Pic Negre e Calm de Claró (ou quase) – trilha 5

25/12/16

Essa foi a primeira trilha que fizemos que não alcançamos o ponto final planejado. Também foi a primeira que fizemos em altitude superior a 2.500m e em neve funda, o que significa pra cima do joelho. Esses 2 fatos estão intimamente relacionados! O trajeto planejado foi:

La Rabassa/Naturlandia cota 2.000m (1) – Refugi de Roca de Piners (2) – Coll de Pimés (3) – Coll de Finestres (4) – Pic Negre (5) – Calm de Claró (6).

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La Seu – Sant Juliá de Loriá – Naturlândia cota 2.000m (trecho de carro)

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Não chegamos a completar a rota, fomos da primeira bandeira em baixo até um pouco antes da bandeira onde as trilhas bifurcam. E rodamos por alguns picos e elevados que não estão marcados, mas nesse trecho. (trecho à pé)

1 – Fomos de carro até o parque Naturlandia. Existem 2 núcleos, um a 1600m e outro a 2000m. É fácil saber onde parar o carro porque a estrada simplesmente acaba no segundo núcleo! A saída sendo feita já desta altitude permite começar a trilha já num ponto bem avançado da subida, mas também torna o problema da aclimatação bem sério. Não é tão simples assim respirar enquanto se sobe centenas de metros já deste nível.

O parque em si é bem simpático, com atrações típicas de neve e um pequeno zoológico de fauna local. Também comporta um tobogã imenso que desce de um núcleo a outro, mas ainda não tivemos a oportunidade de tentar a descida. As rotas são bem indicadas, mas depois de certo ponto a sinalização vai desaparecendo rapidamente. Temos a intenção de voltar aqui e aproveitar um pouco mais a região.

2 – A trilha segue até o refugi bem tranquilamente, onde há um local livre para qualquer um dormir e uma área fechada, não sabemos exatamente a finalidade. O local é absolutamente maravilhoso, mas as pessoas que parecem frequentar aparentemente não querem preservar isso. É possível perceber que a casa em si recebe cuidados frequentes, pois há lixeiras a menos de 20m e uma caixa de medicamento de uso livre, mas ainda assim há muito lixo recente pelo lugar, inclusive de forma deliberada, como um maço de cigarros atirado no teto. Uma pena que nem todos saibam preservar um bem público tão valioso assim.

3 – Seguindo pela estrada que passa por trás do Refugi, logo há uma bifurcação indicando locais realmente longes! Pelo verão imagino que o pessoal caminhe por dias nestes locais. Se nos mantivermos à esquerda, uma descida suave seguida de uma subida ainda mais leve atravessam o Coll de Pimés. Neste trecho, um rio chamado Rec de Caborreu divide Andorra e Espanha, e a neve do lado norte do vale derrete com o sol e forma poças de lama consideráveis. Apesar disso, as colinas são simpáticas e um pouco mais a frente a vista se abre do lado espanhol de maneira a revelar vales e serras ao sul.

4 – A trilha faz uma curva à esquerda e então podemos ver o tamanho da encrenca que vem a frente. Aqui começa uma subida desumana por uma estrada deplorável. Serão centenas de metros na vertical impondo escorregões, deslizamentos e muito cansaço. A trilha para jipes faz uma curva para a esquerda em um certo ponto para evitar uma subida mais íngreme, mas os pedestres podem seguir pela encosta mais inclinada. O tempo todo uma colina relativamente suave fica à esquerda e um vale acentuado à direita. As pausas para tomar fôlego podem ser aproveitadas para observar a Espanha tomando distância.

Eventualmente a estrada faz uma curva para a direita. Daqui fica difícil saber para onde ela vai nessa época do ano. A neve começa a tomar profundidade a cada passada. Contornando uma pequena colina e virando para a esquerda, desponta o Pico Negro (Pic Negre), que em outras estações parece ser definitivamente negro, mas não por agora. Neste trecho tivemos a maior dificuldade: a trilha some, e mesmo que não sumisse, acompanhar qualquer caminho aqui era desafiador. Caminhamos até a encosta oeste, à esquerda e pegamos uma boa vista do vale e um vento desumano. De lá, resolvemos arriscar (ou eu resolvi e a Ju se resignou) subir um pouco mais. (Ju falando: Com neve até às coxas e já tendo engatinhando pra sair dos buracos, eu só ouvia o André gritar: “Pro pico, vamos pro piiiiiiico! Tá perto! Olha o piiiiico!” Aí me resignei né!) O caminho foi lento, buscando as áreas mais fáceis de passar na imensidão branca. A região era relativamente plana, e ficamos ziguezagueando em busca da pouca vegetação que ameaçava brotar e indicava neve mais rasa.

Com isso, desviamos do pico negro e chegamos a uma espécie de mirante sem nome, com várias pilhas de pedras feitas por viajantes anteriores. Vimos do outro lado de um vale escarpado o Calm de Claró, um imenso platô com direito a antena em cima, e para baixo do vale vimos um trecho de Sant Juliá de Loriá. A trilha parecia seguir pelo vale do lado oriental, mas o bom senso gritou para nós que a hora de parar já havia passado há um bom tempo (Aleluia!). Assim começamos a nossa volta, que testou todas as nossas articulações ao longo do caminho.

Notas: 1 – Essa trilha teve uma série de encontros aleatórios divertidos. O primeiro foi com um ser metamorfo que em vez de se transformar em lobo, se transformava em algum tipo de cérvideo. Daí o apelido homem-cervídeo que lhe demos. O rapaz com pernas absurdamente longas e finas saltava dois metros por passada na neve (sério, eu acompanhei as pegadas!) e fez em minutos o que fizemos em horas. Enquanto subíamos, ele já voltava e desceu o vale de Coll de Finetres sem nenhum escorregão, apesar das distâncias e da abertura pélvica de seus saltos! (O homem-cervídeo é meu novo ídolo místico das montanhas! Incrível o que aquele ser fazia!)

2 – Quando decidimos descer a colina, um elemental do ar se manifestou na encosta oposta. Um redemoinho de uns 10 metros de diâmetro se formou majestosamente, percorrendo uma distância considerável até se desfazer. O barulho do vento e a visão privilegiada da formação do dito cujo fez com que a Ju pedisse permissão para regressar para os elementais que habitam a cordilheira axial dos Pirineus. (Foi o máximo! Um privilégio estupendo ver aquilo! Pense num Sací de frio gigante! Garrafa não dava conta daquele não, seu Monteiro).

3 – A estrada congelada do trecho final fez uma excelente rampa para um esquibunda na neve! Eu empurrava a Ju e logo depois me jogava, fazendo com que o trecho em que o atrito aumentava se tornar um ponto de trombada. Subimos o trecho uma segunda vez para fazer isso de novo, e se eu tenho algum arrependimento com essa trilha foi de não ter ido uma terceira vez… (o esquibunda foi A MELIOR parte! Rolei de rir! Sério pessoas, façam isso! Deixem a criança interior de vocês bricarem na neve e no gelo! A gente morre com a umidade, mas se diverte horrores!).

*(comentário em roxo são de autoria dessa JuReMa que geralmente vos fala! Que além de autora de outros posts é editora e resposável pelo layout, mapas e fotos dos posts do André)

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Crânio de algum animal que encontramos pela trilha. Parecia um cervídeo.

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