não sabíamos e paramos na cidade mesmo, o que foi bom, pra poder observar as casas reformadas que provavelmente servem para veraneio.

A trilha segue bem demarcada e sinalizada, apesar de ser em boa parte bem acidentada. Também é uma das mais movimentadas que fizemos até agora, junto com a dos Estanys de la Pera. São obviamente as mais famosas, não à toa, pois são também as mais bonitas. A inclinação do caminho é leve, mas constante. Só um trecho escapa disso, e a neve abundante exatamente ali fez a subida um pouco mais delicada. Vimos, na volta, um grupo de senhores e senhoras desistir da caminhada exatamente nesse trecho. Porém, não estavam com nenhum equipamento específico e apesar da disposição, não pareciam ter a mesma mobilidade de décadas atrás. Mas com exceção desse trecho, o caminho todo até o Prat é fácil, seguindo principalmente por entre bosques e só eventualmente saindo para algum trecho aberto.

A chegada ao Prat é para deixar claro porque a trilha é famosa. De repente, o campo se abre em um platô logo abaixo da Serra de Cadí, com as imensas pedras que formam a espinha tão próximas que é possível ver seus detalhes. O campo estava todo nevado, e se alguma parte já derreteu, eu não quero saber como estava antes! Não levamos equipamento adequado porque não achávamos que seria necessário. Mas afundamos até a coxa na neve, e as mãos doíam de frio ao tentar se levantar. Também tivemos neve adentrando o tênis e a meia, uma sensação desagradável, que nos fez tomar a decisão de guardar nossas polainas de proteção permanentemente no porta-malas do carro.

Algumas pessoas descansavam na lateral do Prat, enquanto outras passavam esquiando pela leve inclinação da região. O Picot ficou realmente impressionado com o fato de pessoas passarem a tal velocidade sem movimentar as pernas. Mas logo depois disso, ele se recuperou e nos ajudou a achar uma trilha para nos aproximarmos mais da Serra sem ter que atravessar a neve. Mas nosso esforço durou pouco, pois logo percebemos que pra qualquer lugar que fossemos a neve nos cercaria.

Voltamos pelo mesmo caminho, agora só na descida. Foi bastante tranquilo, exceto pelas meias molhadas. Conseguimos chegar em casa ainda cedo, não tendo nos desgastado tanto quanto em outras caminhadas. Essa trilha, além de belíssima, também é boa opção pra quem não está com todo aquele preparo físico, mesmo com seu total de aproximadamente 12km.

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Bunkers

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Vista de Cadí em Estana

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Picot rolando na neve

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Chegada ao platô

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Cadí em detalhes logo aí do lado

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A travessia do platô exigia equipamento pra neve, mas não tínhamos no dia

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Arseguel: cidadezinha onde paramos na volta para conhecer. Um charme! 

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Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

Cuscus (não muito) marroquino

Faz um tempão que não rola uma receitinha por aqui, e no fim de semana passado recebemos em casa um amigo, também vegetariano, e eu fiz minha versão de cuscus marroquino vegetariano para ele. Aprendi com a Isadora, uma das minhas mentoras na cozinha, e acabo variando bastante a receita, dependendo do que tem em casa ou no mercado, ou do orçamento. No dia, a fome era tanta, acompanhada de uma conversa gostosa, que nem lembrei que existia essa coisa chamada foto.

Na quarta resolvi fazer um cuscus de novo, para aproveitar algumas coisas que tinha na geladeira. O segundo não ficou nem tão bonito, nem tão tradicional quanto o de sexta passada, mas ficou uma delícia também. Vou explicar as diferenças na receita, passar a mais tradicional, e sugerir as variações. As fotos são do de quarta, mas tenho certeza de que quando fizerem vão ver o quão lindo e cheiroso ele fica.

Eu sou de família goiana com mineira, descendente de italianos, logo não existe fazer comida pra 1 ou 2. Só sei fazer de baciada, pra alimentar no mínimo uns 10, e aí depois fico com a geladeira cheia. Funciona porque cozinho umas 2x na semana só e de resto vamos esquentando, reciclando e aproveitando. Mas se você quiser ser mais delicado, não confie nas minhas medidas, ou diminua tudo pelo menos em 1/3.

Ingredientes (pra no mínimo 5 pessoas, reduza as quantidades se quiser fazer para 1 ou 2):

  • 300g Cuscus marroquino (não é o tradicional cuscus de milho brasileiro, embora possa ser feito com ele também. Outra variação que fica muito boa é quinoa).
  • Alho (eu uso uma cabeça inteira, mas sou a louca do alho).
  • 1 Cebola (prefiro fazer com a roxa, mas hoje foi com a comum e também é ótimo).
  • 6 pimentões (fica mais bonito um de cada cor – vermelho, verde e amarelo – mas já fiz só com verde, só com vermelho e funciona do mesmo jeito).
  • 100g de uva passa (gosto de misturar branca e preta, mas pode ser só uma delas também).
  • 100g de damasco seco
  • 100g de tâmaras secas sem caroço
  • 50g de amendoim (prefiro o torrado sem casca)
  • 50g de nozes
  • 50g de amendoas (pode ser com ou sem casca, laminada, torrada…)
  • 50g de castanha de caju (prefiro torrada, mas pode ser crua)
  • 1 limão
  • azeite
  • sal
  • pimenta-do-reino
  • cúrcuma (açafrão-da-terra) (opcional)
  • curry (opcional)
  • salsinha (opcional)
  • cebolinha (opcional)

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Às vezes mudo os ingredientes, já fiz com sementes de abóbora, girassol, gergelim. Já troquei as castanhas. Coloquei de um tipo só, ou vários. Já alterei as frutas secas, já coloquei cranberry, gojiberry. Pode explorar a criatividade. O damasco e as tâmaras garantem o sabor mais “marroquino”, mas use e abuse das variações.

Na receita das fotos estava 3 pequenos pés de brócolis quase estragando na geladeira e 1 da couve-flor psicodélica catalã, então usei eles também. Além de tomate, e um pouco de acelga que ganhamos na feira. Pode brincar com algumas folhas e verduras também.

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A minha história com os pimentões:

Eu tenho uma sensibilidade muito grande ao pimentão e temos uma longa relação de amor e ódio. Na infância odiava! Não suportava nem o cheiro. No fim da adolescência e vida adulta comecei a gostar, mas toda vez que comia passava muito mal. Minha digestão ficava parada e eu não conseguia digerir mais nada, ficava bem ruim por umas 48h. Aí desisti do pimentão na vida, inclusive com orientação médica para não ingerir, por isso.

Vindo pra Catalunha resolvi repensar essa decisão, pois muita coisa aqui é feita com pimientos, ou pebrots, em castelhano e catalão, respectivamente. Descobri então a receita de pasta árabe de pimentão vermelho e romãs, a muhammara, que é maravilhosa (recomendo! Farei e postarei aqui eventualmente!) na qual a pele do pimentão é queimada! E assim descobri que quando retiro a pele do pimentão, fica tudo bem! Nada de digestão problemática! Só alegria!

Então agora venho consumindo pimentão de novo, mas sempre sem a pele. O truque é colocá-lo diretamente sobre o fogo, ou calor (aqui só tenho cooktop por indução, mas funciona igual na chama), e ir virando com auxílio de uma pinça longa, deixando a pele queimar, mas sem deixar ele carbonizar. Vá girando e verificando sempre. Depois retire do fogo e lave o pimentão em água corrente, passando bem a mão sobre ele todo. A pele saíra em pedaços queimados e ele ficará, inteirinho, macio e sem pele. Aí é só preparar como preferir!

Modo de preparo:

  • Caso vá adicionar depois os vegetais, como fiz com o brócolis e couve-flor, comece colocando eles, em pedaços, em uma panela com pouca água e cozinhando tampado, ou no vapor. Eu gosto de colocar alguns dentes de alho junto e um pouco de sal. (Se não for utilizá-los, pule esse passo).
  • Pique a cebola, alho e pimentões (já sem pele), (caso use tomate e/ou a acelga acrescente picados aqui também) e refogue numa frigideira ou wok com azeite e sal. Quando já tiverem soltado água acrescente as castanhas e frutas secas que for utilizar. Deixe que elas absorvam a água e o tempero do refogado. Quando todos estiverem bem tenros, separe.
  • Coloque o cuscus numa tigela grande (3X o tamanho da quantidade de cuscus seco, no mínimo) e cubra com água fervendo (deixe uns dois dedos à mais de água), mexa para a água alcançar todo o cuscus do fundo, e deixe em repouso por 5 min.
  • Tempere o cuscus, depois de água toda ser absorvida e ele estar macio, com o suco do limão, azeite e sal, e mexa bem. Eu gosto de acrescentar pimenta-do-reino, cúrcuma e curry, mas são opcionais. E mexa bem novamente. Se for utilizar salsinha seca, coloque agora. Verifique ao mexer que todo o cuscus ficou mais amarelado e macio com os ingredientes.
  • Vá aos poucos colocando o refogado e misturando. (Se for utilizar as verduras, brócolis e couve-flor, acrescente aos poucos agora também). Mexa bem para que fique bem misturada no cuscus e para que os temperos se complementem.
  • Finalize com salsinha e cebolinha, caso sejam frescas.

Sirva e bom-apetite! Pode guardar na geladeira por alguns dias (2 ou 3) sem problemas, devido aos temperos todos!

Lembrando que pode variar à vontade! Mudar os temperos, as verduras, as frutas secas, as castanhas e até mesmo o cuscus. Também funciona com o de milho e com quinoa! Quando faço com quinoa gosto de acrescentar ervilhas e cenoura!

*obs: lembro a todos sempre que não sou chef nem nutricionista, e que preparo meus pratos em casa para minha família. Pessoas com restrições alimentarem devem sempre consultar um médico ou nutricionista.

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Resultado final, me acompanhando enquanto escrevo o post! 🙂 

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Pimentões com a pele começando a queimar.

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Ela vai ficando bem queimada. Vá girando bem, até que fique todo assim. 

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Depois de lavado e aberto. Dá pra ver que antes de abrir com a faca ele está bem inteiro! E na lavagem a pele queimada sai todinha! 

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Detalhes da couve-flor psicodélica catalã. 

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Cozinhando no vapor!

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“Restos” de feira (ou as verduras extras que amo)! 

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Tudo picadinho pelo MasterChef André. Eu preparo, ajusto tempero e invento as receitas, mas quem pica tudo é ele! 

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Frutas secas, que depois também entraram, já picadas, naquele refogado. Dessa vez só acrescentei amendoim, das castanhas, pois era o que tinha em casa. Semana passada teve castanhas de caju e amêndoas. (Quanto mais variedade melhor)!

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Pra não confundir com o cuscus de milho brasileiro. 

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Coberto de água fervendo. 

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Com os temperos por cima, antes de mexer. 

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Processo bagunceiro de mistura! 

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Fica bom!!! ❤ 

Sonhos e aprendizado

(**Atenção: não são spoilers, mas há comentários sobre os filmes Into the Wild e Capitão Fantástico que falam de suas conclusões**)

Às vezes acho que é um reflexo da minha geração, que ao mesmo tempo tem muito acesso à informação e muitas desilusões. A vontade de largar tudo e ir viver aventuras, em se embrenhar no mato, conhecer o mundo, se conhecer, não nos larga. Mais é mais do que isso, tem uma parte grande de insatisfação e frustração, em dificuldade de viver da forma “esperada” e muitos sonhos que parecem nos isolar tanto dos demais, especialmente da geração anterior. Mas aí (re)leio Walden, e percebo que o Thoreau já sentia tudo isso, e percebo que o gap não é necessariamente geracional, mas entre pessoas, almas, espíritos, aqueles que simplesmente veem o mundo de outra forma.

Em busca desses sonhos muitas vezes nos perdemos, erramos e acertamos, e temos momentos de felicidade e momentos de desespero, tormenta e bonança, assim como em qualquer caminho de vida. A maior lição do Alexander Supertramp é que a felicidade precisa ser compartilhada, e isso nos ensina, especialmente aos mais introspectivos (pra não dizer anti-sociais) que é preciso cuidado para não se isolar demais. A maior lição do Capitão Fantástico é que precisamos ceder um pouco, ser menos estritos e exigentes na ideologia pois ainda que trilhemos caminhos próprios, estamos no mesmo mundo e o contato com a sociedade continua.

Ao mesmo tempo é importante perceber que aqueles que buscam esse auto-conhecimento não o fazem apenas por egoísmo ou insatisfação, existem conceitos ideológicos fortíssimos que os orientam, e os que discordam desses conceitos não conseguem compreender, concordar ou aceitar as decisões tomadas, e muitas vezes não estão dispostos a tentar entender. Se para quem se isola falta habilidade social e paciência, para quem conhece o “isolado” falta empatia e aceitação das diferenças. De um modo geral, diria que todos deveriam, pelo menos temporariamente, se jogar no mato, rever os conceitos, repensar a alimentação, a relação com o meio ambiente e o sistema no qual vivemos em sociedade, que nos exige tanto consumo e tantas energia, muitas vezes desperdiçados.

Eu tenho buscado simplificar minha vida nos últimos anos. Para quem lê aqui com frequência sabe dos meus processos, de perdas familiares, mudanças e busca por auto-conhecimento. A primeira fase foi de reconstrução e consequente acúmulo. Precisei mostrar pra mim (e também para a família e para a sociedade, mas essencialmente para mim) que tinha capacidade de ter. Ter. Emprego, dinheiro, casa, móveis, roupas (simples e chiques), coisas, eventos, agenda social. Cumpri! Talvez não a contento de todas as expectativas, mas a contento da minha. E mesmo enquanto construía esse caminho ia deixando portas abertas, adquirindo habilidades e condições de seguir outros, de precorrer caminhos, conhecer outras oportunidades.

Há alguns anos venho construindo um outro caminho, e não sei por quanto tempo ficarei nele. Mas um caminho que tem uma dose de desconstruído. Enquanto tive um período de acúmulos, seja de renda, bens, objetos, e mesmo de momentos, pessoas, amizades, oportunidades, agora estou no de desapego! Desde a mudança de Brasília para São Paulo fui me desfazendo de muitas coisas. E também de muitas obrigações. Por exemplo, durante 2 anos usei lingerie combinando todos os dias! Não falhou unzinho! Geralmente era sutiã e calcinha conjunto, combinado mesmo, mas se não fosse conjunto era no mínimo da mesma cor e estilo. Fiz porque achava isso o máximo? Não. Fiz pra experimentar. 99% do tempo ninguém viu, e ninguém sequer soube que eu estava combinada, mas eu sabia. Fiz por mim! Foi um momento próprio e peculiar que fez sentido num período de reconstrução da minha auto-estima, e também de aperfeiçoar a librianisse.

Agora estou num período em que reduzi drasticamente meu guarda-roupa, inclusive de underwear, e com isso estou praticando descombinar, inclusive pra trabalhar o psicológico e não ficar com mania de perfeccionismo. E sabe o que é mágico? Minha vida não é melhor nem pior com ou sem calcinhas combinadas. Tudo faz parte do que faz sentido em cada momento. Se vou usar um top de sustentação de exercício físico não faz nenhum sentido combiná-lo com a calcinha como se fosse um conjunto, porque não é. Não é prático e nem necessário! Mas se quero tenho lá um outro conjunto guardado pra um momento especial, que pode ser a dois, ou apenas aquele dia que eu quero me sentir linda, e ninguém nem vai saber!

Mas o que calcinhas têm que ver com isso? Com o mato, e uma vida mais isolada? São um exemplo. Um exemplo pequeno, só pra demonstrar meu caminho. Esse caminho de auto-conhecimento, especialmente quando aliado a questões ideológicas nos afasta das pessoas, e da sociedade tradicional. O que me diferencia drasticamente do Thoreau é isso aqui, eu não escrevo um diário, eu escrevo um blog! Ainda que sem internet em casa, usando um pouquinho de 4G no celular pra publicar algumas fotos, e respondendo e-mails e atualizando o blog 3X por semana na biblioteca pública, eu ainda estou conectada quase sempre!

Com minha profissão, enquanto professora de idiomas, consigo trabalhar de qualquer lugar com uma conexão e podendo usar o skype. Sem falar em outras opções que o mundo atual nos proporciona, ensino virtual, ensino à distância, cursos, etc. Nisso a internet mudou a vida dos “isolados” nos permitindo selecionar quais partes isolam e quais não (sem tanta seleção assim quando falamos de Facebook e outras mídias sociais, mais ainda assim, participar delas é opcional e para mim é um excelente jeito de manter a família informada de que eu tô viva e bem, e no mato!).

Os que se isolam, buscando não só o auto-conhecimento, mas a paz interior e exterior, a aventura, uma outra relação com a vida, o mundo, a sociedade, as pessoas, os animais, etc, sentem muita solidão. Essa lição está presente em todos os filmes e livros que relatam os que buscam esse caminho. Contudo, o que sinto fortemente, é que essas pessoas, e me incluo nelas, não nos sentimos na verdade parte de nada, plenamente, nem do mato. Talvez só de nós mesmos. Já existe um nível de solidão aguçado mesmo na maior metrópole, mesmo na festa mais cheia, mesmo entre familiares e amigos. Como alguém que acabou de morar 2 anos em São Paulo posso atestar.

Essa parte da solidão e da insatisfação vem justamente das questões ideológicas. Nunca consegui me sentir plenamente parte de um grupo, nunca concordei plenamente com uma religião, nunca concordei plenamente com uma linha pedagógica, com uma escola onde trabalhei, com as leis que regem nenhum país. Claro que as afinidades aumentam ou diminuem de um grupo, escola, país, pessoas, pra outros. E claro que em alguns me senti muito mais à vontade e acolhida! Mas sempre tem aquele pouquinho que questiona. E ao questionar vem uma certa solidão, um certo vazio. É o mal dos que não conseguem comprar o pacote fechado. Nenhum deles. Sempre tem aquela partezinha que a gente preferia mudar.

Para não morrer de infelicidade há que se exercitar a tolerância. Alguns pacotes até consigo comprar “fechados” mesmo sem concordar 100%, porque concordo com a maior parte, e preciso viver. Mas explico isso, porque é um sentimento constante, em qualquer parte do mundo. Aliás, viajar muito tem a ver com essa insatisfação. A necessidade de conhecer tudo e a si mesmo, buscar alternativas, aprender outros mecanismos, tudo nessa busca de compor o melhor pacote possível pra viver.

Quem não entende o que eu tô fazendo, é isso! Eu to procurando as peças de lego que melhor se encaixem na minha alma, ainda que fiquem buraquinhos, de preferência, os menores possíveis. Das lições que tirei até agora, tanto por experiência própria quanto da leitura de filmes e livros sobre outros insatisfeitos e curiosos, a principal é essa: os que se isolam precisam aprender a ceder. O isolamento e a rigidez ideológica levam a um nível de solidão e insatisfação trágicos. É preciso que sigamos nossa busca por conhecimento e felicidade medindo os passos, dois pra frente e um pra trás, mantendo assim outras pessoas próximas.

E o desafio maior é saber lidar com a incompreensão de familiares a amigos, e outras pessoas, que julgam, se acham cortadas ou isoladas, ou discordam, e com isso ficam ainda mais distantes, pois o vácuo passa a ser não somente físico, mas também emocional. E precisamos aprender e aceitar que algumas pessoas, às vezes das mais queridas, vão se distanciar, ou nós vamos nos distanciar, e que por pior que pareça isso pode ser o que há de mais saudável para ambos.

O equilíbrio vem dessa aceitação, de todas as partes. Algumas pessoas precisam ir! E não adianta perguntar pra onde? Ou porque? Ou pra fazer o que? Porque a resposta não vai satisfazer. Os que vão, o fazem porque precisam! Vão viver por aí, porque não sabem viver num lugar só! Vão viver de forma estranha, comer, andar, vestir, tudo estranho, simplesmente porque são estranhos. E acredite, estão felizes assim! E os que vão precisam aprender a ser tolerantes com todas as perguntas, incompreensões e até mesmo  algumas hostilidades. Responder com honestidade sempre e seguir, ainda que isso custe algumas relações. Os que aceitam, ainda que não compreendam, ficarão próximos, mesmo a que léguas de distância!

Com isso, deixo vocês com uma citação do Thoreau em Walden e os trailers de Into de Wild e Capitão Fantástico. E não, eu não estou indo morar numa cabana no mato e nem num ônibus abandoado (ainda, hahahaha). Eu estou numa fase, que talvez seja de transição, ou talvez seja uma conciliação entre mundos, de cidade pequena, internet menos frequente, mato intenso umas 2 ou 3 X na semana. Trabalho à distância. Agradeço profundamente o amor e a companhia daqueles que aceitam me acompanhar mesmo de longe! E agradeço profundamente porque achei um outro maluco que concorda tanto que resolveu acompanhar de perto! ❤

Ps: achei essa entrevista sobre o livro Andar, Uma Filosofia, do filósofo francês Frederic Gros, e pretendo ler o livro em breve. Destaco aqui dois trechos da entrevista e deixo o link pra vocês, além da sugestão de leitura. Quem sabe não inspira alguns a caminharem mais, a desobedecerem mais, ou não te faz compreender melhor as andanças daquele amigo ou membro da família?!

“Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’.” (…) “Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.”

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/caminhar-um-meio-de-desobedecer/

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Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.

 

Pão da Isadora ou Pão das Paineiras

O ano era 2002, mas podia ser também 2003 e 2004. Em 2002 estava fazendo acompanhamento psicológico, e com o passar do tempo e do desenrolar do acompanhamento, migramos das questões mais primitivas e essenciais que me levaram lá, para novas, e começamos a trabalhar com a construção da Juliana adolescente, a construção da Juliana adulta. Nesse período, que vai aí de 2002 a 2004, minha psicóloga me passava “deveres de casa” e eu possuía uma caderneta amarela onde anotava sonhos, momentos importantes, coisas que queria discutir com ela numa sessão futura e outras ideias. Nesse período começarmos a discutir o conceito de prosperidade e algumas frustrações que eu carregava advindas da carga familiar, meus planos para o futuro, a vontade de ser independe, de viajar.

Nesse período comecei alguns trabalhos de férias, e meus “bicos” de adolescente, que incluíam fabricar e vender bijuteria, lavar os carros da casa e da vizinhança, fazer as unhas de familiares, e com um troco aqui, outro ali, somados a presentes de aniversário, acabava conseguindo fazer pelo menos uma viagem de um fim de semana por ano, com a escola ou amigos, para uma cachoeira próxima, sem depender dos meus pais. Essas conquistas entravam no meu caderno de “Prosperidade” e eram debatidas nas sessões, e nesse período aprendi muito sobre como gerenciar meu orçamento próprio, fazer economias, alcançar metas e, principalmente, a difícil tarefa de precificar meus produtos e serviços.

Um belo dia cheguei na consulta e na minha caderneta da prosperidade estava escrito: “Hoje aprendi a fazer pão!”. Minha psicóloga perguntou o porquê de eu ter anotado aquilo no caderno exclusivo para a “Prosperidade” e embora não tivesse vendido nenhum pão, e aquele ato não tenha me trazido rendimentos monetários, e ainda assim eu tive, e ainda tenho, a sensação de que foi um dos atos mais prósperos que já realizei. Juntar aquelas farinhas, um pouco de água e ver ao longo de horas de trabalho, suor (vai sovar a massa na mão pra ver o que é malhação) e a paciência de esperar o pão crescer e finalmente dividi-lo com os familiares, é uma experiência extremamente próspera.

Poucos atos trazem tantos ensinamentos intrínsecos quanto fazer pão. A pedagogia Waldorf inclui o ato de fazer pão na escola e depois dividi-lo com os amigos e familiares como parte do processo de ensino, e depois de ter aprendido, eu compreendo e concordo. Existe algo mágico em saber fazer pão! Exige paciência, dedicação, determinação, e, dependendo da receita, muita gente no fim, para saborear tudo aquilo.

Em 2002 chegou minha afilhada Nathalia, e nessa época eu passava muito tempo na casa do meu irmão e da minha cunhada. A mãe dos meus sobrinhos, a Isa, é chef, cozinheira de mão cheia, e sempre foi uma pessoa muito agregadora, que teve uma papel fundamental na minha convivência com meus irmão no período da adolescência, especialmente pela diferença de idade significativa entre nós. Entre 2002 e 2004, nas tarde após a escola, ficava por lá, ajudava com os pequenos, e aprendia um pouco, um pouco sobre ser tia, um pouco sobre ser irmã.

E a fazer pão! Umas férias de julho, quando estava por lá, Nati pequena, saímos para comprar as coisas e aprendi a fazer pão. Foi com eles que dividi esse pão pela primeira vez e depois reproduzi a receita e a experiência com minha família materna, com meus amigos de infância e ao longo da vida venho reproduzindo essa experiência tão próspera e deliciosa de fazer e dividir comida com todos os que amo e tenho a oportunidade de partilhar refeições.

Nesses anos minha alimentação mudou muito, primeiro me tornei vegetariana, depois passei a ter uma preocupação maior com a escolha dos ingredientes para manter uma alimentação mais saudável e inteligente. Nesse campo das receitas pretendo compartilhar coisas novas e velhas, e a receita de pão da Isa, embora não seja a primeira, está entre as históricas.

Então vamos lá: Pão da Isadora (como eu chamo) ou  Pão das Paineiras :

Ingredientes:

* 3 tabletes de fermento biológico fresco

* 3 colheres de sopa de açúcar

* 3 ovos

* 1 colher de manteiga

* 1 copo de óleo

* 3 copos de água

* 1 e 1/2 kg de farinha de trigo

Preparo:

Misturar o fermento com o açúcar até derreter. Colocar em uma vasilha funda 1kg de farinha e o sal. Faça um buraco no centro e adicione: manteiga, óleo, ovos, água e o fermento já derretido. Ir acrescentando, aos poucos, o restante da farinha de trigo (a quantidade de trigo suficiente se dá quando a massa não grudar em suas mãos). Sovar a massa por 5 min. Deixar crescer por 1:30 hora (ou até dobrar de volume). Dividir a massa em partes e moldar os pães. Levar ao forno pré-aquecido por mais ou menos 40 minutos.

Ah, e pode rechear com o que quiser antes de assar!

(contato: isadoramarar@hotmail.com )

E a Nati (que hoje é adolescente) fazendo pão até com os pés!