Canarinha

[*Texto antigo, de 2014, estava em “rascunhos”, postado pela primeira vez hoje, 10/02/2016]

A menina levantou o copo. Quatro se chocaram: um brinde. Algumas cervejas, alguns drinques. Ela viu aquelas faces que a olhavam e sorriam, e sentiu seu próprio sorriso, levantando as maçãs do rosto, fechando os olhos apertados. Quando ia imaginar que em uma segunda-feira qualquer estaria ali, brindando com aquelas pessoas? Quando imaginou dividir uma cerveja com aquelas meninas? Nunca! Um toddynho, talvez!

Piscou, e se viu, diante de seu próprio espelho. Sim, naquele momento a menina era Alice, e estava em plena travessia, espelho a dentro. Nada diz mais sobre você do que ver sua própria infância, desenhada, colorida, em filmes, fotos, camisetas de uniformes, trabalhinhos. Já disse que a menina Alice é professora? Pois bem, Alice volta e meia pinta e borda com seus pequenos. Olhou em volta e viu suas pinturas e bordados ali. Não eram seus. E eram tão seus. Foram ensinados a ela, mas tão bem ensinados, que a menina achou que eram seus. E se sentiu no direito de passá-los a frente como ensinamento. Como se fossem seus para doar. E não são seus? Não foi para isso que lhe foram dados, cada um daqueles presentes.

Pássaros amarelos. Tantos. Tão pequenos. Gordinhos, amarelinhos, de asas curtas e boné azul. Pássaros poderosos. Pequenos canários, que uma vez que lhes ensinem a voar, alçam voo e vão longe. A menina alongou suas asas. Suas recém adquiridas asas. E riu. Riu aquela risada da alma. Se achava tão original com suas asas musicais. Passou a adolescência sonhando com o voo, com o desejo de criar asas. Desesperadamente tentando ser boa e correta e melhor, cada vez melhor, para que um dia alçasse voo. Tola! Para que aquele esforço descomunal em direção aos céus disputados e poluídos do tão falado sucesso?

A menina já era passarinha. Ela se achava uma passarinha nova. Que nada. Bastou Alice se reconhecer naquele espelho. E lá estava ela, em cada um daqueles rechonchudos seres amarelinhos. Como tentar ser uma nova passarinha, se há muito ela já era canarinha?

Borboletas e o Tempo

A menina era Alice nessa noite. Tinha sido levada mais uma vez por Absolem para uma terra de elefantes velhos, e seus cemitérios. E aqueles grandes notáveis a tinham feito pensar muito. Pensar sobre a vida, sobre as marcas do tempo, sobre as imperfeições do mundo. Mas hoje a menina não estava conseguindo se concentrar nos diários que as viagens com Absolem requeriam. A menina, apesar de muito Alice nessa noite, era também Jurema. Jurema estava cada dia menos dissociável das demais meninas, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e tantas outras.

A menina estava em outra toca. Havia a toca de Absolem, mas havia outras, em outras paragens, e a menina, Alice que era, vivia se perdendo naqueles túneis fantásticos da vida surreal que vivia, tão real. Sua mente divagava sobre uma queda não muito distante. Naquela outra noite Alice havia caído num túnel sonoro e acordado num belo jardim. Riu da coincidência e lembrando-se que, sendo Alice, era muito curioso e conveniente acordar num belo jardim, mesmo que daquela vez não fosse Absolem que a tivesse transportado.

Esse jardim era belo, simples. Um pequeno lago na parte baixa. Num primeiro olhar parecia ser um lugar com poucos detalhes. Minimalista até, embora enorme. Aos poucos, conforme a luz do sol ia aquecendo seu corpo, despertando suas pernas, acordando sua mente, a menina Alice começou a achar os tesouros daquele jardim. Primeiro foram as corujas, duas pequenas amigas arregaladas e pintadinhas, que a olhavam da grama, vigiando seus próprios buracos. Mais tarde a menina foi sendo guiada, e descobriu as galinhas e galos, e perus. Descobriu os coelhos, de várias cores. As laranjas no pé. A lama, a grama e o sol.

E sua mente foi ainda para outro momento. Outro dia, outro sol. Num momento ainda mais surreal, embora o surrealismo estivesse competindo duramente com a realidade na sua vida de Alice. Entre telhados surreais de fato, conversando sobre o mundo, a menina lhe disse “Sabe, o problema é que tenho medo de borboletas!”, ao que ele lhe olhou chocado, como costumava acontecer e disse “Como? Elabore, por favor!”. Elaborar? Bom, isso era um pouco menos usual que o choque. A menina pensou muito, as palavras lhe escapavam, momentos de pouco domínio sobre essas danadinhas que lhe enganavam, torcendo a língua antes de lhe escaparem por entre os dentes. No papel, elas ficam presas, eternas nessa transferência entre mundos. Na boca, elas se perdem no ar, e voam longe. Mais perigosas do que borboletas.

“Tenho medo de borboletas. Simples assim. Sei que não é racional. Simplesmente fico aterrorizada na presença de borboletas. Admito que são muito bonitas, e delicadas. Mas prefiro que fiquem lá, longe de mim.” E ele lhe respondeu: “Mas borboletas não apresentam perigo nenhum! Não vão te machucar, não vão te fazer nenhum mal. Porque isso?”. A menina respirou fundo. Era tão difícil explicar. “Não é um medo normal. Como algumas pessoas tem medo de feras. Eu enfrento o que for. Bestas feras, monstros mitológicos, ratos e baratas, cobras e onças. Mas borboletas não!”. Ele tentava entender. Não era uma insistência baseada na irritação. Parecia querer que a menina pensasse mais sobre aquilo. “Entendo ter medo de leões, ou tubarões. Tenho pânico de tubarões. Mas de borboletas”. “Acho que é isso.”, Ela respondeu. “Não é medo. É pânico. Irracional. São aqueles bichinhos nojentos. Às vezes até fascinantes, pelas cores. Mas perigosos, venenosos. Queimam, machucam. São pequenos e fascinantes, mas fazem mal. E vivem para comer, até que se transformam. Criam asas, e saem por ai, se espalhando.”

A menina já estava arrepiada. Ele lhe olhava como se visse algo curioso. Continuou: “Mas é isso, se transformam. Não há nada mais incrível que a transformação. E depois que ela acontece, já não apresentam risco nenhum. Voam por ai, sim. Mas apenas para polinizar. Espalhar cor, alegria, vida, boa sorte. Nada mais. Não há o que temer.” A menina pensava. Ele tinha razão, é claro. Mas como explicar o pânico? O pânico é irracional. Não há explicação. Só a paralisação do medo. A inutilidade. A inação. A falta. O vazio.

A menina Alice estava no jardim. Observava a grama, a lama e o sol. Ele lhe disse: “Olha! Uma borboleta!”, e olhou sua reação. A menina já havia visto a borboleta de esguelha. Seu olhar captado pelo leve movimento. As vibrações daquelas pequenas e levíssimas asas. Ficou imóvel. Ele prosseguiu: “Parece ser uma daquelas borboletas curiosíssimas, que tem um número na asa. É o número 8, não?”, o tom era entusiasmado, mas ela sentia a leve tensão no ar. E, apesar de imóvel, continuava olhando a borboleta. Era muito pequena, muito mesmo. Não havia qualquer razão para teme-la. Mas, de novo, não era uma questão racional essa.

Ele, com um leve sorriso no rosto, continuou falando: “São raras essas? Não sei. Mas nunca vi uma antes? Você já? É mesmo uma daquelas com o número? Você consegue ver o número? Não dá para ter certeza sem ver, dá?” E o olhar da menina acompanhava o bater daquelas asas. Ela tinha quase certeza de que era a borboleta do número nas asas. Mas de fato, não dava para ter absoluta certeza sem ver.  A borboleta pousou numa folha há cerca de um metro, talvez até menos da menina. Sua respiração era controlada, e os movimentos precisos. Sem tirar os olhos da borboleta, ela ajoelhou.

Ele perguntou de novo: “E aí? Viu o número? É mesmo uma daquelas?” e ela respondeu: “Parece que sim, mas não dá para ver o número daqui. Mesmo de óculos, precisaria chegar mais perto para ter certeza.” Ele riu baixinho: “ Tá com medo?”, e a menina Alice, controlando a ironia, o pânico, que já não sentia na forma de pânico, talvez um leve desconforto, respondeu: “Bom, eu não fugi ainda né! Talvez não consiga chegar tão perto assim agora, mas to aqui, paradinha.”. Ele ajoelhou também e disse: “É um bom começo. E olha só, ela pousou. Talvez assim te dê um tempo para ver melhor. Talvez até para ver de mais perto, e ter certeza se é ou não aquela borboleta rara”, levantou e saiu.

Na noite de hoje, entre elefantes, a menina não se lembrava mais quem tinha voado primeiro, ela ou a borboleta. Mas sabia que não tinha fugido. E talvez, com o tempo, aprendesse a ver as imperfeições, as marcas, os números nas asas, as rugas dos elefantes. Talvez.

Alice no País de Gaudí

A menina acordou. Estava no avião. Seus olhos pesavam depois da noite insone. O cochilo rápido do primeiro voo só serviu para deixa-la ainda mais cansada e confusa. Perdida entre realidades. Em outros dias ela tinha sido a menina do caderninho vermelho, aquele que ganhara logo antes de ganhar também aquela outra viagem. Daquela vez se sentia como uma outra menina de capa vermelha, gorro vermelho, em missão, cumprindo obrigação e à espreita do lobo, mau ou não. Abriu a bolsa e tirou o caderninho. Dessa vez ele não era vermelho, era colorido, multicor. Na frente havia um desenho desconstruído de uma menina loira, uma pena de pássaro azul nos cabelos, um bico amarrado ao rosto. Aquele caderno não era ganhado, mas escolhido pela menina. Aquela viagem não era ganhada, era escolhida pela menina. A primeira vez que Alice vai ao País das Maravilhas é ao acaso, por assim se dizer. Mas depois não. Depois é porque quer. Porque precisa se reencontrar. Enfrentar suas guerras, e ganhar. Dessa vez a menina era Alice por escolha.

A menina sentou no sofá e ajeitou os cabelos molhados sobre o ombro esquerdo. Olhava a TV, era o penúltimo jogo da copa do mundo. Já não se importava com o resultado, não faria diferença alguma aquele placar da partida pelo terceiro lugar. Apesar de uma certa exaltação por parte dos telespectadores mais assíduos, a conversa começou. O que ela pensava? Difícil dizer assim, simplesmente em palavras. Sua mente se dividia em várias dela mesma. Uma queria acompanhar o placar, outra queria fazer amigos, uma terceira lutava contra o sono, e aquela, aquela desconfiada lá do fundo, se percebia Alice no país de Gaudí.

Perdida, maravilhada, desconcertada entre o sonho e a realidade. Que lugar era aquele, onde os próprios prédios da cidade pareciam acompanhar a dissolução de cores e formas de sua mente fértil? Incrível perceber que outros podiam compartilhar daquela loucura lúdica, disforme, surrealista, sutil e florida, de seu eu mais profundo. Se para a menina sempre foi difícil distinguir entre sonho e realidade, nessa cidade isso tornara-se impossível. Só umas duas bolhas na sola do pé, com aquela dor leve e constante, quase imperceptível, para mantê-la com os pés no chão.

Alice havia tomado conta. E ela passava pelas portas minúsculas e era também gigante, sem ao menos precisar comer ou beber nada mágico. Gol. Olhou o placar e percebeu o quão distante dalí estava. Talvez estivesse com Dalí e seus bigodes. Aquele era um pequeno mundo de bigodes, afinal de contas. A conversa continuava. Aos pouquinhos algumas palavras foram trazendo a menina à superfície e deixando Alice e Dalí no fundo de sua mente. Algumas daquelas palavras soavam mais claramente do que outras e ela ia utilizando-as para se recompor.

Saiu e voltou a sala dos bigodes quase sem perceber. A TV desligada, o jogo findo, nada importante. Era esse o jogo de ontem ou o de hoje? A Copa acabou? Parecia que sim. O placar não era importante, e nem mesmo o vencedor. As palavras que ressoavam eram a respeito da comida, da pizza, e de se essa era de queijo ou se tinha presunto. A menina não comia presunto, e, dessa vez, não era a única ali. Os dias se mesclavam, o ontem, o hoje e o amanhã. O real e o irreal. Fantasia, imaginação e realidade. Em parte porque a menina estava vivendo o sonho, em parte porque o sonho era real, e sempre porque ela era também Alice.

Os fogos de artifício eram de hoje ou de ontem? A praia tinha areia fria, mas o ar era quente. A cidade cheirava a férias. Havia uma alegria e uma leveza no ar que manteriam seus lábios com as quinas elevadas pelos próximos dias, assim como tinham feitos nos anteriores. Ela era feliz. Ponto. Era feliz sem precisar de um porquê. O mundo era seu, e ela finalmente reclamava seu pedaço com passos certeiros por rotas incertas. Percorria caminhos conhecidos pela primeira vez e se sentia em casa longe dela. Talvez estivessem certos, e ela fosse nômade e sua casa fosse onde seu coração está. Sempre eles. Sempre sua música. A noite, a praia, os rostos desconhecidos, exalando amizade e receptividade. E em sua mente as conversas, as trilhas, os mapas, os rumos, as possibilidades. Quanto mais longe ela ia, mais queria ir. Perder-se nas maravilhas daquele e de outros países. Como voltar? Não fisicamente, mas mentalmente? Talvez nem Absolem tivesse resposta dessa vez.

Acordou e foi tomar café, de pijama ainda, apesar da coletividade local. Conversaram de novo. Sempre um livro em mãos, como um farol a lhe guiar. Era raro não serem as suas mãos e seus olhos os que se ocupavam dos livros. Era tão raro, que eram os únicos, entre tecnologias e bigodes. Era seu último dia ali. A conversa fluía como nos dias anteriores. Melhor até. Cada vez melhor. Hoje ela iria a praia. Não como à noite. Entraria nas águas mediterrâneas e saborearia mais essa felicidade. Tinha a trilha sonora pronta. Saíra de casa com esse momento ensaiado. Mas a vida é sempre mais surreal do que a ficção. E apesar de saber disso, sempre se surpreendia.

Já trocada foi rumo ao mar. Mas não foi sozinha, como havia antecipado. Tinha companhia. E as ruas pareciam diminutas. Os minutos eternos. O sol ainda não brilhava. Talvez chovesse. Esse pensamento pingava em sua mente como uma torneira mal fechada, mas sem diminuir seu ânimo, apenas como um lembrete constante. Sentou-se na areia. Sentiu o sol. Já estava com calor após a caminhada. A menina olhou o mar, e perguntou-se, mais uma vez, se era verdade. Se ela era de verdade. Talvez fosse apenas um sonho da mente de alguma outra menina, pronta para dissipar-se com um acordar alheio.

O mar não estava frio e era pouco salgado. Era mar e não oceano. Era a primeira vez que ela entrava num mar não-oceânico. Apesar de ser filha do interior e da terra vermelha, a menina era também um pouco peixe, sempre pronta a testar as águas, embora fosse mesmo pássaro. Continuavam conversando. Quem era aquela pessoa? Seria um chapeleiro maluco? Seria O Chapeleiro Maluco? Ou seria o gato, que some deixando apenas a sombra do sorriso iluminado no escuro? Ouviu as gaivotas e lembrou-se que isso não era importante. Apenas que tinha uma companhia para disfrutar.

Sentou-se na areia, e apesar da brisa leve, deixou o sol secar a pele molhada. As gaivotas captavam seu olhar a cada voo, a cada mergulho. E isso não significava que a conversa não estivesse boa, muito pelo contrário, era uma das mais interessantes dos últimos tempos, a menina-pássaro apenas não podia resistir àquele espetáculo gratuito servido como um banquete, combinação perfeita de imagem, som, gosto, temperatura e tato. E lembrou-se então de ouvir a música que era um dos motivos por estar naquelas areias naquele momento.

Dividiu o fone. Era estranho ter companhia. Era reconfortante ter companhia. Era quase como se ela fosse um alien por ter companhia. Era aquilo real? A realidade é definitivamente mais estranha do que a ficção. Mais caminhadas. Era especialmente raro ter companhia para suas andanças. A menina era acostumada às reclamações que iam de indiretas a significativos nãos na cara ou até mesmo a indiferença quando o convite eram suas caminhadas ou pedaladas. Gostava de ir por ai sem hora para voltar e essa visão não é muito popular.

Subir aquele moro não era sacrifício algum, cada passo uma recompensa. A beleza do lugar maravilhava a menina a cada passo, mesmo já tendo estado ali duas vezes. A menina gostava de andar sem rumo porque o caminho é tão importante, ou mais do que o destino. Alice sabe disso. Alice se descobre Alice não quando chega o final do filme, do livro, da batalha. Mas em cada passo, em cada diálogo, em cada minuto de país das maravilhas. E cada pedacinho daquele dia era uma maravilha digna das sete.

O corpo secava e molhava, entre mar, sal, chuveiro, suor, andanças, ladeiras, piscina e sol.  E o protetor solar. Sim, para a menina era sempre muito importante lembrar do protetor solar. Ela só não sabia que em seu dia de Alice no país de Gaudí até o protetor serviria para tornar a realidade mais fantasiosa que a ficção. A menina começava a perceber que talvez e só talvez aquele fosse seu dia de protagonista. Apesar de ser muitas vezes Alice, nunca se considerou protagonista fora do papel. Era protagonista quando era Sofia. Quando se metamorfoseava em palavras. Mas fora das palavras, não era Sofia, não era Alice, era apenas a menina. Muitas vezes sem nome.

Em seu dia de protagonista, a menina Alice, que naquele momento estava longe de ser Sofia, muito mais viva na realidade fantasiosa do que no papel, serviu-se de um banquete e comeu como uma rainha, vermelha ou branca, até hoje não se sabe. E ao voltar a sala dos bigodes saia das folhas de papel como nunca, penetrando a realidade com força. A menina contemplou sua possível imagem, de bico e pena azul na cabeça, e pousou o lápis. Estava no avião e sua cabeça girava. Seria o sono? Esse seguramente a atormentava. Mas o lápis tornava-a Sofia de novo, empurrando-a para o papel. Confundindo novamente realidade e ficção. A aeromoça avisou que em breve serviriam o jantar. Ou seria o almoço? Entre fusos, falta de sono e muita irrealidade, nada mais parecia ter sentido prático.

Da sala dos bigodes a menina saiu em nova caminhada, de novo acompanhada. Mais que mania de companhia era essa agora? Onde estava a eremita? Andarilha solitária? Ao contemplar o papel, uma nova música, uma velha música, sempre com novos sentidos veio-lhe a mente. E de dentro daquele avião, entre lápis, papel, música e memória, a menina reviveu suas últimas vinte e quatro horas. Às vezes tinha certeza de que estava sendo filmada, como no Show de Truman e questionava com mais veemência a realidade e a fantasia. Talvez por ter a imaginação muito fértil, talvez por ser muito Alice ou muito Sofia, em seu mundo particular, em seu país de maravilhas, a menina tinha muita dificuldade em acreditar na realidade. Era mais fácil acreditar na fantasia.

Como convencer aquela menina, aquela Alice, aquela Sofia, aquela Clarice, aquela Adriana, que castelos e luas cheias, gaivotas e mar, fontes mágicas, prédios tortos e música sincronizada são reais? Impossível! E assim, apesar da pele ardida de sol, dos gostos ainda na boca, dos ouvidos ainda cheios de música, e com os lábios murmurando aquela música, a menina dormiu. Por horas e horas ela dormiu, até regressar a sua casa, a sua realidade. Para sempre perguntando-se se a realidade foi ficção, ou se a ficção pode ser real.

Lembrando-se da sala dos bigodes, a menina se perguntava se foi ela que entrou ali primeiro, sem sequer pedir a menor licença? Ali era todo aquele lugar e lugar nenhum. Ali, era apenas ali, ou era o mundo todo? Ali era a sala dos bigodes ou aquela cidade fantasiosa? Não se sabe, mas nos sonhos da menina naquele avião, permearam tardes há muito sonhadas. E a andarilha solitária lembrou de muitos e muitos anos trás, quando andando sozinha, entre a casa da sua avó e a da sua prima, cantarolava aquela música, na época recém lançada. Na época sem sentido, e se perguntando se algum dia cantaria algumas daquelas palavras por si. Menina Alice perdeu-se e reencontrou-se no País de Gaudí.

O Dia do Amor

A menina colocou a mão dentro da bolsa enquanto dirigia. Olhos na pista, uma mão no volante e a outra remexendo os bolsos internos. O ar de sua cidade já começava a ressecar e os lábios da menina pediam arrego, pediam umidade, pediam silêncio e sossego. Naquele breve momento de trânsito entre sua casa e o trabalho, numa manhã qualquer, isso significa achar o hidratante labial. Aquele pequeno objeto com formato de batom, um pequeno cilindro de plástico branco com a tampa levemente abaulada, como o topo da cabeça de um elefante asiático.

Porque a comparação com o elefante? Algo tão pequeno como aquele batom, e a menina pensando em elefantes. Em sua mente veio a imagem perfeita. O livro pequeno, quadrado, capa grossa em papel brilhante branco. Lateral de espiral, como um caderno, recoberta pela grossa capa branca. Dentro a maravilha das maravilhas, algumas páginas era transparências com desenhos pintados, que quando viradas revelavam mistérios incríveis. Era pequeno, mas um dos livros mais divertidos que a menina teve na infância. Não era um livro de estórias. Continha fatos científicos, curiosidades sobre a vida natural. Seu título? Elefantes! Não eram sequer os animais preferidos da menina. Mas aquelas páginas transparentes, que contavam, escondiam e revelavam, para sempre conquistaram a menina.

Enquanto esses pensamentos iam e vinham de sua mente a mão continuava a circular dentro da bolsa, procurando o fatídico protetor labial. Um ato tão comum, tão feminino, parte de seu cotidiano, a eterna procura das mulheres por itens sumidos no infinito do fundo de suas bolsas. Toda mulher é Mary Poppins quando se trata de achar coisas em suas bolsas. Um carro freou em sua frente. Seus olhos se focaram no presente enquanto os pés rapidamente mudavam de pedais e a mão sobressalente saía rapidamente da bolsa para a marcha, numa troca rápida de papéis entre Poppins e piloto.

Nada acontecera. Parara o carro com distancia suficiente do próximo. Mas parar naquela via? Uma via expressa? Não fazia sentido! Aproveitando o momento ilógico, a menina, já com o carro parado no engarrafamento esdrúxulo da via expressa, olha para dentro da bolsa e vê logo em sua cara o tal protetor labial. Mas que loucura é essa que quando não consegue olhar não acha logo, e quando já não precisa mais de malabarismos, lá está?! Enfim, ela pega o batom, aproveita a inércia, baixa a pala de sol, abre o espelho, passa o protetor e os lábios muito lhe agradecem. Parece até que bebeu água. Hum, água. Numa velocidade que não ultrapassa os dez por hora ela aproveita e bebe água, ajeita o cabelo, limpa os óculos. Guarda tudo na bolsa novamente.

O transito volta a andar antes que a menina conseguisse devolver todos os itens para a bolsa. Justamente o protetor labial ficou em seu colo. Com uma mão no volante, a outra volta para a bolsa, com o batom na mão, tentando encaixa-lo no bolso interno. E nesse momento seus dedos esbarram num pequeno coração. O batom fica no bolsinho, a mão não volta vazia. Volta com um pequeno pedaço de papel de caderno entre os dedos. Ela sorri. Tinha se esquecido completamente daquele bilhete. Sua mente fez contas velozes. Deveria estar ali há exatamente um ano. Nossa, que horror! Não esvaziara aquela bolsa de dia a dia em todo esse tempo? Fez uma nota mental para trocar de bolsa assim que entrasse de férias, uma semana depois, e lavar aquela urgentemente.

O transito andava e o pequeno bilhete continuava em seus dedos. Assim que estacionou, guardou-o sem aquela brincadeira ligeiramente perigosa de caçar dentro de sua bolsa com uma mão só.

Antes disso, entretanto, sua mente divagou. Não precisava abrir o bilhete para saber seu conteúdo. Um papel de caderno, letras batidas pelo ferro da máquina de escrever em fita, um pequeno coração cor de rosa, ligeiramente alongado, fechando. Dentro um poema de internet, adicionado de seu primeiro e quase desconhecido apelido, dado por uma antiga amiga de sua mãe. Não, aquele não era um bilhete de amor. Não havia nenhum relacionamento entre aquele que o entregou e a menina. Na verdade aquele bilhete possuía outras duas cópias. O mesmo papel de caderno cortado em tamanho pequeno, a mesma letra batida à máquina, o mesmo coração alongado no fecho. Os poemas variavam de acordo com a garota que o recebeu.

Foram todos escritos a quatro mãos. De um garoto e sua irmã. Entre aquelas três amigas que incluíam a menina, o amigo e a irmã, nada de amor. Uma brincadeira. Um dia dos namorados passado entre solteiros, um mimo entre amigos. Uma gentileza. Sim, gentileza gera gentileza. Pequenos gestos. Gestos de amizade. Gestos de amor? Sim. Aquele não era o único. A vida da menina estava polvilhada de muito amor. Muitos amigos queridos. Muitos familiares amados. Entre homens e mulheres, de todas as idades, com diferentes tipos de relação, em diferentes ambientes, havia entre todos, muito amor. Havia muito amor da vida da menina. Como dizer que não havia amor ali. Sim, havia muito amor.

A menina sempre foi muito cética em relação ao amor. Esse amor, tradicionalmente chamado de amor homem-mulher. Como chamar esse amor hoje em dia? Como explicar os diferentes tipos de amor? Explicar para quê? A menina viveu um relacionamento bonito, e que lhe ensinou muito. E que acabou. E o tempo passou. E nesse período em que a menina é solteira, ela amou muito, e tem sido mais amada ainda. Como lidar com esse sentimento? Amor sempre foi algo inusitado para a menina.

Bilhete na bolsa, ela tranca o carro, guarda a chave, e vai em direção às escadas da escola. Anda pelos corredores, em direção a sua sala. No caminho uma fila de crianças de cerca de quatro ou cinco anos. Estão saindo de outras atividades, balé, judô. Alguns na fila são seus alunos. Mas a aula com a menina é no outro dia. Ainda assim, uma menininha de tchutchu rosa sai da fila, corre a abraça as pernas da menina, local que alcança, enquanto fala “Oi, teacher”! A pequena criatura rosa ganha da menina um beijo nos cabelos. E enquanto ela equilibra seus livros, materiais, bolsa, chave do carro, garrafa de água, para que tudo não despenque, eis que recebe outro aperto na região da barriga dessa vez, alguns passos à frente no corredor. A mudança de altura do abraço indica a variação de idade da criança em questão. Dessa vez é uma que terá aula naquele dia. Veio correndo, ajuda a menina, nesse momento professora, a abrir a porta da sala. Está animada e com um sorriso nos lábios. Puxa um papel meio amassado de dentro do quimono suado e entrega à menina com entusiasmo, “fiz esse desenho pra você, teacher”!

A menina recolhe o papel com mais um beijo entre cabelos suados, e põe todo seu material sobre a mesa. Só então desamassa o papel, e se depara com um sonoro “I love you”, com direito a coração no lugar do love, seguido de um ticher, com erro de grafia. Um sorriso de canto de boca, daqueles ligeiramente tortos brota no rosto da menina. Emoção pelo carinho gratuito, graça no erro cometido, e acima de tudo amor. O papel volta ao seu amassado já cativo, e a menina o coloca na bolsa. E segue com sua vida. Seu dia de trabalho. Agora, polvilhado de mais amor. Amor amigo, amor infantil, amor que nem sempre é amor. Gentileza.

A menina não gosta de dirigir no lusco-fusco do anoitecer. Mas aguarda pacientemente na porta da escola. Já são seis, logo eles estarão no carro. Ouve uma música para aquietar a mente. Abre os olhos com uma leve batida na janela. Destranca o carro por dentro e entram aqueles dois seres humanos tão seus. O menino mal se acomodou no banco, e a menina já está ganhando um beijo na bochecha daquela outra menina linda, de cabelos negros e olhos de ressaca, olhos de Capitu. Ao se desvencilhar do beijo a menina anuncia “vamos fazer um yakissoba de jantar”?! É uma pergunta e uma afirmação. Seu sobrinho abre um sorriso genuíno, “Vamos”!

A menina sai do banho, coloca o pijama. Olha pela janela. Não está em casa. Está na casa de sua cunhada, sua irmã. Está cuidando dos sobrinhos aqueles dias. Os pais viajaram em diferentes errandas. Ela olha as luzes da quadra e posiciona o travesseiro de forma que durma melhor. Ainda não deitou. Está se ambientando num quarto que não é seu. Ouve uma leve batida na porta seguida de um “tia…”. E encara aqueles olhos de Capitu, que seguram uma escova de cabelo entre as mãos. De pijama e cabelos molhados a menina senta de costas para a menina. Sem palavras. Só gestos e carinho, e ela desembaraça os cabelos negros, grossos e lindos daquela pequena. Depois leva-a até sua cama e com beijo na testa diz “Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama”! Ganha um sorriso de volta, e no escuro, enquanto espera o sono vir, a menina recebe as lágrimas nos olhos. Aquelas foram as palavras que ouviu todos os dias por vinte e cinco anos antes de dormir, vindas na voz de mel de sua mãe. Não às ouvia a pouco mais de dois anos. O futuro daquelas palavras reencontrava existência agora. Seriam repetidas pela menina para outras pequenas meninas. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Mais amor, por favor.

Outro dia de trabalho. A menina abre o armário, para colocar sua bolsa e pegar as provas que aplicará naquela tarde. Um chocolate a olha de volta. Pela marca e alto teor de cacau a menina já sabe quem o depositou ali. Uma amiga de trabalho. Gentileza gera gentileza. Amor. Saboreou o doce daquele amor de cacau, assim como sentiu o amor em cada fio de cabelo negro e no beijo de boa noite. O amor tinha gosto de shoyo naquele sorriso de seu jovem cozinheiro. O amor era brega e sutil naquele adesivo de coração alongado no papel de caderno. O amor era inocente e gratuito naqueles abraços nas pernas e barriga pelos corredores da escola. O amor era perfeito nos erros de grafia. O amor polvilhava a vida da menina. Todos os dias, em todas as coisas. O amor é tão mais do que se canta em verso e prosa.

Agora e menina sabia, que aqueles anos órfã, aqueles anos solteira, aqueles anos sozinha de várias formas, eram, dia a dia, cheios, muito cheios de amor. É o amor dos outros. É o amor do sol que nasce a cada dia. É o amor de cada xícara de chá que ela preparava com muito amor, para tomar enquanto divagava olhando a lua pela janela antes de dormir. É o amor que vinha em cada gota de chá que ela tomava, e em cada palavra que brotava de seus dedos. O chá entrava e as palavras saiam, noite a fora. Noite a dentro. Amanhã é dia dos namorados. Amanhã é dia de jogo de futebol. Amanhã muitas pessoas celebrarão o amor à sua maneira. E muitas outras chorarão ou tornar-se-ão amargas pela falta dele.

Não falta amor no mundo! Não falta amor na vida! Gentileza gera gentileza. Amor. Mais amor, por favor. Por si! Pelos outros. Pelo amor que há no mundo. E assim, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e todas as outras olharam para a menina de dentro para fora. E a menina se viu tão bem acompanhada. Por todos os seus livros, todos os seus chás, todos os seus amores. E agradeceu! E a cada vez que ela agradecia, o amor crescia, fruía, fluía. Que o amor seja a dois, a três, a todos, a um só. Que o amor seja verde e amarelo, ou rosa, ou vermelho, ou azul. Mas que seja verdadeiro. Puro. E que, antes de mais nada, seja amor. E assim, a menina, já em sua cama, findo mais um dia de trabalho, fechou o computador. Aquietou os dedos e as palavras que nasciam dele, e desejou a si e ao mundo, mais amor.

Eu me Chamo JuReMa

Hoje a menina se arrumou para sair de casa, despretensiosa. Já eu estava um pouco IMG_0732ansiosa. O fim de semana foi de paz para as duas, pra mim e para a menina. Descansamos depois de muitos dias de trabalho, e a menina largou seus livros por uma dose rara de TV e jogos. Já eu me entretive com a paisagem e com a família, irmão e sobrinhos. Meu caderninho ficou guardado na bolsa, junto com os livros da menina. Esse fim de semana a menina não estava muito Alice e nem eu muito reminiscente.

E foi assim, de espirito leve, que entrei naquela fila. Admiro muitas coisas e pessoas diversas, mas existe em mim uma fã, uma tiete, que não necessariamente possui a admiração solene que tenho pelas belas obras, mas uma que só quer sentir a emoção fulgaz das coisas pequenas que me falam à alma. E para distrair a minha leve ansiedade, deixei a menina brincar pelos corredores do shopping, e ela fez o que faz de melhor, sentou-se no chão, ali no meio daquela gente toda, tirou um de seus livros da minha bolsa e pôs-se a ler, para dar uma fugidinha daquele lugar tão artificial. Talvez não houvesse tempo hábil entre uma passada da fila e a próxima para nos jogarmos na toca do coelho, mas para um crônica rápida sempre há tempo. E assim, a menina optou por ser menos Alice e mais Adriana naquele momento.

E foi assim, que Sofia despertou em mim. Foi na página setenta e cinco, que eu li o título, “A Mocinha”. E a menina me olhou toda animada, se reconhecendo nas páginas. E empurrei Sofia para dentro sob o argumento de que aquelas páginas não eram dela, e eu ainda estava no meio do shopping movimentado, imersa em realidade, por mais que a menina solta já estivesse sentada no chão, de “perninhas de índio”, como uma criança perdida na sua vida adulta.

E foi ao ler as páginas da mocinha que a menina me disse que se a mocinha podia ser, ela também podia. Olha como a mocinha é como você, a menina me disse. E isso eu não podia contestar. O problema foi a Sofia. Como alguém já experiente em sair das páginas de um livro e migrar para a realidade, ela se inflou toda com o reconhecimento da menina, que se adrianava nas palavras da mocinha. Respirei fundo para acalmar aquela mulherada que se apoderava da situação, e retomar o controle da realidade, já que eu era a única que dominava a realidade ali.

Foi quando olhei para frente, guardando o livro da menina, a história da mocinha já finda, e peguei o meu livro para fazer o que tinha ido fazer ali, tietar. Mas eis que nesse momento, Sofia já tinha saído das páginas, e se apoderou de mim com a força da Alice. E vi na minha frente um outro ser que também é vários. Vi Pedro, vi Antônio, vi Gabriel, e vi também o Chapeleiro Maluco. Já estava muito longe, toca adentrada sem perceber, e discorria sobre as maravilhas desse país imaginário tão real. Num borrão digno da ficção, até agora não sei se estou cheia de reminiscência sobre o meu passado, meu presente ou meu futuro. Não sei se a menina, então Alice, feliz com o encontro com o Chapeleiro se deixou levar pelas maravilhas. Não sei se Sofia saiu das páginas para a vida real e me empurrou para preencher seu vazio dentro do livro.

Talvez tenha virado palavras, para que elas pudessem ganhar vida. A sensação é a de ressaca. Ressaca forte como a do mar. Que me balança e enche de náuseas. E nesse balanço percebo que meu mar e feito de palavras, polvilhadas de poesia. E que minhas reminiscências se misturaram de forma inseparável com as aventuras da menina. E que somos uma. Sempre fomos uma. Hoje, Eu me Chamo Menina. Eu me Chamo Alice. Eu me Chamo Adriana. Eu me Chamo Sofia. Eu me Chamo JuReMa.

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A Chave do Tamanho

O primeiro livro que a menina leu sozinha foi Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Quando a história começou a menina ainda não lia sozinha, estava começando a se arriscar nos gibis no Mauricio de Souza. Sua mãe, com aquela voz doce como mel, cheia de inflexões memoráveis, lhe deu a chave da sua felicidade, no dia em que abriu aquele livro, sentada em sua cama, cabeça no colo, dedinho acompanhando as linhas que a mãe lia em voz alta. A leitura seguia lenta, o dedinho indo, e às vezes voltando, sempre acompanhado da voz e olhos atentos da mãe. Um dia ouviram a pequena voz, que fazia coro à da mãe. O dedinho continuava, e lentamente o dueto nascia.

Em meio aquelas páginas, a voz da mãe foi cedendo, permitindo que o mundo ouvisse então aquela pequena voz que tentava, errava, e ali nascia. A cada dia, a cada página, a menina se inclinava menos no colo da mãe e mais na cabeceira da cama. E a cabeça da mãe, se reclinava, descansando a garganta e apurando os ouvidos. Quando terminaram o livro, era a menina que ninava sua mãe, que agora, deitada, ouvia a história na voz de sua filha. Assim nasceram vários amores e tradições. Assim, aquela voz maravilhosa aprendeu a descansar à noite, e aquela voz pequena aprendeu a perder o medo.

Ainda na adolescência, a menina almoçando, chegava a mãe, com sua visão preferida, um embrulho de livraria, e dizia a menina: “Comprei para você ler para mim à noite!”. Sim, numa inversão tão delicada de papéis, desde os seis anos de idade, era a menina que lia para sua mãe e não o contrário. Pode parecer estranho aos ouvidos desconhecidos, mas aquele ritual fez da menina o que ela precisava ser. A voz que todos ouviam precisava ser ouvinte para descansar, e a ouvinte precisava treinar ser ouvida.

Quantas curvas o rio da vida ainda não faria, até que a menina entendesse, ou melhor, começasse a entender, a vislumbrar, a magia e a importância daqueles momentos. Faziam parte de seu treinamento, tanto como todo o resto de sua vida. Sim, a menina não foi criada, ela foi treinada. Mas isso faz parte de outras histórias. Aqui é quando a menina entende que foi sua mãe que lhe entregou a chave da vida nas mãos. Aquela chave que traria sua liberdade e lhe abriria todas as portas da vida. Sua mãe lhe deu sua voz. E que voz mais maravilhosa. A menina não poderia ter sonhado com presente melhor. Sua voz pequena foi treinada. Jamais seria potente, doce e encantadora como a da mãe, senhora de todas as vozes, mas foi bem treinada, afinada, projetada, sussurrada e entre brincadeiras e livros, muitos e muitos livros, essas vozes foram brincando, treinando, amando, descobrindo e conhecendo, até que juntas moldaram a chave da vida, que ficou, guardada na garganta da menina.

Depois desse livro, vieram os outros. Em rito solene, a mãe foi até a biblioteca do avô e transferiu a coleção de Monteiro Lobato pra estante da menina. E entre tantos volumes, ela pegou a Chave do Tamanho, e a leu sozinha, pela primeira vez, de capa a capa. Talvez ela já fosse Alice e não soubesse ainda. Mas foi ali que ela encolheu e cresceu de novo pela primeira vez. Alguns anos depois, seu irmão lhe apresentou Alice oficialmente. Ela já a conhecia de vista, em inúmeras ocasiões a viu, mas só lhe leu a alma por meio das mãos do irmão. Talvez ele tenha sido o coelho naquele momento. Talvez o coelho estivesse disfarçado. Sempre com pressa, esse momentos são como borboletas que passam rente às orelhas, instauram pânico na menina, e destilam uma curiosidade acirrada, que a faz seguir os caminhos da floresta, para descobrir onde nascem as borboletas, e para onde vão os coelhos apressados.

Já familiarizada com os truques acerca das mudanças de tamanho, algum tempo depois, Absolem, ainda disfarçado, mas já extremamente atuante em seu papel de guiar Alice pelo País das Maravilhas, apresentou à menina ao espelho. Sim, ela de fato atravessou o espelho, caiu na toca do coelho, fisicamente, num momento maravilhoso que se repete a cada ano, quando as realidades se misturam nas mãos de Absolem, e provou da poção e do doce, que aumentam e diminuem as pessoas de tamanho. Essa foi a vez que a menina acreditou definitivamente na realidade dos mundos mágicos. Aprendeu como as fantasias são construídas e decidiu usar sua chave, para que a magia estivesse sempre presente em sua vida. Ela ainda não sabia que era Alice, mas descobriu que podia habitar os mesmos universos.

Entre contemplativa e participativa, a menina mescla os universos com maestria. Por vezes a necessidade lhe impõe que esteja mais presente em um deles do que em outros. Mas a cada ano que passa sua habilidade em usar sua chave cresce e ela consegue vagar entre os planos com maior rapidez e naturalidade. Talvez esteja aprendendo a ser coelho também.

Esse ano a menina virou gondoleira. E acrescentando o universo das águas aos seus domínios, transformou em Veneza seu lago, sua cidade e seu carnaval. E entre máscaras e caras nuas ela percorreu mais uma vez vários universos em uma pausa temporal na qual todos os universos coexistem, mesmo para aqueles que não possuem as chaves. Reviu e uniu personagens distantes no tempo e no espaço, e dançou entre a solidão e a multidão.

Ao acordar em casa percebeu como estava ocupando bem o espaço. Teria crescido ontem? Não, não digo crescer como fazem os bebês e as crianças, digo, usando sua chave do tamanho. Alguns dias a menina se sente pequena demais para seu pequeno espaço. Em outros seu espaço parece pequeno demais para ela. Às vezes é incômodo, às vezes é reconfortante. Hoje ela era ela. Nem Alice, nem coelho, nem grande demais, nem pequena demais, apenas dona da Chave do Tamanho.

A menina, velha mulher

A menina já não era tão menina assim. Alguns dias se sentia muito velha, outros, nova demais. Na verdade, ela era, como todas as outras, dona de um coração de menina, daqueles que acordam felizes, só porque faz sol. Era também dona de um corpo de mulher, daqueles que as fazem se descabelar na hora de escolher uma roupa e chamam uma atenção que às vezes é bem-vinda, e em outras odiada. Era também dona de um espírito e alma de velha. Daqueles capazes de passar horas procurando um pelo em ovo, só para achar, eventualmente, não um pelo, mas uma pluma, coladinha na frágil casca, e se lembrar que não importa quem veio primeiro, o ovo o galinha, importa, que a galinha também era fêmea, mesmo que o ovo nem sempre o seja, e isso a faz considerar a galinha primeiro, primeira.

Era aquela hora. Uma hora desconhecida pelos seres do gênero masculino. Uma hora tão feminina, que faltam palavras para descrevê-la, embora sobre sentimento. Assim como às mulheres, às vezes lhes faltam palavras, mas sempre sobram sentimentos. Nessa hora o carro é quente, o ônibus é cheio, o trânsito é barulhento. O calor daqueles meios de transporte contrasta com a leve brisa que a noite vem trazendo, e a menina arrepia, apesar de suar de calor. Naquela hora o estômago ronca de fome, mas a boca azeda, e o enjoo faz a vontade de comer ir embora.

A menina olha para o céu. Ele ainda é azul. Não azul claro, como no amanhecer, mas um azul hortênsia, como a flor, claro, porém profundo. O mundo, entretanto, já é tomado de sombras, as silhuetas das árvores já são formas pretas contrastando com o ainda azul do céu. E há um brilho que beira o rosa e é também dourado, de um sol que já não se vê. E bonito, e triste. A menina olha para o céu, vê um quarto de lua minguante, prateada, começando a se apoderar de seu céu noturno, seu céu feminino. A lua já brilha, embora ainda não seja exatamente noite. E eis que de repente, não mais do que de repente, lá está ela, uma pequena estrela a fazer companhia a sua lua, como mãe e filha, duas mulheres no céu. A menina suspira, sem saber porque sofre. E, ao mesmo tempo já sabe, é a hora da estrela.

O sinal abriu e a menina mulher tem que dirigir, fluir na correnteza do trânsito e chegar em casa. Chegar em casa para quê? O que a espera depois da hora da estrela? Dizem que o crepúsculo é a hora do predador, pois as presas não veem bem quando ainda não é noite, mas também não é mais dia. Para a menina isso não ajudava em nada, pois as mulheres são tanto presa quanto predadoras. Depende do dia, do sol, da lua. Mas a hora da estrela, era a hora em que a menina, a mulher e a velha se encontravam. O coração puro da menina via naquele contraste de cores, no brilho da lua, a magia do mundo. E imaginava todos os contos de fadas, onde os amores são possíveis, mesmo quando impossíveis. E a mulher suspirava, e se cansava ao saber que teria que se decidir presa ou predadora, com o cair da noite. Já a velha ria um riso amargo, e se lembrava de todas as dores do mundo, pois com a noite cessam os afazeres e afloram as emoções. E a hora da estrela é a hora da melancolia.

Nessa hora as meninas, não apenas essa, mas todas, têm, a cada dia, de decidir se porão a mesa para o jantar da família ou se correrão, fugirão para o ar puro das montanhas mais altas e distantes, ou para o ventos das praias mais ermas e solitárias. Todas? Sim, todas. Sejam elas meninas, mulheres ou velhas, nessa hora, a cada dia, existe uma decisão sendo tomada. Em cada coração, cada corpo, cada espírito. E durante muitos e muitos anos a menina, que não era tão menina, e nem tão velha, já tinha posto muitas e muitas mesas. Não ovos, mas mesas. Mas em sua lógica os ovos vinham em segundo. Ou talvez em terceiro, e as mesas em segundo. E servido muitos jantares. Não, a menina não tinha marido ou filhos esperando aquele jantar, mas já teve, algum dia, mãe, pai, avô, avó, família.

Só que a menina já tinha fugido também. Justamente por não ter marido e filhos, pode fugir sem que ninguém desse por sua falta. E foi até o alto de montanhas, e desceu até a onde a maré marca a areia. Respirou o vento do mar e o ar das folhas das árvores. E descobriu, que mesmo lá, na distância, mesmo lá, existem maridos, filhos, família, ovos. E que eles jantam. E quando não há ninguém? Na selva urbana, em seu caixote de concreto, a menina janta. Sim, pois apesar dos calafrios do dia quente que decai em noite fresca, e apesar da fome do corpo e do enjoo da alma, ela janta. Mesmo sozinha, ela janta. E corre, e nada, e contempla o mundo da janela. E a vida continua. Seja pelo ovo, ou pela galinha.

E nessas horas, nas horas da estrela, a menina queria ter uma máquina. Sim, uma máquina que superasse o tempo e o espaço, e resolvesse as mazelas do mundo, driblasse a desgraça. Nessas horas ela gostaria de caminhar sobre as flores amarelas do ipê. Ela gostaria de achar, ou talvez só de procurar, um amor. Nessas horas ela, menina, mulher ou velha, se sente princesa. E então ela se lembra, do seu remédio, do seu antídoto. Da sua música e dos seus livros. Sim, ela é menina, mas também são meninas as Clarices e as Cecílias, as Adrianas e as Alices. E todas elas entendem as angústias do ovo, da máquina, do amor, do mundo, da hora da estrela. E a menina cultiva, como quem procura um amor, sua felicidade clandestina. Aquela, que vem na hora da estrela, quando ela está sozinha. E ela agradece à Elis por sua reza e à Cassia por sua malandragem, que a permitem ser menina, mulher e velha. E ela se lembra de que a vida é querida, mesmo quando a felicidade é clandestina.

E a velha ri, a mulher chora e a menina ama muito a vida querida, pois nela existem também os Toms, Tims, Chicos, Vinícius, Samueis, Fernandos, Manoeis, Joãos, todos os Johns, Chets, Miles, que sabem que é preciso ter cuidado na hora da estrela. E fazem graça, pois sabem que as mulheres são vinte duas em uma. São garotas de Ipanema, nacionais, ou funny valentines. São como joaninhas no jardim. São como a galinha, que bota o ovo. E também bota a mesa do jantar.  E apesar de tentar, eles nunca às compreenderão. E elas contemplarão o mundo como velhas que riem com amargura de tudo o que já foi, como uma onda no mar. E serão mulheres de corpos metamórficos, como mutantes, angustiadas, presas e predadoras. E serão meninas de coração puro, que procuram um amor. Mas nunca entenderão que a hora da estrela, quando a lua aparece no céu, é delas. Só delas. E que nessas horas, apesar de tudo, a vida é querida.

Em alguns dias as Alices mudam de tamanho, seguem coelhos, fogem de seus mundos, atravessam barreiras, viajam no vento, em furacões. Encontram e são encontradas. Dançam, rezam, passam. E a menina vive, sua vida querida, sabendo que sempre se angustiará na hora da estrela. E que não adianta fugir. Que nenhuma máquina resolverá seus problemas.  Nem mesmo o do ovo e da galinha. Que nenhum homem ou mulher arrumará seu mundo, consertando-o depois de todos os pequenos e grandes estragos dos anos. Mas que ela mesma pode ser sua própria arrumadora. Afinal, mesmo quando a mulher está em metamorfose, e enquanto a velha contempla o mundo, entre rezas e malandragens, a menina tem um coração puro. E que sua alma não é pequena. E ela tem essa mania de explicação. Um amor pelas palavras. E enquanto ela procura por um amor, na verdade, ela encontra palavras. E enquanto ela procura pelas palavras certas, encontra muito amor, de vários tipos, certos ou errados. Longos ou breves. Que sejam, então, eternos, enquanto durem. Mesmo que durem só uma hora, a hora da estrela.

O banco vermelho

A menina, agora já mulher, andava pelo shopping, tão próximo de sua nova casa, e olhava os móveis. Muito bonitos, muito caros, quase sempre feitos de MDF ou outro material moderno. Moderno, leve, e frágil. Ela gostava da beleza daqueles móveis, claro, quem não gosta de coisas novas e brilhantes. O que a preocupava era se eles aguentariam. As coisas são tão frágeis. As pessoas também. Tudo quebra, descasca e se acaba. O mundo moderno propicia que vejamos a exaustão dos materiais a olho nu e em poucos anos. As amigas, tias e outras pessoas diriam que isso é normal. Quando estragar você compra outro. A menina entendia esse ciclo de consumismo moderno. E o que a incomodava mais não era a ideia de comprar novos depois de um certo tempo, isso era até um pensamento agradável, a necessidade de renovação se fazendo presente ciclicamente, para que a rotina não a fizesse se acomodar.

Mas a menina só conseguia se lembrar do banco de tampo vermelho. Esse banco jamais estaria naquele shopping. Ela conseguia sentir sob a palma a poeira grossa, que incluía fragmentos de metal e pó de madeira. Quantas vezes ela não passou a mão no estofado vermelho, de tal forma que o marrom ficasse em sua mão e o banco voltasse a ser vermelho. Ai ela se sentaria e limparia a mão no short. Um ato sem lógica, já que o short terminaria sujo de qualquer maneira. Hábitos. Hábitos são assim, manias, a gente faz, mesmo quando não tem sentido. Ela não se incomodava com o short sujo, nem com a aspereza daquela poeira grossa. Ela confiava naquele banco. Feito de madeira, que um dia tinha sido pintada de branco. Descascada e suja, a pintura já não era branca a anos. A menina nem sabia se tinha visto aquele branco de verdade algum dia, ou se era anterior a sua existência. O estofado era feito de plástico grosso, como lona de caminhão vermelha, pregada à pregos na madeira, segurando firme um recheio de estopa. Muitos pregos a vista. Pedaços de madeira descolorida, daquelas de dão farpa, crua, sem lixar, reforçando o banco.

Mais uma vitrine e a menina pensou que realmente jamais veria um banco daqueles de novo. Ele não caberia em seu pequeno e frágil apartamento. Ele pertenceria para sempre à sua memória, e àquela oficina onde foi criado, restaurado e utilizado tantas vezes, por tantos anos. Apesar de se assemelhar a um monstro de dr. Frankenstein, aquele banco era sólido, confiável e resistente. E duas coisas davam a menina aquele doce conforto sobre a segurança do banco: era de seu avô, e tudo que seu avô fazia, era feito para durar, e era remendado. Às vezes ele errava no cálculo, como qualquer ser humano, nessas horas ela se lembrava que ele era humano afinal de contas, mas ele sempre sabia como remendar, consertar. E ela aprendeu a confiar nas coisas consertadas mais do que nas novas. Não dava para saber quanto tempo ia durar algo novo. Não dava para calcular o nível de desgaste e pressão ao qual o móvel novo racharia e seria inutilizado.

Mas aquele banco já estava ali, tão quebrado, tão usado, porém feito de matérias de verdade, e reforçado, que ela sabia exatamente que ele era útil de fato. E suportaria seu peso. Quantas lâmpadas foram trocadas em pé sobre esse banco, quantas soldas foram feitas sentadas nesse banco? Incontáveis. E lá esteve ele, sempre que alguém precisou dele.

Ela se lembrou de acender a luz da oficina já tarde da noite, e trazer o banco, quase de seu tamanho, para trocar uma lâmpada antes de dormir, ainda menina. E da voz, a maravilhosa voz de sua mãe, dizendo para ter cuidado com as farpas, o banco era muito rústico. Ela ria no escuro do receio da mãe. Crescera naquela oficina, na barra das calças daquele que fabricava essas mágicas. Sabia exatamente onde pegar para trazer o banco sem que nenhuma farpa penetrasse sua pele. O risco existia, claro. A madeira não era lixada em muitas partes. Sem contar os inúmeros pregos aparentes, batidos, entortados para segurar o estofado. Ela conhecia a cabeça de cada um daqueles pregos. A luz da oficina ficava lá dentro. Depois de devolver o banco, intacta, ela decorava onde estavam as raspas de metal, as farpas de madeira no chão, as ferramentas sobre a mesa, e vinha no escuro, como uma equilibrista, de pés descalços e camisola, se esgueirando novamente até seu quarto, onde testava a nova lâmpada.

Sua mãe entraria para lhe mandar apagar aquela luz, parar com aquela agitação noturna e ir dormir. Veria os pés sujos e lhe repreenderia por ter ido até a oficina do avô descalça. Diria que as coisas lá eram perigosas, que bastava a menina ter essas iniciativas, essa mania de trocar uma lâmpada já tarde da noite, não poderia esperar o sol raiar? Ela era pequena, precisava mesmo de carregar banco pra lá e pra cá, descalça, já de camisola? A menina diria que da próxima vez esperaria o dia raiar. Lavaria os pés antes de dormir e sentiria um orgulho temendo na hora de apagar sua luz, sua lâmpada, sua aventura conquistada. Apesar dos pés e mãos limpos, ela sentiria aquele cheiro de metal e madeira, óleo e estopa, já entre as cobertas, e se sentiria confiante. Feliz de ser tão esdruxula que podia se vangloriar de passear de camisola por entre aquele espaço que não deveria ser seu, mas era, cada cantinho, cada nicho.

A menina já tinha desistido das vitrines, sentada num banco, tomava um sorvete de pistache. Pistache, aquele que aprendeu a tomar com o avô. Olha de novo a sua volta. Um shopping inteiro para móveis. Coisas descartáveis, feitas para serem descartáveis. As pessoas não tinham ideia mais do que era a cultura do conserto. Da fabricação própria. Ela admirava seus novos móveis, sua casa branquinha e cheirosa. Se sentia tão confortável com a lavanda quanto com a graxa. Mas tudo parecia tão frágil. A vantagem de um bom prego aparente, é a certeza de que ali há um reforço. Foi quebrado já, testado já, e resistiu. O novo, brilhante, esconde as falhas, e nunca se sabe quando poderá desabar.

Para conviver com aqueles móveis frágeis a menina tinha que ser a mocinha que sua avó sempre quis. Sentar-se direito. Nada de malabarismos. Ela se lembrou das pernas-de-pau que o avô fez na época em que ela entrou pro circo. Sim, a menina já foi circense. E riu, com seu sorvete na mão, lembrando da alegria que compartilhava com seu avô por fazer graça no meio da sua oficina. Ela fazia questão de alegrá-lo com seus malabarismos, uma azaleia de jardim num copo de geleia, entre a furadeira e a lixa, para ser descoberta no dia seguinte. Um sorvete de pistache tomado com as mãos sujas de óleo depois de uma manhã de domingo trocando as velas do Monza. Aquele mundo lindo de MDF branco jamais entenderia esses sentimentos. Esses sentimentos só poderiam ser compreendidos pelo banco remendado.

A menina se levantou, comprou uma garrafa de água de vidro roxo, mas não comprou móveis. E foi para casa, pensando em como seria ter por perto aquele banco vermelho e branco, com todos os seus pregos e farpas. Confiável, disposto à seus malabarismos e trocas de lâmpada à meia-noite. Como poderia ela acatar o conselho da mãe e ficar no escuro até o dia seguinte? Mas é noite, você vai dormir. Precisa trocar a lâmpada ainda hoje para o que? Ela ria, e dava boa noite. Para ler, é claro. Como iria ela ter sonhos bons, se não pudesse viajar pelo mundo antes de dormir? Fazendo seu próprio caminho, sua própria luz.

O resgate dos passarinhos

A menina abriu os olhos e percebeu que era hora de ver o interior. Fechou-os novamente e brincou de olhar para dentro. Não como quem dorme, mas como quem vê. E viu, uma a uma as marcas. As cicatrizes que traz na alma e no coração. Nunca se incomodou com elas e a visão continuou sem incomoda-la. Para a menina, marcas não eram estranhas. Estranho eram aquelas pessoas que se mostram perfeitas, sabe-se lá quais marcas muito piores e mais profundas não escondem sob sua pele de porcelana. Ou ainda, que sejam espíritos tão jovens e inexperientes que ainda estejam imaculados. E no caso desses, a menina já sabia, que era só uma questão de tempo para que começassem a ficar marcados.

Abriu novamente os olhos, percebeu a luz azulada, a luz da manhã, filtrada por suas cortinas turquesas, aquele eterno ar de dia de céu azul, com passarinhos voando, mesmo que lá fora fizesse chuva. Ela piscou de novo, e tentou entender que cisco era aquele, que a fazia piscar. E soube, imediatamente que não era um cisco real, ou melhor, que era um cisco muito mais real do que uma partícula de poeira, era um cisco da alma. Sim, ela estava acostumada com esses ciscos, que gostavam especialmente das manhãs de domingo para se soltarem, como pele velha, cílios gastos, poeira levantada pela lembrança, que cai no olho e arde. E a vontade de chorar se camufla em cisco de alma.

Então ela decidiu que era hora. Não hora de levantar, nem mesmo hora da faxina, ou do exercício. Era hora de polir. Polir cada uma daquelas cicatrizes, para que elas soltassem a carne envelhecida, os pelos soltos, e saíssem assim os excessos, para que os ciscos não lhe caíssem aos olhos em momentos indevidos. E agora você me pergunta, mas como é que se pode polir as cicatrizes da alma? Com ternura. Com muita ternura. E a menina sabia disso, sempre soube. O problema era que a menina não gostava dessa palavra: ternura. Sabia o que havia de bom nela, mas era algo que a irritava. Irritava pois era facilmente confundida com compaixão ou mesmo pena. Lhe gerava asco aquela transposição, aquela pena disfarçada de ternura. E por isso, a palavra parecia amarga em sua boca, desgostosa, ter-nu-ra. Revirada entre a língua e o céu da boca quase que com nojo.

Mas ela sabia que só a ternura serviria para polir suas cicatrizes. Por isso estavam tão acumuladas, nunca às havia polido antes. E, esse comportamento, durante algum tempo é bem razoável, mas depois que ela viu que só a ternura lhe amenizaria os calombos do espirito, não havia mais como não ver. Assim, a menina inspirou longamente, sua luz azul filtrada, e começou a polir. Começou, como deve ser, pelo coração. E por isso saiu ao sol. Saiu e andou muito, absorvendo toda aquela luz dourada-rosada com o calor incandescente do sol, capaz de derreter como cera de vela as queloides do coração. E sabendo que o polimento não apagaria às cicatrizes, apenas suavizaria o relevo, foi que a menina conseguiu continuar. Não tinha nenhuma intenção de se desfazer de sua história. Apenas achou que era hora de deixar seu interior faxinado, e aparar algumas arestas. E se na manhã de luz filtrada em casa a menina olhou e viu, na tarde de sol incandescente ela poliu o coração. E como as circunstancias de sua vida são sempre simbólicas, ela terminou a tarde toda suja de graxa e terra, após desmontar e montar sua bicicleta, que a levou até a luz do sol, onde poliu, poliu e poliu o coração. E com ele morno, com o que tinha calcificado no frio lá dentro, derretido e polido, ela seguiu, rumo a lua.

Sim, era noite de lua cheia, e o dia da menina era longo, pois ainda era fim do verão. E sob a luz prateada-azulada da lua a menina poliu o espírito. E acalmou aqueles sentimentos quentes torturantes como a angústia e a ansiedade, que torcem a alma. Esfriou o calor inquietante do medo do desconhecido, e poliu, poliu e poliu a alma. E os banhos de sol e lua lavaram a menina. Que durante todo o longo dia, olhava e via. Olhava e via a luz, olhava e via o seu lado de dentro, olhava e via o coração, olhava e via o espírito. E assim, ela sorriu. Sorriu não porque estivesse especialmente feliz, mas sorriu porque estava a caminho da paz.

E sob o luar, voltando para casa, a menina lembrou da rainha. E seu asco pela ternura se desfez. Dentre todos, logo a rainha é que viria lembrar-lhe a ternura? Essa sim era uma reviravolta que só servia para comprovar o bom serviço de sua limpeza interna. Ternura tinha seu avó mágico de sobra, daquela alegre, que ocupa e preenche os espaços vazios do mundo e da alma. Daquelas amarelas, cheias de risadas, assobios, e toques fortes e seguros. Ternura tinha sua mãe, com voz de veludo e mel, que cantava a ternura para dentro da gente, e enchia a alma sem perceber, sem ver, sempre com um que de melancolia no fundo da melodia, da tenra melodia.

Mas a rainha. A rainha dava às ordens, comandava o castelo, ensinava, servia e era servida. Era também carinhosa, mas tenra? E nesse momentos os pássaros voaram dentro de sua mente, e a menina viu! Toda a ternura, a ternura inumana da rainha, que era capaz de curar os passarinhos com sua suave e rara magia. E a menina se lembrou de todos os resgates de passarinhos que ela viveu com sua avó, a rainha soberana de seu castelo. Naquela mulher de fibra, existia uma ternura reservada aos animais, da qual poucos humanos eram merecedores. E por mais amor que ela tivesse aos seus cachorrinhos de estimação, mimos e passatempos, ternura era um sentimento que ela reservava aos pássaros.

Com mãos de plumas ela era capaz de pegar aqueles pequenos filhotes que caíam do ninho antes de saberem voar. Com assertividade e delicadeza raras e tão especiais ela envolvia os pequenos seres voadores quando esses confundiam o vidro com o céu. Ouviam um estrondo e ela gritava para a menina correr e afastar os cachorros. A menina corriam sem nem saber ainda o porquê, e chegando lá, sempre havia um pequeno passarinho machucado, desesperado, alvoroçado no chão. E quando a rainha chegava, eles ficavam imóveis, e aceitavam seu abraço, com uma calma irreal. E a rainha tinha sua própria enfermaria para alados. Com ninho de algodão, e água dada no bico, essas pequenas fadas disfarçadas de animaizinhos ficavam hospedadas por alguns dias no castelo, ganhavam tratamento e comida, e mesmo quando todos achavam que morreriam, um dia voavam. Voavam como se nunca tivessem deixado de voar. E alcançavam os céus, deixando sua música como presente de agradecimento.

No castelo sempre havia um pote de alpiste e a enfermaria, que era uma gaiola sem porta, que vivia destrancada. Além de vários bebedouros espalhados pelas janelas, para acomodar e sanar a fatiga dos que voam. E eles vinham e iam, sempre em liberdade. E pousavam na rainha como quem via nela uma mãe. E não era o alpiste, nem a gaiola sem portas, nem o ninho de algodão que os curava. Era a ternura daquela mulher. Uma ternura que poucas vezes vi. Uma ternura que ia muito além da compaixão e da pena. Pois havia nela a certeza de que o amor cura e renova. Ela não acolhia os passarinhos aleijados para que tivessem uma morte tranquila. Ela os devolvia a vida. Sempre! E quando isso acontecia cessavam as ordens, parava-se a cozinha, e toda aquela assertividade era convertida em ternura. Ternura dessas que só conheci na luz dourada do sol, na luz prateada da lua, e no resgate dos passarinhos da avó-rainha.

Os doze Reis

A menina tem onze primos. Hoje, na verdade, tem muito mais. Ganhou primos sobrinhos e primos maridos, primas mulheres, mas ela tem onze primos. São doze. Seis meninas e seis meninos. Em seus devaneios cabalísticos a menina sempre achou que isso significava algo, embora nunca soube dizer o que. Primos mais velhos, primos mais novos, aqueles que cuidavam dela e aqueles de quem ela cuidava. A menina era filha da tia. A Tia. Letra maiúscula. Tios são quatro, mas A Tia era uma. Viviam num castelo, ou assim acreditava a menina. Na verdade, só ela, dentre os doze, conhecia a magia daquele lugar. Não, isso não é verdade! Todos conheciam a magia daquele lugar. Durante alguns anos aquele foi o mais mágico dos lugares da Terra. Mas ela assistia à transformação, e os outros não. Para eles era sempre daquela forma, mas ela conhecia dois castelos muito diferentes.

Durante a semana aquele era um castelo de adultos exigentes e rígidos. Horários sempre foram cumpridos. Durante a semana a música era ouvida baixa e os livros lidos altos. Durante a semana os passos eram abafados por meias e pantufas, chinelos de tecido. Os adultos falavam baixo e se comia sopa a noite sempre. Não é que a menina não gostasse, ela, na verdade, só conhecia a vida assim, e achava que todos viviam da mesma forma. As tarefas domésticas, escolares e os aprendizados do avô ocupavam todo seu tempo. A família se dedicava a aprender, praticar e melhorar sempre. Entre botões pregados, frutas catadas no pomar, exercícios escolares, horas na cozinha como ajudante, e muitas horas de leituras a fio, silenciosas e em voz alta, assim a menina levava os cinco dias que a separavam da transformação. Durante a semana aquela era uma casa de adultos. Havia sempre muita magia, mas era como viver em um colégio interno, nunca o ensino terminava. A menina gostava muito disso, na verdade. Apesar de se cansar às vezes. Durante a semana os sons eram poucos dentro de casa. La fora o som dos passarinhos predominava, fora os dias de jardineiro, quando a máquina de cortar a grama e a bomba da piscina soavam como dragões rondando o castelo. Às noites eram muito escuras. Os cantos se empoeiravam. Mas a sexta-feira à noite chegava.

E com ela vinham todas aquelas luzes externas que não eram acessas durante a semana. O tampo da vitrola era levantado, e o cheiro da sopa dava lugar ao cheiro de vários sanduiches feitos na chapa ao mesmo tempo. O único dragão soando era o liquidificador que batia duas ou três vezes copos cheios de leite com Nescau. As cadeiras da mesa de jantar eram apertadas e muitos banquinhos apareciam de lugares inesperados, e onde normalmente cabiam quatro, de repente cabiam dezesseis. E em meio a todas aquelas vozes e cheiros novos, havia muito riso, e a casa era definitivamente castelo, e era das crianças. Os adultos ocupavam seus recantos, nas sombras confortáveis do descanso semanal, e a menina se fazia princesa do castelo, em meio a seus príncipes e princesas, primos-irmãos. E se desdobrava para que todos tivessem suas vontades atendidas. Ao mesmo tempo que se sentia mais princesa do que os outros, com algum aval do Rei, a Rainha mãe fazia questão que ela fosse também anfitriã e responsável pelos demais.

Os mais velhos viam filmes que lhe davam medo, e assim mesmo ela assistia de debaixo das cobertas, por entre os dedos que cobriam o rosto. E faziam brincadeiras que a maravilhavam, correndo pelo jardim, ao sol, brincando com espadas feitas pelo rei, e tinham até armas de espoleta, que faziam sons inacreditáveis. Inúmeras competições começavam, e a piscina era o centro das atenções. Conquistavam o jardim, subiam nas árvores, corriam, comiam frutas, pescavam no lago, inventavam brincadeiras, jogavam mamonas e bete. Jogos de tabuleiro e vídeo games. Jogos inventados. Com os de sua idade brincava de faz-de-conta, as meninas ocupavam o closet da Rainha, bagunçavam todos os quartos, espalhavam suas barbies por cada recanto do castelo. Brigavam com seu primo-irmão, que queria atenção e se revoltava quando as meninas de sua idade viravam princesas ou sereias, que em nado sincronizado o excluíam com a crueldade infantil de seu mundo. E a menina, agora princesa, insistia que ele era príncipe, querendo ou não, pois estavam todos no castelo do Rei, e dele eram descendentes.

Ajudava a Tia Rainha a cuidar dos mais novos, inventava brincadeiras para distraí-los, ensinava-os a respeitar o Rei e a Rainha, verificando, com ordens mandonas que só mesmo a princesa da casa se permitiria, se tinham dado o beijo de boa noite nos avós. As camas eram afastadas, os colchões jogados no chão, para caberem em menos colchões mais primos. E entre cafunés coletivos, e quantidades absurdas de gibis da Turma da Mônica, livros, infantis ou não, balas escondidas embaixo da cama e ataques de riso infindáveis que geravam ataques culposos de asma, os primos dormiam. Era trancadas as grades que contiam os sonâmbulos de caírem pelas escadas durante a noite, e a porta de mola da cozinha rangia sobre os ataques daqueles que assaltavam a geladeira na madrugada.

E aos sábados e domingos a música era ouvida alta e os livros lidos baixos. E os cheiros das frutas do jardim enchiam o interior da casa, com todo aquele suco de manga e as jabuticabas em bacias de gelo. As sopas viravam massas, churrascos e feijoadas, e os tios, Reis e Rainhas, chegavam. Os sorvetes se espelhavam para todos os lados, geralmente acompanhados de um gibi. E o castelo era infantil, apesar dos adultos. Os sambas e o jazz eram tamborilados nas pontas dos dedos do Rei, chorados em lágrimas de alegria, emoção e tristeza da Rainha mãe, e cantados na voz potente e pouco ouvida da Rainha Tia.

Na páscoa caçadas homéricas aos ovos preenchiam o ar da manhã, e os Natais eram esperados como só mesmo crianças que conhecem um castelo podem saber. A casa ganhava cheiro de doces, e a pureza dos ramos de cipreste podados da própria cerca do jardim, e cuidadosamente encaixados nas armações, geringonças únicas do Rei, para virarem uma árvore de Natal viva, cheirosa e iluminada. E se fosse inverno, a lareira seria acesa, e a Rainha contaria histórias de terror, que fariam os mais novos fugirem de volta à suas casas, e os sobreviventes dormirem grudados. E tínhamos lobo-mal, e fantasmas, serem mágicos, e insetos loucos. Tudo sobre o olhar eterno da Rainha mãe de todos, sobre o console da lareira. Se fosse verão triplicaria a quantidade de sorvetes e de toalhas molhadas. E as brincadeiras na piscina seriam imbatíveis.

E a princesa tomava suas liberdades, e ligava desde cedo para aqueles que ainda não estivessem lá, convocando seus primos-irmão a irem fazer a magia acontecer. E ligava também para os amigos desses, gostassem eles ou não, e planejava festas surpresa, enchia balões e fazia decorações infantis caseiras. E entre vantagem e desdobramentos, tudo o que a menina queria era a companhia de todos eles, e a transformação que ela gerava. Pois no domingo à noite, quando iam todos embora, era ela, menina-princesa, que via o Rei e Rainhas, descerem de seus tronos, e catarem toalhas molhadas, e copos sujos de sorvete. Lavarem pilhas de louças sujas, e catarem montanhas de gibis. E ela corria, tentando se adiantar, tentando fazer por eles, para que não se chateassem, e para que a magia pudesse acontecer de novo a cada fim de semana. E quando se sentavam, cansados, para tomar a sopa, de banho tomado, a casa já era escura e em silêncio. A transformação já feita, e os ares da segunda-feira já se adiantando sobre o domingo, eles reclamariam, conquistando novamente o castelo, transformando-o de volta num lar de adultos, e falariam da bagunça, em tom cansado. E com a colher de sopa na boca, vendo-os só com o cantinho dos olhos, a menina via que apesar das reclamações seus olhos sorriam com o maior amor do mundo. E naqueles olhares iria repousar a magia que voltaria a emanar deles no próximo final de semana. E todo aquele orgulho de sua família enchia o peito da menina, que sabia, assim como sabiam os Reis e Rainhas, que era hora de tirar sua coroa, e viver outra semana de aprendizados rígidos, até que os sons e cheiros mudassem e a mágica emanasse entre eles novamente.