Saúde

Há uns tempos atrás uma amiga muito querida me pediu/sugeriu escrever um post sobre saúde. No começo resisti muito, pois não sou nada da área de saúde e não posso ficar dando conselhos sobre isso por aí. Mas depois reli a sugestão dela e me veio na cabeça escrever sobre o que sempre escrevo: sobre mim! Sobre minha experiência, minha história, meu diário.

Vou contar um pouquinho do meu histórico aqui: nasci prematura, de 7 meses, pesando pouquíssimo mais de 1kg, para o desespero da minha mãe. Mas não tive nenhuma sequela. Na verdade, menos de 12h depois do meu nascimento, já não precisava de nenhum cuidado especial, nem os que normalmente crianças de 9 meses precisam. Mas não conseguia me alimentar. Fui alimentada por sonda por 45 dias, com leite materno, da minha mãe e de muitas mães de leite que eu tive!

Esse fato poderia ser irrelevante não fosse o detalhe que ele provocou na minha mãe e na minha avó: as obsessões alimentares. Ambas sofriam de anorexia, não diagnosticada, mas bastante óbvia se acompanhada de perto. Acho que quando eu nasci ainda não sofriam, ou não estavam em período de crise, mas ambas tinham problemas com depressão, ansiedade, minha mãe teve em diversas ocasiões crises de pânico, e no final da vida de ambas a anorexia se tornou evidente.

Desde sempre lembro de minha avó fazer comentários um tanto quanto maldosos sobre o peso, dela, meu, de primas, da minha mãe, e outras pessoas. Então creio que mesmo que não estivessem sofrendo com o baixo peso excessivo naquele momento, o tópico dos transtornos alimentares sempre esteve ali, rondando, sabe?! Mas o fato de eu ter nascido prematura e muito pequena teve um efeito, positivo ou negativo é discutível, e ambas me empanturraram de comida na infância: óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura com sementes de sucupira mergulhadas, pernas de rã (que eu não gostava), rins (sempre odiei), foram uma infinidade de suplementos famosos na época que fizeram parte da minha dieta.

Resultado: aos 8 anos deixei de ser a menininha magrela que tinha sido até então e entrei numa fase mais cheinha, que demorou pra acabar, e que se de um lado me superalimentavam, de outro faziam os comentários ácidos sobre peso e aparência, e isso gerou uma pré-adolescência bastante sofrida em termos de auto-imagem corporal. Isso vem, pra mim, do lado negativo.

Do lado positivo, vem a combinação de uma mãe hippie e uma avó criada em fazenda. Sempre comemos tudo feito em casa, com muuuuuita fruta, pomar em casa, horta, muita verdura, muita planta. A sobremesa de segunda a sexta era fruta. Durante as refeições só água. Sucos como lanche da manhã ou tarde. Nada industrializado. Nos fins de semana, às vezes um refrigerante ou uma sobremesa feita de chocolate, leite condensado, essas coisas, mas eram eventualidades. Nunca me foram proibidos, mas foram desencorajados. Até porque, lá em casa, o que era visto como relíquia, tesouro, algo a ser desejado, era uma boa goiabada com queijo de fazenda, doce de fruta em calda, pudim de leite, ou ambrosia goiana (a versão da família da minha avó, o famoso “doce de ovos”, era muito melhor que qualquer ambrosia que já tenha comido fora de casa!).

Com minha mãe veio o hábito das vitaminas, abacate, castanhas do pará (ou do Brasil, como tem sido chamadas), leite de soja. Além da babosa no cabelo, cultivada em casa (o famoso aloe vera), o creme de abacate no cabelo, o chá de camomila no meu cabelo loiro da infância, o óleo de uva na pele, e essas coisas que hoje em dia estão sendo consideradas o máximo em termos de produtos de beleza orgânicos e naturais, e que na minha infância eram apenas os reflexos hippies de quem acreditava num mundo mais natural e ao mesmo tempo não tinha grana pros produtos industrializados. Aliás, minha mãe ficaria entre o irônica e furiosa com os preços cobrados hoje em dia por uma vitamina de abacate ou um xampu de aloe vera.

Mas essa mistura me fez crescer num ambiente que foi marcado por uma alimentação saudável, em sua maior parte, e por pessoas que evitavam correr para os remédios convencionais. Minhas dores de ouvido eram tratadas com compressa de farinha de mandioca, e a dor de garganta com chá de gengibre, cravo e canela que dava suadouro. A tosse do inverno com café com uma colherinha de manteiga e mil outras crendices, que sem entrar na discussão de se funcionavam ou não, se são respaldadas pela medicina atual ou não, de fato, fizeram com que eu crescesse bem, saudável, com peso e altura sempre muito elogiados pelos pediatras e sem me entupir de remédios. Aliás, remédios eram vistos como última instância, e mesmo assim, na maioria dos casos, homeopáticos.

Eu cresci então com essa visão, mas só anos depois, e bem recentemente, percebi o impacto real dela em mim. Até hoje tenho mania de tentar resolver e definir tudo pela alimentação e hábitos relativos ao sono, controle do estress, cansaço, etc.

Em outros pontos a criação não ajudou muito. Embora meu avô tenha insistido que aprender a nadar era uma questão de sobrevivência, e antes dos 2 anos eu já nadasse sozinha e sem boias, numa piscina que não dava pé, e tenha feito natação até os 18, a prática de atividade física regular não era uma coisa vista como essencial. E demorei muito pra encontrar um jeito de manter o corpo em movimento na vida adulta que eu gostasse. Sempre odiei os esportes competitivos. É uma visão bem pessoal.

Mas o resumo é que nunca fumei, muitos em minha família fumaram e eu odiava com todas as minhas forças. Bebi muito pouco, em uma breve fase que logo abandonei, e agora já completo anos sem álcool. Nunca, Jurema? Nunca, nem uma tacinha, nem às vezes. Não!

Então, para falar de saúde, primeiro tenho que deixar isso claro. Nunca usei aparelhos dentários, nunca tive cáries, nunca fiz cirurgias, nunca fumei, não bebo uma gota há anos, não uso drogas e entorpecentes de nenhum tipo, cresci com uma alimentação bem saudável, que vem se tornando cada vez mais. Não como carnes de nenhum tipo há anos também. Sempre bebi muuuuuuita água, e chás!

Com meu marido, aprendi que o chá muito quente pode fazer mal ao estômago, por danificar aos poucos a mucosa, com o líquido muito quente. Fui pesquisar e descobri que é por isso que as xícaras de chá orientais não possuem local para segurar afastado do copo. Se estiver muito quente para segurar com a mão cheia, não deve ser ingerido, e passei a adotar a técnica. Só bebo o chá quando consigo segurar a xícara com ambas as mãos por pelo menos um minuto sem sentir incômodo.

Sempre que me sinto mal, o que não é frequente, analiso bem minha situação emocional, as mudanças de vida, a alimentação, e tento trabalhar isso antes de recorrer a remédios. Aprendi com o tempo os efeitos que o clima tem em mim, não lido bem com o calor forte, especialmente o mais úmido, tenho respeitado mais minha digestão, e meu corpo, meus horários naturais de sono, de ir ao banheiro, etc.

Algumas coisas e pessoas foram e são fundamentais nos meus processos de auto-conhecimento e saúde. Um dos que mudou minha vida foi um nutricionista, de Brasília, que me ajudou na transição para o vegetarianismo, e também me ajudou muuuuuito com auto-conhecimento. Foi uma das pessoas que mudou minha vida. Outra foi uma médica homeopata em São Paulo, a única que resolveu depois de 17 anos, meu problema com cólicas menstruais. Dos 12 aos 29 sofri horrores com cólicas, com mil histórias tensas, de ter que ir da escola para o hospital, de tomar superdose de medicamentos para cólica, enfim, sofrimentos variados, e infelizmente, considerados normais, por muitas mulheres. Há 2 anos e meio não sinto mais cólicas debilitantes, minha menstruação não é mais um período temido e sofrido, e embora às vezes ainda tenha cólicas leves, aprendi como resolvê-las e aprendi a me respeitar nesse período, me recolhendo mais, e respeitando minhas necessidades de descanso e paz!

Outra coisa que mudou minha vida e minha relação com meu corpo foi o Método DeRose! Pratico desde 2014 e cada vez aprendo mais, gosto mais, descubro mais. Ainda falta muito nessa jornada, mas nem consigo enumerar aqui tudo que ele me trouxe de bom, não só em termos de saúde, mas de autoconfiança, desenvoltura, e muitas, mas muitas ferramentas, pra lidar com o dia-a-dia, com minhas emoções, com a vida em geral.

Eu não sei se consegui, com esse post, responder pra minha amiga Nay como cuido da minha saúde, mas é isso aí. E sinto que ainda tenho tanto pra mudar, tanto pra aprender! Cada mês é uma nova descoberta sobre como lidar comigo mesma e com os outros. E me sinto cada vez melhor!

Vivendo com pouco e aprendendo com muitos

(Texto de junho/17 – adiantamento por motivo de férias em julho!)

Estou aqui aproveitando uma semana de chuva, longe das minhas caminhadas, e já que estou indoors sigo com os outros projetos, muita leitura, muitos post escritos adiantados, muita escrita e pesquisa. Em julho faremos uma viagem longa, de carro, e ficaremos sem wi-fi por mais de duas semanas. Na volta contaremos aqui sobre tudo e certamente teremos muuuuuuitas fotos! E mais pra frente, até o final do ano, estamos com outros projetos que não sei classifico de ambiciosos ou despretensiosos. Contraditório? Sim! Fato é que queremos botar o pé ainda mais na estrada e viver “on the road” por um ou dois anos, quiçá mais, veremos.

Com esse plano, estou procurando tudo que posso sobre van, modificações, e todos as peculiaridades de uma vida ao ar livre. Já demos um upgrade nos equipamentos de camping, fogareiro, panelas, bolsa “geladeira”, e coisas assim. Agora estou selecionando lanternas, lampiões e ventiladores com recarga USB, e outros detalhes da vida nômade.

Nesse processo tenho me deparado com inúmeros blogger e vlogger que falam sobre suas diversas experiências, algumas nômades, outras não, mas todas certamente fogem do que hoje em dia chamamos de estilo de vida tradicional.

Por isso, enquanto não começamos nossa saga aqui, vou deixar algumas indicações das nossas pesquisas pra vocês lerem, assistirem e acompanharem também!

Um que me chamou muito a atenção foi a Jo Nemeth, australiana que atualmente vive sem dinheiro. O blog dela, o Jo Low Impact, está todo em inglês, mas é possível ter um resumo em português nesse artigo do The Greenest Post. O que eu mais gostei do blog da Jo é que ela mistura suas reflexões pessoais nos textos junto com as explicações de como tem sido essa vida sem dinheiro e de baixíssimo impacto ambiental. O estilo da escrita mostra como ela reage emocionalmente a todas as mudanças e é algo que me agrada.

Outro que super recomendo é o Livre Partida, da Mari e do Plácido. Eles estão fazendo uma viagem de volta ao mundo, em vários estilos. Já mencionei aqui o blog deles antes, recomendo seguir também nas redes sociais, FB e Insta, além do canal no Youtube. O que eu mais gosto no blog deles, além das fotos e vídeos incríveis, é que eles colocam toda a contabilidade deles lá, até o cafezinho, e com isso todos podem ter a ideia exata de com quanto dinheiro eles estão fazendo essa aventura. O lindo disso é que quem também quer se jogar na estrada pode ter uma noção muito boa de quanto vai gastar, caso siga o mesmo estilo. Outra coisa que amo nos posts e vídeos deles é a oportunidade de aprender com os erros e sucessos alheios. Eles são muito francos e honestos quando é para dizer o que não deu certo, seja equipamentos que compraram e não utilizaram, ou não gostaram, planejamento, ou qualquer outra coisa. E claro, pode confiar sempre que eles dizem que é bom e que deu certo, porque a honestidade e a alegria são sinceras!

Um outro blog que eu achei no pinterest é o Apure Guria, da Angie, uma designer com muitas cores de cabelo que faz viagens sozinha e dá dicas ótimas, além de ser muito alegre nos vídeos dela. As dicas dela são muito práticas e eu gosto muito dos vídeos dela de dicas, tipo 10 coisas para não esquecer de levar, Como arrumar uma mala internacional e outros do tipo, mas o que eu achei mais divertido é que ela também inclui os do que não levar! Então também é possível aprender com ela coisas que ela achou supérfluas, desnecessárias, etc! Gente, a vida é muito curta pra gente aprender tudo por tentativa e erro solitários né, vamos aproveitar que a comunicação global é algo ao alcance de muitos hoje em dia e fazer valer! Além disso ela também é adepta do “travel light”, um estilo que sempre buscamos aprimorar!

Existem milhares de outros sites e pessoas que acompanho, e já postei aqui em Dicas de Viagem, outros sites e páginas com dicas muito boas!

 

Verão

{*texto escrito em 01/07/17 }

Saí para passear com o cachorro. São 20h30 da noite. Ou melhor, da tarde. O sol não se põe antes das 21h30, 22h e não ficará totalmente escuro antes das 22h30 quase 23h. A saída nesse horário é para tentar evitar o calor mais forte. Andamos até o parque, e eu sinto o cheiro da areia, que outros animais domésticos usam de banheiro. Veja bem, o parque é limpo, existe uma norma passível de multa para que os dejetos sólidos animais sejam recolhidos, que na maioria das vezes é cumprido. Mas o dia está quente, e quando o Picot rasga nacos de grama com as patas traseiras eu sinto o cheiro dela, misturado a tudo isso.

Dali vamos até a beira do rio. O sol já está bem inclinado e bate exatamente na linha dos meus olhos. Apesar dos óculos de sol bem escuros, sinto aquele franzido da testa, e em momentos fico cega com o excesso de luz, até fazer uma curva e conseguir voltar a enxergar. Passamos ao largo de um pequeno pasto, e todos os cheiros são encobertos pelo que emana dali. Começo a perceber a quantidade de insetos no ar. Eles batem nas lentes dos óculos, e preciso me abanar com frequência!

Chegamos enfim a beira do rio e percebo um distinto cheiro de peixe. Não de peixe morto, de carnes. Sim o cheiro de peixe vivo, cheiro de água onde vivem peixes e patos. Água fresca, corrente. Mas é obviamente verão e o cheiro do rio está ali, pairando no ar.

Quantas vezes não caminhei nessa beira de rio no inverno e nunca percebi nenhum cheiro de suas águas? O inverno, nesse sentido, é estéril. As águas são cristalinas, geladas, mais puras, e com menos vida. O ar no inverno é claro, e vejo distante. Os dias podem ser de sol, mas ele dificilmente esquenta de fato, e é possível caminhar sob ele por horas, sem sentir cansaço, calor ou fadiga excessiva. Eu gosto da esterilidade do inverno. Me dá a sensação de estar numa fotografia, ou num filme, onde a paisagem e eu, por mais que possamos interagir, nos mantemos como em dois planos. A neve brilha sob o sol como glitter, purpurina.

Essa semana me perguntei se precisava trocar o grau dos óculos. Sinto o mundo mais borrado. Talvez precise mesmo, mas me ocorreu hoje, ao andar na beira do rio, como o ar está mais denso. A cortina de insetos parece ser o próprio verão se materializando no ar, condensando de tão cheio, viscoso, excesso de vida. Vida até demais.

O verão daqui, por dividir o ano com outras três estações, parece mais intenso. Parece requerer que seus meses sejam só seus e que ninguém se esqueça disso. No Brasil, em especial em Brasília, onde só existe seca e chuva, o verão parece eterno. Eu sei, existem as frente frias, mas elas são raras e duram pouco, e ele parece se espichar pelo ano, como um chiclete sendo puxado e afinando. A parte presa entre os dedos, a mais grossa, são os meses de verão por direito, mas o verão de fato ocupa todo aquele fio repuxado. E assim, esticado, o sol é mais alto, a luz é mais branca, e as pessoas parecem aceitar que o verão, estando sempre ali, não precisa se mostrar o tempo todo.

Aqui o sol, isso tanto no verão quanto no inverno, parece nunca estar a pino. Sempre ali, próximo da linha dos olhos, me fazendo repuxar o cenho. Mais amarelo no verão, como se disse, “olha só essa cor, eu sou o verão!” Como se fosse um verão atuando como verão numa peça de teatro. As pessoas saem de casa, as banquinhas de sorvete de multiplicam pelo passeio da cidade e eu fico me perguntando, “onde vocês estavam?”. A sensação que tenho é que aqui as pessoas migram como andorinhas.

As roupas mudam muito de uma estação para outra, e não adianta insistir, as botas de verão serão inúteis no inverno e vice-versa. Me acostumar com a necessidade de momentos tão distintos é uma novidade às vezes custosa. As calças de inverno não servem pra primavera e as de primavera não servem no verão. As pessoas subitamente estão todas de vestidos esvoaçantes, shorts coloridos, camisas de mangas curtas em tecidos translúcidos. Riem nas ruas, falam alto, e os restaurantes não fecham antes das 2h da manhã.

Quando o calor é tamanho, deixo para sair com o Picot ainda mais tarde, às 23h, meia-noite, encontro senhores e senhoras de avançada idade, sentados ao redor da fonte do passeio, se abanando com folhas do jornal do dia, ou leques, e papeando. Próximo dos bares, todos com as mesas colocadas para fora, nas calçadas, o barulho é alto, e famílias inteiras se estendem pela calçada, comendo, bebendo, existindo.

Ao cruzar uma dessas calçadas, duas irmãs, vestidas igualmente e armadas com pistola d’água me atingem no fogo cruzado. Ouço em parte, em catalão, o pai fazer meias desculpas enquanto insiste que nesse calor é melhor assim. Sorrio e passo. A água não incomoda, de fato é bem-vinda. O que me incomoda é o calor que não vai embora. É voltar para casa e perceber como dentro está mais quente ainda do que fora. É ficar parada ao lado da porta da sacada, escancarada e perceber que a leve brisa, um pouco mais fresca, que sopra lá fora não entra, como se negasse meus convites e apelos.

Vou até a geladeira e pego um picolé. Sento na sacada, no chão, de pernas cruzadas, ao lado do Picot e observo essa cidade cheia de vida. Vida até demais. É quase impossível dormir antes das 3h da manhã, com o barulho das pessoas na Taverna em baixo, que mesmo depois de fechada, ficam pela praça, terminando a conversa. Lembro que no inverno, a cidade parecia uma cidade fantasma. Como é estranho pra mim, quase alienígena, observar esse movimento entre estações. Como é curioso perceber como o ser humano se acostuma e se adapta.

Termino o picolé. Jogo palito e embalagem em seus respectivos lixos. Aqui tudo é reciclado. Decido que um banho antes de deitar vai me ajudar a dormir, apesar do calor. Lembro que na primavera os campos ficaram floridos, e que agora tudo começa a apodrecer, nesse excesso de vida. Ainda não sei como será o outono. Mas posso dizer que as 4 estações até agora foram assim, um inverno muito estéril, e muito bonito. Uma primavera de desenho animado, com campos floridos e cheia de vida e partos, milhares de animais com filhotes. Manhãs e noites frescas e dias muito quentes. E o verão é assim: um excesso! Muito tudo. Muita vida. Muitos cheiros. Muitas cores. Muito sol. Até demais!

Vamos ler, meu povo, que é bom demais! 

Eu sinceramente não consigo entender como esse post não nasceu antes. Minha única forma de explicar é que realmente não estava com a cabeça no lugar o suficiente. Mas antes tarde do que nunca, vamos lá.

Eu cresci com livros. Eles sempre foram meus melhores amigos, companheiros de todas as horas. Na minha casa o hábito da TV nunca foi forte. Eu já tinha muitos livros infantis e gibis da Turma da Mônica desde muito antes de aprender a ler. O processo de alfabetização veio de casa, antes da escola, e foi todo na base dos gibis. A primeira coisa que eu li totalmente sozinha foi uma história curta, dessas de uma página, do Dudu, num gibi da Magali. Nessa mesma época minha mãe tinha começado a ler Monteiro Lobato pra mim antes de dormir, e começamos por Reinações de Narizinho. Ela leu cerca de 1/3 do livro pra mim, e depois eu lia em voz alta pra ela. Começamos com aquele dedinho de criança, acompanhando linha por linha, ela me ajudando com as palavras grandes, as trocas de sílabas e no terço final eu já lia por conta, ela de frente pra mim.

Desde de Narizinho e dos inúmeros gibis, eu caí com gosto no mundo dos livros! Lá em casa, quando alguém reclamava de estar a toa, ou não ter o que fazer, a resposta era sempre a mesma: “Vai ler um livro!”. O mágico é que os livros nunca acabavam. Tínhamos todos estantes enormes, de muitas e muitas prateleiras em nossos quartos, cheia dos livros pessoais. Além disso, meus avós tinham uma biblioteca imponente, numa estante de prateleiras muito grossas, embutidas na parede, coroada por uma gigantesca enciclopédia britânica, encapada em couro claro, cada volume marcado por um numeral romano em tom dourado na lateral. Essa visão da enciclopédia, era para mim, a coisa mais simbólica do conhecimento máximo a ser atingido. Eu lidava com aqueles livros grandes e pesados, numa língua ainda desconhecida, com a reverência que nunca vi por livros religiosos na minha casa.

Eu tive as minhas versões de enciclopédia, enquanto crescia. Minha mãe e meu tio Guila colecionavam pra mim os fascículos das enciclopédias da Folha, e assim tive a Folha Ilustrada, que comprávamos na banca, outra em dois volumes, com história do mundo, uma edição de mapas com as guerras, e outras do tipo. Isso, meus caros, era como vivíamos na era pré-internet. O primeiro computador chegou lá em casa quando eu já tinha uns 10 anos e pra digitar era direto no MS-DOS (alguém aqui ainda sabe o que é isso?). Lembro quando instalamos o primeiro Windows, e o computador ficou colorido e “bonitinho”. Conexão com a internet veio anos depois, primeiro discada e lenta. Pesquisa na internet fui fazer só no ensino médio. E rapidamente os trabalhos se tornaram digitados. Foi uma senhora transição.

Que fique bem claro, eu sou hoje em dia uma aficionada pela internet e acabo passando a maior parte do dia no computador. Trabalho pela internet, assisto filmes e seriados, jogo, escrevo, enfim, vivo uma vida on-line bem intensa. Até mesmo os livros hoje em dia, com a vida nômade, opto por baixar versões digitais e ler no computador ou tablet. Parece uma outra vida, quando lembro das minhas enciclopédias em fascículos!

Nos últimos anos eu acabei, como a maioria das pessoas que eu conheço, me tornando mais viciada em internet. O celular, com todos os apps, e a possibilidade de estar sempre conectada, e muitas vezes a “necessidade” de estar conectada, criada pelas relações sociais de hoje em dia, sejam profissionais ou pessoais, fez com que meu ritmo de leitura caísse muito.

Quando era mais nova, lembro bem da ânsia por ler, em como eu contabilizava todos os livros que tinha lido no ano. Livros enormes, sagas, trilogias, sequências. Livros de autores de diversas partes. Eu amava fazer minhas análises dos livros, discuti-los com familiares e amigos, dividir leituras. Muitas vezes comprava as trilogias ou séries em parceria com minha prima Carol, cada uma bancava ou pedia pros pais um dos volumes, e íamos lendo, compartilhando. Li livros velhos, livros dos meus avós, foi um marco quando a biblioteca deles se abriu pra mim e consideraram que eu já tinha idade pra explorá-la como quisesse. O primeiro foi por indicação da minha mãe, Dom Casmurro. Meu primeiro livro “de adulto”. Logo desembestei, lia Gabriel Garcia Marques e Jorge Amado como se não houvesse amanhã. Me impressionei bastante com Cândida Erêndida e Capitães da Areia. Em vez de Lolita, minhas noções de sexo vieram dessa literatura crua, e as poucos fui desenvolvendo um gosto louco por ler cada vez mais.

Harry Potter, Senhor dos Anéis, O Hobbit, Silmarillion, Musashi, e um pouco mais tarde as diversas sagas do Bernard Cornwell, como as Crônicas de Arthur, e depois o Sharp, me encantaram loucamente. Sempre amei os mundos fantásticos. Mas ou mesmo tempo fui fisgada pela literatura social, e com Carandiru, do Varella, e Esmeralda, porque não dancei? fui me habituando a ler sobre outros temas, e criar uma visão crítica de mundo.

Os volumes foram tantos, que aos 18 já tinha minha mini-biblioteca, quase tão grande como a dos meus avós, mesmo considerando que muitos eram trocados. Frequentei bibliotecas diversas, e tive uma fase de ler todos os Sci-Fi do Lundum na biblioteca da escola de inglês. Austen e as irmãs Bronte vieram também, e depois Dickens me ganhou o coração! Li muitos clássicos da literatura, brasileira e mundial, alguns obrigatórios na escola, mas a maioria por gosto e curtição.

Aí veio a faculdade e a falta de tempo, e a necessidade de ler por obrigação e comecei a ler por gosto cada vez menos. De mais de 30 livros por ano, passei pra 3! Ainda assim mantive a curiosidade. Li muita literatura de consumo rápido nesse período, para compensar a densidade dos estudos. Best-sellers, livros comentados por muita gente. Depois, quando saí da faculdade, tive uns tempos difíceis, as emoções não andavam boas e foi um período de muita televisão.

Sim, a TV anestesia a mente, e o luto agradece. Antes desse período não tinha hábito de ver séries. Nem Friends, que acompanhou a adolescência, ou Gilmore Girls, eram seriados que eu via sistematicamente, só quando por acaso estavam passando quando eu ligasse a TV. Nesse período comecei a assistir acompanhando, na ordem. Até porque, com a internet, isso ficou mais fácil. Depender das TVs por assinatura, com mil repetições dos mesmo episódios e semanas entre eles era uma fase bem difícil e obscura para os apaixonados por séries.

A literatura foi voltando tímida pra minha vida. E um ponto chave, foi quando comecei a escrever. Comecei esse diário antes do blog, em arquivos esparsos no meu computador. Com o tempo fui organizando e criando coragem para colocar tudo aqui. Nessa época, descobri o gênero “auto-ficção”, termo ainda hoje pouco conhecido, e difícil de classificar. Acabei lendo coisas “classificadas” assim, e outras que não tinham a classificação, mas, na minha humilde opinião, o eram. Me debrucei sobre Munro, e li mulheres sistematicamente. Brum, Saavedra, Falção,Torres, reli Lispector, reli Meireles. Assim nasceram meus primeiros textos da menina. Depois fui abandonando o eu-lírico de terceira pessoa e comecei a escrever como se conversasse com os possíveis leitores.

Voltei pra academia, mestrado, e surgiu uma nova fase triste da literatura na minha vida. Li muito pouco. Essa coisa de estudar textos densos me afasta da leitura por gosto. Além disso, a ansiedade, e mil outros sentimentos negativos que me acometeram nessa experiência acadêmica, me fizeram viciar fortemente na internet. Ficar 2h por dia ou mais vendo bobagens, de vídeos de gatinho a receitas on-line que eu nunca iria fazer.

Ganhei o Walden pouco antes de entrar no mestrado, li os primeiros capítulos, ele acabou ficando na espera! Que triste isso! Nos últimos meses, passados 2 anos e meio dessa espera, resolvi voltar, com afinco. Entrei por um convite maravilhoso para um grupo de leitura de literatura brasileira e estou tendo o prazer de reler os nossos clássicos, além de alguns outros que não conhecia antes. Também retomei meu projeto leia mulheres e estou com algumas na lista, Ana Maria Gonçalves, Elena Ferrante, Margaret Atwood. E o Walden tá quase acabando, finalmente!

Com a volta desse hábito lindo na minha vida diminuí muito o tempo de internet. E estar vivendo numa cidade pequena, sem conexão no celular fora da wi-fi, acampando muito, passando dias na montanha e na estrada, têm sido fundamental para rever esse hábito. Agora que já estou bastante envolvida com os livros de novo, às vezes venho ao computador, conferir uma data, um fato, outros livros do mesmo autor, e não tenho mais vontade de ler todas as noticias do dia, atualizar todas as mídias sociais, ou responder todas as mensagens. Passou! Faço o que vim fazer, abaixo a tela e volto pro meu livro. E é tão bom!

Aceito sugestões de leituras nos comentários! Ando querendo voltar pros mais de 30 livros/ano! E caso queiram, posso dar umas listas com indicações também! Vamos ler, meu povo, que é bom demais!

 

X Jocs Florals

Na semana passada, aconteceu aqui em La Seu D’Urgell a 10ª edição dos Jogos Florais (ou X Jocs Florals). Os Jogos Florais acompanham o dia de Sant Jordi (dia de São Jorge), que foi comemorado no domingo mesmo, e na segunda-feira seguinte, realizaram a cerimônia de premiação dos jogos. Esse evento é um dos mais famosos da cidade, e ainda que a cidade seja pequena, atraiu muita gente. Os Jogos Florais são uma competição literária, que acontece por várias partes da Europa, em especial a Espanha e a França. Aconteciam em Occitane, quando esse era falado, e tanto na França quanto na Espanha, acontecem em catalão nas regiões onde esse é o idioma cotidiano.

Além de enaltecer a literatura local, os Jogos têm o intuito de estimular e preservar a língua catalã, tornando-se, por isso, bastante importante para seus falantes. Em La Seu, esse foi o décimo ano dos Jogos e a cidade estava ainda mais animada. A Escola de  Formação de Adultos e Idiomas Oficial de La Seu – CFA La Seu, promove os Jogos e é lá que estudamos catalão.

Em março, quando eu e o André estávamos estudando essa língua há apenas 3 meses, nossa professora, Marta, nos convidou para participar, pois nessa décima edição incluíram uma categoria para iniciantes. OS Jocs Florals contam com 5 categorias: Englantina (relatos de até 3 páginas), Flor Natural (Poesia), Grandalla (Foto seguida de um título/comentário), Rosa (iniciantes) e Viola (micro contos, contos de cerca de 10 linhas). As categorias Grandalla e Rosa foram novidade.

No início estávamos bastante reticentes com a ideia de participar, pois mesmo considerando que a categoria é para iniciantes, estávamos estudando há apenas 3 meses, e a pouco mais que isso na cidade. Alguns dos nosso colegas já estão aqui há anos, ainda que estejam no nível inicial da língua catalã, uma vez que também é possível se comunicar em castelhano. Mas nossa professora insistiu, e acabamos enviando textos.

Cerca de um mês se passou, e então veio o dia da premiação. O espaço, uma antiga igreja, hoje um centro cívico e auditório, estava muito bonito, e chegamos cedo. Encontramos alguns colegas, alguns amigos da cidade e todo o evento começou. A diretora da escola e outros professores apresentaram, o prefeito teve sua fala, e uma convidada, doutora em língua catalã também. Comentaram as edições anteriores, o significado dos Jogos para a cidade e para o idioma. Trechos de poesia e literatura catalã famosos foram lidos, enfim, tudo conforme manda o figurino de um evento desse tipo.

Por fim, começaram a chamar as premiações, e faziam da seguinte forma, apresentavam um pequeno trecho do texto, e depois falavam o título e nome do autor, em seguida convidando-o para o palco e premiando-o. Cada categoria premiou 3 textos, menos a Englantina, que contemplou 4 ganhadores. OS prêmios de acesso e o primeiro prêmio. Aplaudíamos a cada nome revelado e estávamos bastante tranquilos.

Até a categoria Rosa começar. Revelaram o último prêmio acesso (equivalente ao 3º lugar), aplaudimos uma colega da outra classe. E aí, eis que reconheci na tela, desde a primeira palavra, o texto do André. Antes mesmo do nome ser revelado, eu já estava aplaudindo. Segundo prêmio acesso (2º lugar) na categoria Rosa. Fiquei emocionada e orgulhosa. Me imaginei da platéia tirando fotos dele! E antes mesmo que eu pudesse pensar nessas tais fotos ou em alcançar o celular, mudaram a tela, e li as primeiras frases do meu texto lá. Assim, na frente de todo mundo.

Pode parecer bem besta, pra quem tem um blog, ter vergonha de ver seu texto à mostra daquele jeito, mas confesso que mesmo depois de 3 anos de blog, cada publicar que eu clico vem com um frio na barriga! E ver aquela exposição pessoalmente foi um senhor desafio! Daqui eu sei que algumas pessoas me leem, mas eu não tô vendo vocês fazendo isso!

Fui receber meu prêmio, 1º lugar da categoria Rosa. Tiramos as devidas fotos oficiais. E voltei a me sentar com o coração disparado! Assistimos às demais premiações e ao final , chamaram todos os que inscreveram textos, em todas as categorias, para receber um pequeno vaso de flor (afinal, Jocs Florals, né) e tirar uma foto coletiva. Nesse ponto tive mais uma surpresa, pois logo na primeira categoria, Englantina (de relatos mais longos), me chamaram como participante. Eita! Descobri que meu texto concorreu também na outra categoria (a séria! hahahaha). De novo um disparada de batimentos, mas logo o palco encheu de gente, e eu fiquei “escondida” e mais tranquila, na multidão. Via o rosto do André lá do outro lado do palco e só pensava: “em que a gente se meteu?!”

Para encerar ouvimos a apresentação do coral local, do qual nossa professora faz parte, e foi muito bonito, e compartilhamos uns petiscos com os presentes. Voltamos pra casa incrédulos, e fomos revirar nossos prêmios, muito bons. Alguns livros, livreto do evento com os textos, o prêmio do André: duas entradas para um show de comédia, e o meu: um jantar para dois no restaurante do hotel chique local.

Ainda estamos processando. Mas a melhor parte foi ver nossa professora feliz. Me identifiquei. Agora quero poder compartilhar esse momento com meus alunos e ex(eternos)alunos. Se arrisquem! Mesmo em outro idioma! Faz um bem danado! A gente cresce, evolui, aprende! E a questão não é ganhar, mas o tempo que a gente dedicou, traduzindo, procurando palavras, corrigindo com a professora, percebendo que fizemos traduções literais e surreais de expressões em português, buscando entender como poderíamos fazer essas mesmas manobras no outro idioma.

Além da experiência de se sentir parte da comunidade local, conhecer uma tradição da cidade e fazer parte dela. Viver fora é também abraçar essas coisas, por menores ou maiores que sejam. E descobrir nos detalhes, nossas paixões.

Vou copiar os textos em catalão mesmo aqui, usem o tradutor ou mandem mensagens em caso de dúvidas!

Ambos são ficções. O do André ao estilo dele, com humor, sarcasmo e ironia. O meu, bem, como reminiscências “da menina”, histórias de Alice, de Clarice, histórias de mulher, de detalhes da vida cotidiana, de diário, de blog!

 

La cua i el drac 

André Pereira Paduan

Beowulf esperava el seu torn per ser atès, tiquet de tanda en mà. Els números avançaven, un per un, en una lentitud més aterridora que quasevol dels monstres amb què mai s’havia enfrontat. El futur en el qual de cop i volta havia despertat era molt diferent del seu temps primerenc, a la mateixa terra, mil·lennis abans. Tot eren regles, ordres i papers, molts papers. Va haver de canviar el seu mantell de pell per un abric sintètic, degut a la pressió dels defensors dels drets animals. Va haver de deixar la seva espasa i el seu escut perquè no tenia una llicència d’ús. I va haver de fer-se la documentacció perquè presentar-se com el rei de Gautas ja no era suficient o adequat. Trobava a faltar enfrontar-se a dracs i beure cervesa amb els seus soldats. Però, sobretot, sobretot, trobava a faltar no haver de fer cua.

 

El blog de la dona de ells molt bons ulls

Juliana de Almeida Reis Marra

Es van casar fa molt poc temps. El festeig havia estat molt curt. Es van conèixer en un viatge. Aviat van estar junts. S’estimaven molt. Ell era molt tranquil, no bevia, no fumava, no sortia. A l’inici, tots dos eren feliços amb poc, una pel·lícula, crispetes de blat de moro, un gos en un coixí, una xocolata compartida. Tots dos passaven molt de temps a l’ordinador. Treballaven amb l’internet. Llargues hores junts, però separats. Només el so ràpid de les tecles, d’ambdós costats. Feien passejades, viatges curts, campaments. Plaers petits i barats de la vida. Un gelat. Un posta del sol. Parlaven molt, i els temes de conversa fluien molt bé, i tot semblava tan correcte i tan simple, que no semblava real.

Un dia, a la recerca de noves lectures a Internet, ell es va trobar amb un blog fantàstic! Era el diari d’una dona aventurera. La forma descrivia el seu dia a dia el va fer somiar! A poc a poc la dona es va mostrar molt forta, independent, valenta, audaç, interessant, plena d’opinions polítiques, històries, viatges. Que increïble seria veure la seva vida! Semblava tan simple, però tan impressionant! El meravellós que seria viure la vida d’aquesta dona!

Ell va començar a somiar amb les aventures increïbles del blog i es va anar distanciant de la seva dona. Va començar a buscar a la seva pròpria vida aquestes petits coses emocionant, tot era tan bonic, però simple. On eren aquestes increïbles emocions que llegia al blog?

Un dia, sense poder-se aguantar més, va dir a la seva dona que necessitava parlar. No li havia dit res encara, però estava inquiet i necessitava saber l’autor misteriós, que amb simples paraules havia guanyat el seu cor. Ell mai l’havia vist, però l’admirava molt. Encara estimava la seva dona, però les llargues hores a l’ordinador no podien competir amb les meravelles que es descrivien al blog.

Ell va advertir-la que volia tenir una conversa seriosa, ella li va demanar uns minuts per acabar un text, feina que la va ocupar durant hores. Es va posar dreta darrere d’ella, i va llegir de dalt a baix el que estava escrivint.

En acabar, una mica espantat, ella li va preguntar a què es referia, de què volia parlar. Només li va prendre la mà i se’n van anar a menjar un gelat. Per el camí li va dir el molt que l’estimava i que mai havia conegut a ningú que veiés la vida amb tan bons ulls!

 

Consciência

Muito já falei aqui sobre o distanciamento que minha forma de viver gera com as pessoas em geral. São muitos itens, o vegetarianismo, o fato de não beber, o amor pela natureza, pelas viagens, a forma de encarar o mundo e as relações humanas. Tudo isso pode parecer muito interessante para uma breve descrição de bio em um blog ou perfil de rede social, mas na hora da convivência intensa, são outros 500.

Dei a sorte de encontrar pra dividir o dia-a-dia alguém que entende quase todas as minhas loucuras e aceita as que não entende e vice-versa, eu com as dele. Mas não é tão simples. Conheço vegetarianos que amam beber, balada e aí temos alguns pontos de ligação e outros não. Conheço pessoas que não bebem e não são de balada, mas que são a favor de uma vida mais estável, com empregos fixos, horários de lazer restritos, e consumos mais altos. Conheço pessoas que gostam de viajar, mas que gostam de outro tipo de viagem, mais urbana, mais confortável, mais turística. Conheço pessoas que amam a natureza, mas que também assistem muita TV e estão sempre prontas para comentar a novela ou a última fofoca, seja política ou ficcional (algo muito difícil de distinguir atualmente, especialmente no Brasil).

E veja bem, em nenhum momento eu estou criticando nenhuma dessas características. Nem exaltando nenhuma delas. Apenas comentando como sou, como vivo e como cada vez mais, os pontos em comum, ficam difíceis, raros, na convivência mais próxima. Para um encontrinho rápido, para rever amigos antigos, ou pessoas que estão longe, é ótimo. Sempre tenho do que falar e gosto de ouvir. Mas para a convivência é mais complicado. Muito disso eu já comentei no post Sonhos e aprendizado no qual cito também alguns filmes e livros, que comentam essa distância.

E atualmente tenho me sentido muito paralisada, nessa distância. Com muita dificuldade de seguir escrevendo meu mestrado, de seguir correndo atrás da burocracia, enfim, as coisas parecem muito difíceis, e não é por falta de esforço pessoal, é porque com o tempo vou percebendo os mecanismos, e como o mundo é feito, em cada coisa, para que nos encaixemos nele e não o contrário. Fechando oportunidades, com cara de quem abre portas, dando prêmios de superação, pra quem abaixou a cabeça e acatou o sistema, em vez de se superar de fato. E tantas outras coisas que são na verdade perceber que no mundo, tudo é como a salsicha, você não comeria (compraria, viveria, etc) caso soubesse como é feita. E conforme vou descobrindo, ganhando consciência, também vou me sentindo mais apática, mais desanimada, desestimulada.

Estou aqui nesse dilema, sofrendo as dores do mundo, de forma até clichê, e ao mesmo tempo me sentindo bem idiota pela incapacidade de reação. E aí, para distrair, eis que me deparo com esse vídeo Notes from de Underground, e me senti menos estranha ao mundo. O livro, Notas de Subsolo, do Dostoiévski, ganhei há muitos anos do meu irmão, fã de carteirinha do autor russo, e gostei muito da leitura. Mas nos últimos meses descobri o Wisecrack e as análises literárias em thug style dele, que me fazem rir muito, e ao ver que ele tinha analisado Notas de Subsolo, resolvi checar e me surpreendi em perceber como estão alinhadas com essa minha paralisia. Estou sofrendo dessa falta de saber como agir e se agir ou não derivada de perceber demais os problemas do mundo.

Então agora vem as decisões difíceis de fato: ignorar um pouco dos problemas do mundo, e “comer a salsicha” assim mesmo? Ou seja, terminar minhas atividades, mesmo sabendo que não são mais meu sonho e que ele ficou manchado? Desistir e seguir outros caminhos, mesmo sabendo que eventualmente posso descobrir como essas novas salsichas são feitas? Ou descobrir uma nova fonte de energia, para concluir os desafios apesar das desilusões? E como encontrar essa energia, esse ânimo?

Tendo a optar pelas últimas e espero conseguir. Perceber minha apatia foi o começo. E agradeço ao Dostoiévski mais uma vez.

Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

Bela Watson

Eu cresci apaixonada pela Bela, da Disney, do filme A Bela e a Fera, de 1991. Desde que vi o filme me identifiquei profundamente. Minha barbie favorita era a Bela (versão vestido azul, camponesa), com um livro na mão. Pra mim ela será sempre a não-princesa, lembrando que ela é camponesa, que amava ler e conhecer coisas novas. Amava o pai e nunca teve medo da Fera. Pra mim ela sempre foi sinônimo de liberdade!

Nos últimos anos comecei a ver muita gente fazer a crítica e levantar a questão da Síndrome de Estocolmo, onde o sequestrado se apaixona pelo sequestrador, numa alusão de que isso era o que tinha acontecido entre a Bela e a Fera e que romantizar isso é romantizar um abuso. Essa visão sempre me incomodou um pouco, mas aceitei a crítica, achando que o incomodo poderia vir justamente da minha dificuldade em desconstruir meus símbolos de infância,  afinal, eu também cresci vendo Disney.

Ano passado a Emma Watson anunciou que faria a nova versão do filme, A Bela e Fera, também Disney, uma releitura que promete ser fiel à animação de 1991. Amei! Já sou fã da Emma pelo trabalho com Hermione, outra personagem com a qual me identifiquei profundamente na adolescência, a menina inteligente, bookworm, que não leva desaforo pra casa, e ainda luta pelas questões sociais (leia os livros e descubra a atuação dela na libertação dos elfos domésticos da situação de escravidão).

Alguns blogs e páginas que eu sigo vieram com a crítica. Que eu acho sempre válida de ser feita, especialmente para não aceitarmos o peso da influência Disney sem questionamentos. Criticaram a Emma por aceitar o papel, iludindo milhões de fãs, que já a admiram pelo papel de Hermione, no papel de Bela, a menina bonita da vila, que sequestrada pela Fera, aceita um relacionamento abusivo (a Fera além de prendê-la, grita, faz exigências e etc), em troca de uma biblioteca e da esperança que ele mude. Essa crítica me incomodou de novo. E de novo, achei que fosse porque eu precisava rever meus próprios preconceitos, machismos e me desconstruir.

Li também a crítica à Watson pelo fato dela ser a representante da ONU Mulheres no programa He for She, que busca aumentar a consciência das mulheres e homens para a questão de gênero e fazer ações concretas para melhorar a situação da mulher no mundo, especialmente superando a violência doméstica e aumentando o acesso das mulheres à educação e conhecimento, e ainda assim aceitar ser a Bela, dadas as premissas negativas do filme, a Síndrome de Estocolmo, o machismo, as mudanças de humor e a promessa irreal de mudança. De novo me incomodei e de novo achei que precisava me rever meus conceitos.

Isso ficou me incomodando, lá no fundo da cabeça, da memória e do coração. E vi um meme da Emma, com uma camiseta com uma fala da Hermione: “When in doubt, got o the library”, (quando em dúvida, vá a biblioteca), uma alusão à capacidade da personagem de solucionar os maiores enigmas da saga Harry Potter consultando livros. E foi o que fiz. Só que em vez de livro, fui rever o filme A Bela e a Fera, da Disney de 1991.

Ressalto aqui que fiz minhas reflexões sobre o filme, versão 1991. Não sobre os livros com versões do conto. E explico porque. O livro pode conter outros aspectos, mas a minha influência pessoal foi o filme, que assisti em 1991, com 7 anos de idade. Além disso, o filme 2017 com a Watson é totalmente baseado no filme de 1991 e não no livro. Acrescento que não tinha reassistido o filme nunca mais. Estava com a memória dos meus 7 anos lá guardada. Dado o parêntesis, vamos aos fatos.

Ao assistir novamente a animação ficou claro pra mim os motivos pelos quais tanto gostei em 1991 e que são os mesmos pelos quais continuo admirando a animação ainda mais hoje. Sei que sou muito Bela e muito Hermione e entendo e corroboro a Emma pela aceitação do papel. Desde a primeira fala, a primeira música, a Bela diz que quer mais do que a vida provinciana da vila. Que quer conhecer o mundo. Sua paixão pelos livros não está limitada à leitura per si, mais ao conhecimento que ela trás.  Então vamos aos fatos que o início do filme nos trás: 1. A Bela e o pai não são originalmente daquela vila. 2. Ele é inventor (busca pelo novo e desconhecido) e é visto como louco na cidade. 3. Ele quer vender a invenção na feira para conseguir “uma vida melhor” para ele e sua filha. A parte de se mudar da vila após a venda não está explicitada e é uma interpretação pessoal baseada no que falam. Ressalto ainda que dadas as premissas, eles não sofrem necessidades básicas, e ambos desejam conhecer mais, “uma vida melhor” não diz respeito à questões de renda e sim de um local onde ambos não sejam vistos como loucos, ou diferentes, por querem conhecimento.

O Gaston. Se eu já odiava essa personagem desde 1991, agora só piorou. Ele sim é a representação completa do machista. Além de se achar a criatura mais linda, gostosa e poderosa do universo, o idiota tem um mindset mais fechado que cofre de banco. Ele deliberadamente diz que quer casar com a Bela porque ela é a mais bonita, e portanto ele tem o direito de possuí-la, como um troféu, a trophy-wife, para o maior caçador da região. Isso sem nem mencionar que ele é caçador. Mas mais do que isso, ele menospreza ela, e todos os demais, homens e mulheres, e é completamente incapaz de perceber que ela jamais ficaria com alguém como ele, quiça ficaria na vila, algo que parece muito duvidável. Isso sem falar na menção aos 6 ou 7 filhos e na obrigação de cuidar dele, inclusive com massagens nos pés. E além disso, o desprezo dele pelos livros, os quais ele considera perigosos pois fazem pensar. Ele joga o livro dela na lama, põe os pés imundos em cima e despreza o que os livros representam, o conhecimento e a liberdade, tanto quanto pode.

Gaston se supera e consegue ainda um plano macabro envolvendo pagamento em dinheiro para aprisionar o pai de Bela, como maneira de “convencê-la” a se casar com ele. Sua reação quando descobre a existência da tal Fera é a de caçador, exterminamos e pronto. Quando percebe a afeição da Bela pela Fera e se sente preterido, aí torna o assunto pessoal. Gaston representa toda a intolerância com o desconhecido ao incitar a vila a matar a Fera, além de prender a própria Bela e seu pai no porão para não avisarem a Fera a tempo. Mas lidar com o Gaston é fácil, ele é o vilão. Medíocre como esperado. Violento como esperado.

E assim as críticas recaem sobre a Fera. A Fera é a personagem mais esférica, na minha opinião. Ouvi críticas sobre a inconsistência da animação pois a bruxa amaldiçoa o jovem príncipe, e diz que suas chances de voltar a ser humano acabariam no seu 21º aniversário e depois no filme os objetos/servos do castelo comentam que já estão naquela forma a 10 anos. Para mim isso não é uma inconsistência, é apenas o fato de que não envelhecem enquanto estão amaldiçoados, tanto que o pequeno Chip continua sendo uma criança pequena nesses 10 anos. Além disso há que se lembrar que ele poderia ser bem novo e ainda assim “senhor” do castelo dadas as premissas da época.

Quando foi encantado, o jovem príncipe se recusa a ajudar uma mendiga, acusando-a de ser feia e maltrapilha e por isso ela o transforma em fera hedionda, e ainda por cima faz com que a quebra do feitiço venha apenas quando alguém conseguir amá-lo apesar da forma. Por mais que eu ache que o príncipe estava absolutamente errado, e era um ser arrogante e aristocrático (características redundantes nesse contexto), a bruxa pegou pesado ao incluir no castigo todos os servos, que não tinham nada a ver com isso, e que também ficaram amarrados pelo time frame da maldição. Além de arrogante, o jovem príncipe agora vira Fera, absolutamente solitário e sem ter a menor ideia de como amar alguém ou se fazer amado. Se ele tivesse continuado igualmente arrogante o castelo seria limpo, lindo, apesar de assustador e ele seria uma Fera dominadora. Mas ao contrário do Gaston, sempre com a auto-estima no céu, a Fera duvida de si mesma e do mundo. Como um bicho acuado e seu canto, ainda que esse canto seja um castelo, e com todo o passado arrogante por trás.

Essa dualidade faz dele um ser cheio de mudanças de humor e muita dificuldade de se relacionar, com quem quer se seja, além da solidão crônica. Não acho que isso seja justificativa para seu comportamento arrogante inicial, mas certamente deve ser considerado depois de 10 anos. É fato que apesar da maldição, ele só esperava ser deixado em paz, em sua solidão amaldiçoada.

Quando o pai da Bela entra no castelo, o que não deixa de ser uma invasão, e é bem-recebido pelos servos-objetos, a Fera se torna agressiva, sim, mas como um bicho acuado. Com vergonha e medo de que o vejam, de que saibam de sua existência. E o prende não para diversão própria ou crueldade pura, mas como resultado desse medo e dessa frustração, somados à arrogância anterior.

Mas vamos a Bela. Todos falam de Gaston e da Fera, para explicar os acontecimentos, como se a Bela fosse um ser inanimado que só acompanha os homens da história, pai, Gaston, Fera, quando na verdade ela é o centro e o motivo dos acontecimentos principais. Desde o início Bela se declara enfadada com a vida provinciana e com sede de conhecimento. Ela é segura de si e muito firme, sendo muitas vezes teimosa e autoritária também.

Ao encontrar o pai no castelo ela pede para ficar no lugar dele, e se observado com cuidado, não só para salvar o pai, que como diz já está velho, mas pela mudança. Pela curiosidade. Por mais que uma vida provinciana. Claro que ela chora, e questiona as próprias escolhas, como fazemos todas. E no mesmo momento descobre que o castelo não sera sua prisão, que ela tem liberdade ali dentro e sera servida, apenas a Ala Oeste é proibida. Na primeira oportunidade ela vai até a ala, desrespeitando a regra, por curiosidade e sede de conhecimento. Ao ser confrontada pela Fera, que estava em seu direito de proibir a ida a ala, embora não no direito de aprisionar ninguém, Bela sai do castelo. E ao sair diz “sei que dei minha palavra, mas não posso ficar nem mais um minuto aqui”, e ninguém a impede, nem a Fera. Desconstruindo um pouco a ideia de prisioneira e síndrome de Estocolmo.

Sai loucamente, a noite, numa floresta amaldiçoada, e é atacada. A Fera vem em seu salvamento e quase morre. Ela podia ter seguido para casa daí, mas decide voltar. Talvez por culpa ou remorso, mas acho que também pela gratidão e pela curiosidade. Não só a curiosidade com a Fera, mas com todo o castelo, com todo aquele mundo. E lá fica, e lá descobre aquelas pessoas fantásticas, e, claro, a biblioteca dos sonhos. Nesse ponto, existe, claro, o peso da “obrigação” da Bela de ficar, mas pela palavra dada e não pela força.

Já vi muitas pessoas interpretarem como alusivas as relações abusivas, onde não há violência física, mas sim psicológica, e onde a mulher muitas vezes fica por se sentir culpada, obrigada, devedora, ou não merecedora de algo melhor e acho super importante debater tudo isso, inclusive por meio de filmes e animações para que o debate chegue até as meninas. Mas não acho que é o caso da Bela. Ela parece estar sempre no controle. Ao contrário da Fera, que é inseguro, que apesar de ter acesso aquilo tudo desconhece muito, inclusive reluta em admitir a dificuldade em ler. Enquanto Bela me parece muito dona do próprio nariz, sabendo aproveitar tudo aquilo como ninguém.

No primeiro momento em que demonstra tristeza e fala que gostaria de ver o pai, a Fera proporciona a visão, por meio do espelho, e a “libera para ir”,  lembrando que ela já tinha saído antes. E ela vai para ajudar o pai, mas claramente relutante em ir.

Mais a frente, ao chegar na vila e descobrir toda a confusão com o pai, Gaston, os planos malígnos do asilo, e ao informar a vila sobre a Fera, na tentativa de salvar o pai, e de ambos sofrerem a prisão, fala para Gaston “o monstro é você, não ele”, deixando claro como se sentia em relação à Fera (e ao Gaston).

Outra coisa que em chamou atenção ao rever o filme é que ela não sabe do feitiço, não sabe que a Fera se transformaria, nem que aqueles objetos eram pessoas. Demonstrando que seus sentimentos por todos aqueles no castelo eram genuínos.

Em geral não estou aqui pra defender a Bela e a Fera enquanto filme, embora ache que mereça, mas sim pra defender a personagem da Bela. Que é uma mulher essencialmente curiosa, que busca conhecimento, que busca o mundo e que não se rende para ninguém. Quando é para se afastar do pai pelo que considera necessário, ela tem a coragem de fazer, para conhecer, para entender. A Bela se posiciona contra os avanços bem abusivos do Gaston, contra a injustiça à Fera, contra a própria Fera. Nos primeiros momentos, no primeiro dia se recusa a jantar com a Fera e diz isso em alto e bom som. A Bela não abaixa a cabeça. E por isso acho que é diminuí-la considerar que ela foi vítima da Síndrome de Estocolmo, da sedução por relação abusiva da Fera e ficou por isso. Essa não é a Bela que eu conheço.

A Bela que eu conheço é forte, corajosa e muito curiosa! Ama o desconhecido e vê as coisas pelas suas atitudes. Responde, é teimosa, faz o que quer, quando quer, não tem medo das consequências nem das represálias. A Bela é livre! E rever a animação me devolveu a confiança no meu gosto, desde os 7 anos. Na minha visão de uma mulher independente, sonhadora e curiosa. E tenho certeza que ninguém faria melhor jus a essa personagem que a Emma Watson.

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 1991)

(Little Town song, The Beauty and the Beast – 2017)

Pequenas caminhadas

Um dos principais motivos para viver em La Seu D’Urgell, pergunta que nos é colocada com frequência tanto aqui quanto do pessoal no Brasil, foi uma junção de preços (custo de vida) com o cenário! Estamos aqui para caminhar! Andar muito! E apesar da neve, do frio, do mês auge do inverno, fizemos um número considerável de caminhadas, essas que vocês tanto acompanham aqui pelo blog. Mas algumas semanas chove mais do que outras, o clima fecha, também temos nossos compromissos na cidade, junto à internet, e nem sempre é possível fazer uma caminhada longa. Mas não é por isso que deixamos de andar. Damos nossas voltinhas pela cidade mesmo. Os parques da cidade são muito gostosos. E há também um sem número de caminhadas menores, até os povoados próximos, de 30 minutos, 1h, ou até 2h. Às vezes apertamos uma dessas depois da aula de catalão, ou entre uma chuva e outra, um horário de almoço, etc.

La Seu conta com dois parques muito gostoso, o Valira, que é junto ao rio Valira, mais natural, com uma vista muito bonita. Às vezes vamos lá, embora seja do outro lado da cidade e por isso uns longos 8 minutos de caminhada lenta, saindo de casa. De lá, outro dia, subimos pra Castell Ciutat, e de la andamos sem parar, passando por Montferrer, vendo muitas casas grandes e pequenas, brincando com cachorros e gatos pelas frestas das cercas e portões. Descobrimos uma autêntica torre medieval convertida em pequenos apartamentos, todos para alugar, com uma vista esplêndida do vale. Procuramos uma ponte para cruzar o rio, e não encontrando, andamos entre pequenas chácaras, com muita lama e gelo no nosso caminho. Fizemos amizade com mais cachorros, alguns cavalos, e uma porca, que vivia junto de duas cadelas de guarda e possivelmente se considerava uma delas.

O outro é o Parc Olímpic del Segre, junto ao rio Segre. Ambos margeiam a cidade. O Segre segue paralelo à cidade, mas parte de seu curso foi ligeiramente desviado, formando o parque olímpico de remo, em diversas modalidades, construído para as Olimpíadas de Barcelona. A parte de remo fica aqui em La Seu, e a medalista em remo de 2016 Rio é espanhola, mora e treina aqui. O parque conta com uma infraestrutura para remo, raias de treino e áreas com corredeiras artificiais para rafting. Além disso têm uma academia, centro de treinamento, uma área aberta com parque infantil, alguns bancos, arena de cimento para assistir e é uma parte significativa da representação da cidade. Aqui o Papai Noel não tem vez, quem traz os presentes de Natal na Espanha são os Reis Magos, em janeiro. A Cavalgada dos Reis magos é esperada com ansiedade, e nas cidades grandes, como Madri e Barcelona é um evento muito importante. Em La Seu substituíram a cavalgada pelos botes de rafting. Foi um evento único assistir os 3 reis descendo nos botes, cada qual a sua maneira, entre alegre, desesperado, atrasado, com direito a um show pirotécnico no final, seguido de uma parada pela cidade onde doces eram distribuídos para as crianças. Eu tenho aproveitado muito esse lado lúdico, idílico, da cidadezinha de interior, cheia de festivais feitos à moda antiga, com papel machê, purpurina e participação das crianças e escolas locais. Para os fãs de Gilmore Girls, é meu momento Stars Hollow!

De dentro do parque do Segre sai uma via, que segue em parte calçada, mas logo vira uma trilha de terra, com alguma brita esparsa, que segue margeando o rio até Alas, um povoado bem próximo, 4km. Muitos moradores aproveitam para caminhar, correr ou passear com cachorros nessa trilha. É plana e bem próxima ao rio, mas a paisagem é bonita, especialmente com a Serra de Cadi ao fundo, imponente! Essa é uma das caminhadas que repetimos mais vezes quando o tempo está curto.

Logo atrás do Segre, seguindo pela região mais rural, com pequenas fazendas leiteiras e algumas chácaras com hortas, entre La Seu e Alas, há uma igrejinha simples e bonita, bem no alto de um dos morros menores. Num domingo de chuva escapulimos até lá, quando o tempo abriu um pouquinho. Nos perdemos na lama, encontramos cavalos, muitas vaquinhas e alguns cachorros. Entramos e saímos de propriedades, nem sempre onde deveríamos estar, mas sempre com o intuito de chegar a trilha. Enfim chegamos e subimos até a Igreja. Os arredores mostram sinais de que não são poucos os que sobem ali. Alguns dizeres revolucionários nas paredes, alguns nomes, casais e corações, alguns vestígios. Mas dentro da Ermida de Sant Antoni del Tossal, que estava trancada, dava para ver que estava tudo arrumado e bem conservado.

Num outro domingo atravessamos a estrada (por uma das passarelas, não me canso desses caprichos) e subimos à esmo o morro que dá acesso a Calbinyá, outro povoado minúsculo bem próximo, e encontramos uma pista de pouso de aeromodelismo. Algumas construções meio abandonadas, e uma parte reformada, que parece guardar os equipamentos de manutenção da pista. Voltamos pela estrada e encontramos mais cachorros e lama.

E assim vão passando os dias chuvosos. Quando tivermos mais dias de sol, mais tempo, e mais planejamento, o André volta a contar na sexta de viagens dele um pouco das nossas trilhas mais significativas.

Nessa quarta tínhamos a intenção de subir o Coll Midós de novo (post mais antigo aqui em viagens) e dormir no refugí de lá, acampados, com inverno e tudo. Mas saímos bem mais tarde do que o recomendado, e fomos surpreendidos por muita, muita, muita neve, apesar do sol. Fazia neve e sol ao mesmo tempo (casamento espanhol – finalmente entendi o ditado), a neve chegava na altura do quadril em alguns pontos, tornando a subida quase impossível, e o vento era aterrador. Em alguns momentos o vento quase me derrubou! Aí o bom senso falou mais alto e voltamos pra cidade. As intempéries foram tantas que não consegui tirar nem meia foto! :/

Mas o plano de acampar na neve ainda está de pé. Só precisamos planejar melhor! Aí a gente dá os detalhes!

Valira:

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Segre:

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Églesia de Sant Vicenç de Montferrer, rellotge de sol (inscripció): Sine Sole Solus Sole Salus

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Ermida de Sant Antoni del Tossal:

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SP by JuReMa – Parques e Espaços Urbanos

Ainda na vibe de dicas de SP, vou entrar no meu segundo tópico preferido depois de comida, os parques. Nos quase dois anos que passei em São Paulo, moramos no centro, próximo ao metrô e eu realmente acho que a melhor forma de se locomover na cidade é usando o transporte público. O transito de Sampa é tão famoso que dispensa apresentação e explicações, e para uma brasiliense o transporte público da cidade é um sonho, embora saiba que dada às proporções da cidade ainda deixa a desejar. É possível chegar em muitos parques usando apenas o transporte público e em alguns casos um trecho a pé, mas em outros fica mais difícil. Caso tenha tempo livre, vá mesmo assim de transporte público. Em alguns casos eu ia a pé, mesmo com distâncias mais longas, pois já aproveitava a caminhada até o parque como parte do passeio e do exercício do dia. Fica o aviso de que São Paulo não é pedestre-friendly, ou seja, esteja preparado para ter seu caminho nas calçadas barrado por carros entrando e saindo de garagens, ou só estacionados em locais que deveriam ser de pedestres, além de locais com calçadas ruins ou inexistentes. Ainda assim, eu sempre gostei de andar, então preferia ir a pé sempre que possível.

Estando no centro, entre os que mais costumava ir a pé está o Buenos Aires, também chamado de praça Buenos Aires, em Higienópolis,  Av. Angélica, s/n – Higienópolis, São Paulo – SP, 01228-000, Brasil. Esse era o mais perto de casa. É um parque pequeno, e para os corredores não é dos melhores, a trilha é muito curta, e com subida, mas pode ser uma boa opção pela localização. Em São Paulo a boa localização é a mais perto de onde você está. O Buenos Aires é muito frequentado por bebês com babás, alguns caçadores de pokemon, no auge da febre, e alguns moradores e trabalhadores da região, que se sentam em bancos pra curtir um solzinho de fim de tarde. Há também uma área só para cães. 

Também a pé e a pouca distância estava o Trianon, Rua Peixoto Gomide, 949 – Cerqueira César, São Paulo – SP, 01310-100, Brasil. Localizado na Paulista, o Trianon é maior do que parece, e mais friendly para corredores e caminhantes, embora seja muito fechado e sombreado. O excesso de árvores faz dele um oásis na Paulista, e em dias de semana, em horário de almoço é possível ver muitas pessoas com roupas de trabalho almoçando, comida de rua ou marmitas, ali. No fim de semana lota, e com a Paulista aberta aos domingos, aumenta ainda mais o fluxo de pessoas, sejam os esportistas, as famílias, ou os que só buscam um pouco de verde na selva de concreto. Outra vantagem, além da localização, do metrô tão ao lado que tem até estação com o nome, é o MASP em frente. Para quem quer turistar já é um dois em um! Recomendo também descer até a Lillóri, já mencionada no post anterior, a padaria que contempla todas as restrições alimentares e que fica uma boa andada seguindo do Trianon na direção Jardins.

Ainda próximo ao centro, o Parque Água Branca, é uma boa opção, especialmente pela feira de orgânicos, Francisco Matarazzo, 455 – Água Branca, São Paulo – SP, 01156-000, Brasil. O parque tem um parquinho grande, área e equipamento para exercícios, e um clima gostoso, embora bem urbano. Também costuma ficar muito cheio nos fins de semana, mas é um bom passeio, e é fácil chegar de transporte público.

Afastando um pouco do centro, indo pra zona sul, temos o maior e mais famoso parque urbano de São Paulo, o Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral – Vila Mariana, São Paulo – SP, 04002-010, Brasil. É relativamente fácil chegar de transporte público, ônibus, embora você saia em uma das grandes avenidas que circundam o parque e tenha que andar até lá dentro. O Ibira é grande e possui outras atrações lá, como a Bienal, Museu de Arte Moderna, Oca, entre outros. É possível alugar uma bicicleta para passeio, mas se for no fim de semana se prepare para 2h de fila. O parque é amplo, mas a quantidade de gente faz com que a visita seja mais agradável durante a semana, embora no fim de semana existam outras atrações, como diversas aulas gratuitas, de inúmeras atividades físicas e outras modalidades, shows e outras atrações culturais. Há também a feira de orgânicos do Ibira. Apesar de ter estacionamento, não recomendo ir de carro, pois a chance de não encontrar vagas é grande. Algumas vezes fiz o trecho a pé, do centro até lá, e confesso que gosto da caminhada. A ida é tranquila porque é descida, a volta subida, às vezes fazia de ônibus.

O meu preferido é longe, lá onde a cidade acaba, e ir de transporte público significa dedicar um dia à ele, é o Hortoflorestal, R. do Horto, 931 – Horto Florestal, São Paulo – SP, 02377-000, Brasil. Já no pé da Cantareira, o Horto é bem amplo, e mesmo em fins de semana não dá o ar superlotado dos de mais fácil acesso. É também por onde passa a linha do Trópico de Capricórnio, o que pode ser uma atração a parte, especialmente para sua amiga capricorniana que vai querer uma foto lá! Além do lago, existe área para piqueniques, quadras esportivas, e áreas mais amplas. É comum ver muitas famílias, crianças, mais até do que os esportistas. O caminho até la de transporte público envolve metrô até Santana, ônibus até a Rua do Horto e uma caminhadinha até o parque propriamente dito. Ir de carro é furada, pois estacionar perto é quase impossível e a rua de acesso fica completamente engarrafada no fim de semana.

Coladinho no Horto, subindo a mesma rua começa o Parque Nacional da Cantareira, que já é área de preservação, é enorme e incluiu toda uma outra gama de passeios não urbanos. Mas ali na Rua do Horto está o acesso para o Núcleo da Pedra Grande, R. do Horto, 1799 – Horto Florestal, São Paulo – SP, 02377-000, Brasil, que é um passeio mais urbano e pode (e deve) ser feito no mesmo dia do Horto. Esse tem uma taxa de entrada pois é parque nacional de preservação. Quando fui a última vez estava R$9,00 por pessoa. Entrando no parque existem várias trilhas possíveis, ainda nesse Núcleo, e algumas que levam por dentro do parque até outro núcleos, como o Núcleo engordador, mas são trilhas mais longas. Algumas podem ser feitas de bicicleta. A da Pedra Grande é a principal desse núcleo, não é demorada, e embora a subida seja inclinada, a trilha é asfaltada e não é difícil. Chegando lá em cima você é brindado com uma vista incrível da cidade toda. É possível pegar água em algumas bicas e torneiras e na parte baixa do parque há espaço para piquenique. Mas lembre-se que esse é um parque nacional, e são válidas as regras para áreas de preservação. Se você for animado para uma boa caminhada, saia de casa cedinho, vá direto até a Pedra Grande, aproveite a vista quando ainda não tem muita competição para a foto lá em cima, curta a cidade. Volte até o Horto e faça seu piquenique lá. Aproveite o segundo parque e volte no fim do dia! É um ótimo passeio, e pode ser feito com crianças! Caso seja mais aventureiro, vá cedo, e planeje uma das trilhas mais longas e mais naturais do Parque da Cantareira. Sempre se planeje para sair do parque de preservação até às 17h, pois após esse horário o parque fecha.

O Parque da Juventude é dos mais fáceis de ir de transporte público, pois o metrô para na porta, R. Manuel dos Santos Neto, 23 – Santana, São Paulo – SP, 02032-010, Brasil. Esse parque é gostoso, mas também impactante pela sua história, pois ali era o Carandiru. Para quem não conhece a história do famoso presídio, sugiro ler o livro Estação Carandiru, do Dr. Dráuzio Varella, que faz uma narrativa incrível dos anos que trabalhou lá. Há também o filme. A cidade cresceu, abraçou a área antigamente afastada e, eventualmente, o presídio foi demolido. Ainda é possível ver um trecho da muralha e uma parte dos pavilhões. Em 2015 cheguei a visitar a muralha, mas em 2016 ela estava fechada para visitação, podendo ser vista apenas. Há hoje uma biblioteca, um centro de ensino técnico, e uma vasta área aberta. Além da muita grama disponível, há área para cães, uma parte próxima das edificações tomada pelos skatistas, e quadras poliesportivas mais distantes.

O Parque da Independência é também um passeio histórico, pois lá estão as margens do Ipiranga, que foi canalizado, mas deixaram um pedacinho aberto no parque para vermos o “corguinho” da independência, Av. Nazareth, S/N – Ipiranga, São Paulo – SP, Brasil. Infelizmente o Museu da Independência está fechado há anos, mas vou tratar dos museus em outro post da série. É possível ver o prédio do museu por fora, e seus jardins, que são muito bonitos. O parque também conta com gramados e não é tão cheio nos fins de semana, apesar de não ser afastado. Para os mais animados é possível aproveitar as escadas para atividade física.

Existem vários outros parques em São Paulo, como o Villa-Lobos, Aclimação, Burle Marx, Parque do Carmo, mais afastado, mas onde acontece a famosa festa das cerejeiras (cheia, mas vale a pena conhecer), entre diversos outros. Minha dica é sempre levar água e comida estilo piquenique, pois nem todos possuem infra estrutura, e São Paulo tem tanto prédio, trânsito, poluição, gente se esbarrando na rua, que quando vou para parques quero sossego, então nada melhor que um piquenique, para ver o verde e desestressar!

Além dos parques, existem alguns outros passeio em áreas urbanas que valem a pena! A Praça Roosevelt, nicho dos skatistas, com os bares e teatros à noite, é um passeio indispensável. A Estação Luz, e os jardins da Pinacoteca, a Paulista aberta aos domingos (pros brasilienses acostumados com o Eixão é um balsamo de casa), o Minhocão (elevado), que também fecha no fim de semana e é ótimo para pedalar, a Praça da República, com as feirinhas, todos os imigrantes e a confluência de culturas. O Largo do Arouche, com as flores de dia e as baladas e barzinhos à noite. O Largo do Paissandu, com a Galeria do Rock, e os melhores mates com açaí e salgados veganos.

As opções são muitas e escrevendo de longe fico com saudades. Algumas coisas são importantes ressaltar, São Paulo é uma cidade imensa. Leve sempre em consideração o tempo de deslocamento e de trânsito. Se prepare para chuva, frio, calor, tudo junto e misturado. Tenha galochas, roupas leves e blusa de frio, além da água e comida. Não ostente, guarde o celular bem no fundo da mochila e fique atento. Já presenciei assaltos, tanto em lugares ermos quanto badalados. No Centro sempre redobre a atenção, bem como na Paulista. Redobre a atenção tanto para sua segurança, como para se maravilhar com os mil sotaques, mil Brasis, os estrangeiros, migrantes, refugiados, misto de culturas, cores e sabores. Sabe aquela história de que o bom de uma megalópole como São Paulo e poder pedir comida tailandesa na tele-entrega às 4 da manhã? Isso ninguém faz, o bom mesmo é poder ver todas as tribos e todas as cores. É se entregar ao desconhecido e presenciar todos os diferentes grupos que abundam pela cidade. É ter olhos e ouvidos atentos para se esbaldar com a variedade de desconhecidos. Essa foi a São Paulo que eu conheci, e espero que continue assim, ou até mais diversa!

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Parque Nacional da Cantareira – Núcleo da Pedra Grande

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Hortoflorestal

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Parque da Independência

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Ibirapuera

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Ibirapuera

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Parque do Carmo

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Paulista Aberta

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