Consciência

Muito já falei aqui sobre o distanciamento que minha forma de viver gera com as pessoas em geral. São muitos itens, o vegetarianismo, o fato de não beber, o amor pela natureza, pelas viagens, a forma de encarar o mundo e as relações humanas. Tudo isso pode parecer muito interessante para uma breve descrição de bio em um blog ou perfil de rede social, mas na hora da convivência intensa, são outros 500.

Dei a sorte de encontrar pra dividir o dia-a-dia alguém que entende quase todas as minhas loucuras e aceita as que não entende e vice-versa, eu com as dele. Mas não é tão simples. Conheço vegetarianos que amam beber, balada e aí temos alguns pontos de ligação e outros não. Conheço pessoas que não bebem e não são de balada, mas que são a favor de uma vida mais estável, com empregos fixos, horários de lazer restritos, e consumos mais altos. Conheço pessoas que gostam de viajar, mas que gostam de outro tipo de viagem, mais urbana, mais confortável, mais turística. Conheço pessoas que amam a natureza, mas que também assistem muita TV e estão sempre prontas para comentar a novela ou a última fofoca, seja política ou ficcional (algo muito difícil de distinguir atualmente, especialmente no Brasil).

E veja bem, em nenhum momento eu estou criticando nenhuma dessas características. Nem exaltando nenhuma delas. Apenas comentando como sou, como vivo e como cada vez mais, os pontos em comum, ficam difíceis, raros, na convivência mais próxima. Para um encontrinho rápido, para rever amigos antigos, ou pessoas que estão longe, é ótimo. Sempre tenho do que falar e gosto de ouvir. Mas para a convivência é mais complicado. Muito disso eu já comentei no post Sonhos e aprendizado no qual cito também alguns filmes e livros, que comentam essa distância.

E atualmente tenho me sentido muito paralisada, nessa distância. Com muita dificuldade de seguir escrevendo meu mestrado, de seguir correndo atrás da burocracia, enfim, as coisas parecem muito difíceis, e não é por falta de esforço pessoal, é porque com o tempo vou percebendo os mecanismos, e como o mundo é feito, em cada coisa, para que nos encaixemos nele e não o contrário. Fechando oportunidades, com cara de quem abre portas, dando prêmios de superação, pra quem abaixou a cabeça e acatou o sistema, em vez de se superar de fato. E tantas outras coisas que são na verdade perceber que no mundo, tudo é como a salsicha, você não comeria (compraria, viveria, etc) caso soubesse como é feita. E conforme vou descobrindo, ganhando consciência, também vou me sentindo mais apática, mais desanimada, desestimulada.

Estou aqui nesse dilema, sofrendo as dores do mundo, de forma até clichê, e ao mesmo tempo me sentindo bem idiota pela incapacidade de reação. E aí, para distrair, eis que me deparo com esse vídeo Notes from de Underground, e me senti menos estranha ao mundo. O livro, Notas de Subsolo, do Dostoiévski, ganhei há muitos anos do meu irmão, fã de carteirinha do autor russo, e gostei muito da leitura. Mas nos últimos meses descobri o Wisecrack e as análises literárias em thug style dele, que me fazem rir muito, e ao ver que ele tinha analisado Notas de Subsolo, resolvi checar e me surpreendi em perceber como estão alinhadas com essa minha paralisia. Estou sofrendo dessa falta de saber como agir e se agir ou não derivada de perceber demais os problemas do mundo.

Então agora vem as decisões difíceis de fato: ignorar um pouco dos problemas do mundo, e “comer a salsicha” assim mesmo? Ou seja, terminar minhas atividades, mesmo sabendo que não são mais meu sonho e que ele ficou manchado? Desistir e seguir outros caminhos, mesmo sabendo que eventualmente posso descobrir como essas novas salsichas são feitas? Ou descobrir uma nova fonte de energia, para concluir os desafios apesar das desilusões? E como encontrar essa energia, esse ânimo?

Tendo a optar pelas últimas e espero conseguir. Perceber minha apatia foi o começo. E agradeço ao Dostoiévski mais uma vez.

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