Gypsy Heart

Meu coração é nômade e esse assunto não é novidade já existem alguns posts com a temática. Mas eis que agora me vejo novamente numa casa nova, numa cidade nova e dessa vez num país novo. Então resolvi escrever de forma um pouco mais pragmática contando sobre minhas mudanças e meu gypsy heart!

A caneca na minha mão é a mesma: NYU Sister! Ganhei do meu primo-irmão e essa já é minha quarta casa com ela! O chá varia o sabor. A vista muda bastante e até mesmo a família. Aliás, essa varia mais do que eu teria imaginado na minha vida.

Aos 15 anos fui para Rapid City, South Dakota, num intercâmbio de verão. Fiz muitas caminhadas nas montanhas e percebi que não conseguiria viver sem isso. Sem as viagens, sem conhecer lugares novos, sem estar sozinha por mais tempo do que as outras pessoas consideram normal. Foi circulando o Sylvan Lake, e conversando com uma queridíssima amiga de infância que percebi que o que eu mais queria com aquela idade era sair de casa. Não porque ela fosse ruim ou porque eu tivesse problemas com a família, muito pelo contrário, cresci numa casa cheia de amor, incentivo e liberdade, e mesmo com a parte da família mais complicada, a paterna, ouso dizer que dos 15 aos 19 foi o período de maior e melhor convivência!

A vida me segurou junto a família por alguns anos mais, os últimos que eu passaria com eles, e por isso agradeço não ter saído antes. Aos meus 18 nos mudamos da casa onde cresci, com o melhor quintal do mundo e todas as minhas memórias mais queridas, felizes, o lugar que me fez quem eu sou! Não consigo passar 1 dia sem lembrar e falar daquela casa mágica! Daquele casarão que meus avós transformaram em muito mais do que um lar, era o verdadeiro porto seguro da família, o paraíso dos netos, a terra da brincadeira, a melhor escola, o melhor clube, o melhor pomar, a melhor horta. Era nossa colônia de férias, o reforço escolar, era nossa vida! E que privilégio ter tido essa vida naquela casa! Nenhum castelo de conto de fadas faz jus! Lá era melhor!

Fomos para outra casa, ainda os quatro integrantes da família então, eu, minha mãe e meus avós maternos. Essa segunda casa, onde vivi cerca de 4 anos e meio, foi meu purgatório. Nunca gostei muito dela, tinha uma sala grande e escura, janelas grandes demais para abrir e fechar com facilidade nos quartos, a terra do quintal tinha muito plástico e restos de construção misturados, mas fizemos nossa vida da melhor forma lá. E foi morando lá que fiz minha faculdade, foi o lugar onde menos dormi. Foram anos de hospital, foi onde perdemos meus avós. Mas foi também onde meus cachorros, os meus mesmo, não da família, vieram, e foram meu alento. Desse lugar não guardo muito amor. Mas sei que foi útil e compreendo o papel daquela casa e desses anos na minha vida. Trabalhei muito, estudei muito, e tive um banheiro só pra mim pela primeira vez, um luxo muito útil nessa fase de dificuldades e horários loucos.

De lá nos mudamos para a que ficou na minha memória oficialmente como a casa da minha mãe! Como ela morou muitos anos com os pais, e quase toda a nossa vida juntas, essa foi a casa dela. Como já era adulta e já trabalhava, lá pude contribuir, e vivíamos como roomies. Foi quando pude decidir mais sobre a casa, embora não fosse ainda minha casa. É um lugar lindo e até hoje é minha casa na cidade onde nasci. Existe um carinho eterno por esse lugar, pois foi onde me tornei mulher de fato. Onde assumi oficialmente a responsabilidade pela minha vida, e muitas vezes pela dela também, onde recebi meu diploma, onde paguei contas pela primeira vez.

Além disso era uma casa de tamanho perfeito, bem menor do que as anteriores. Isso é um ponto muito curioso. Minhas casas tendem a diminuir. E não só por necessidade, mas por gosto. É o gypsy heart falando. É minha vocação pela viagem, por estar leve. O peso das coisas, as raízes, foram coisas que fui deixando aos poucos pra trás. Morei nessa casa por 3 anos e meio. Saí de lá de forma muito confusa, em meio a morte da minha mãe, e demorei muitos meses para conseguir me despedir do lugar.

Morei depois disso por 1,5 ano com meu padrinho, e recebi muito amor e carinho de todos naquela casa. Tive um quarto cuidadosamente arrumado para mim, e muita liberdade e apoio. Ficou como minha casa oficial. Mesmo depois de já ter saído de lá faz 4 anos, continua sendo meu endereço pra assuntos oficiais, pois como me mudo com frequência, sei que se a correspondência mais essencial chegar lá, serei encontrada! Cresci emocionalmente muito lá. Foi rápido e na marra.

Fui então finalmente morar sozinha. 11 anos depois daquela volta no Sylvan Lake, quando já tinha decidido isso como minha meta pessoal. Montei minha casa de bonecas, num dos menores lugares que já morei. Só não foi o menor, porque morei por 40 dias em Londres num menor ainda! Mas meu cantinho pequenino foi meu lugar de reconstrução. Foi onde mais tive coisas e posses minhas, apesar do tamanho, era tudo meu ali. Ali me recuperei, corpo, alma, mente, tudo! Mudei minha alimentação, li como nunca, trabalhei como nunca, dancei como nunca, pois de fato não tinha ninguém olhando. Lá aprendi o prazer de estar sozinha. De chorar em voz alta, berrar, de rir só, de ouvir a música que quisesse, de usar a roupa que quisesse ou nenhuma. De ficar horas calada contemplando a janela. Lá me achei como nunca. Se houve um lugar que fui JuReMa, da forma mais plena, foram naqueles 20m2.

De lá fui pra outra cidade, juntei as escovas de dente. Morei em dois apês em SP. Um por um mês e outro que foi mais que minha casa. Foi nossa casa. Bonita, arrumada, bem localizada, acolhedora. Lar dos amigos. Ali poderia ter morado o resto da minha vida.Morei 2 anos.  Bom, talvez não tanto, pois a cidade grande foi me engolindo, os gritos advindos da balada, o barulho do trânsito, o ritmo frenético da metrópole foram acordando no meu coração a necessidade de seguir andando.

Vocês já viram o filme Chocolate? Se não, vejam! Hoje! Eu sou assim, se o vento bate torto, eu tenho que segui-lo. Durante muito tempo achei que uma hora uma pessoa finalmente me faria sossegar. Quebrar minhas amarras com o passado e sossegar. Mas foi o contrário. Encontrei outra alma nômade, perdida por aí enquanto andávamos, nos procurando e procurando seja lá o que for que tanto procuramos nessas andanças.

Me casei, de papel passado, para poder viajar mais, ir mais longe. Não foi pra sossegar. Em vez de comprar uma casa e fazer uma lista de presentes, vendemos tudo o que tínhamos! Casamos para partir! E cá estou, em uma nova casa. E sabe do mais incrível. Ela já tem data marcada pra não seguir sendo nossa. Os planos ainda estão disformes, ainda existem burocracias e necessidades, mas não creio que será meu lar por mais de 1,5 ano. E assim posso dizer que em 13 anos, desde os meus 18, vivi em 8 casas, fiz mudanças grandes, mudanças pequenas, às vezes fui com a roupa do corpo e mais uma mochila, às vezes paguei caminhões e levei tudo. Uma coisa se consolidou com força e certezas inigualáveis, minha casa é onde meu coração está.

Não sou do tipo de gente que coleciona coisas ou conquistas, sou do tipo que coleciona memórias e lugares no mapa! Sou agoniada por natureza, nasci antes da hora, de 7 meses, e sinto que estou sempre assim, uns meses adiantada, uma vida atrasada! Quero poder seguir andando e ver o que esse mundão tem pra me mostrar. Quero conhecer os lugares pela inclinação do sol e as estações pelo cheiro do ar. Já não tenho problema nenhum em ter poucas coisas e quanto menos tenho, mais acho que possuo em excesso. Agora estou sonhando com uma vida ainda mais nômade. Quero poder não dormir duas noites no mesmo lugar. E assim sigo. Inquieta para os que olham de fora, mas cada vez mais segura de mim! A certeza de que essa sou eu, e que me comporto assim mesmo. E que não busco nada para substituir, apenas para ampliar.

Já achei que estivesse buscando aquilo que faltava. Hoje sei que não me falta nada, nunca faltou. Só faltava essa certeza. Sempre tive e sempre terei tudo o que preciso dentro de mim. Mas preciso continuar seguindo. Essa sensação de que o mundo todo é minha casa e de que me sinto bem e a vontade onde quer que eu vá é a melhor. Quando lugar nenhum é a sua casa, mas todos os lugares são, essa sim é minha grande conquista! Saber disso é o que me traz paz.

Há claro o período de adaptação, conhecer os eletrodomésticos novos, aprender os novos horários, descobrir os melhores mercados, e aí, quando estiver bem conhecido, rotineiro e seguro, aí a gente pega a vida e sacode, joga tudo no ar e vamos descobrir onde tudo caiu, junto e misturado, como as novas runas que indicam um novo caminho. Aprendi que essa incerteza não é triste e nem solitária, a incerteza é minha maior certeza!

Não se assuste mundo, por favor. Algumas almas são nômades. Algumas pessoas precisam ir e vir para conseguir continuar vivas. Deixar pra trás não significa não gostar, apenas o impulso de seguir que é mais forte. Sempre achei que essa minha necessidade me faria muito solitária, mas hoje, além de ter encontrado outro nômade, descobri que só coleciono amigos, trabalhos, pessoas, locais, como quem coleciona jogos americanos novos a cada primavera. Algumas coisas não mudam, outras mudam todos os dias. O sabor do chá na caneca muda sempre, essa caneca já está comigo há 4 casas! E talvez não esteja na próxima, ou talvez esteja, mas o hábito do chá certamente estará. Minha certeza hoje não está nas coisas, em nenhuma delas, está em mim!

Quem é Juliana? A menina da caneca roxa? Dos óculos vermelhos? Não ou sim. Mas a Juliana é certamente aquela que ama chá, a vegetariana, a brasileira, a que ama livros, a que faz Yôga, a que fala demais e alto demais, a que chora pela família que já se foi 1X por mês, a que gosta de viajar. E para ser assim, para ser eu mesma, posso e devo ser em qualquer lugar!

Quantas casas contabilizarei até o fim dessa década de vida que só começou? Pretendo bater meus recordes! ❤

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