Sobre o Natal

Sentada na biblioteca magnífica de La Seu, vendo o sol entrar pela janela cilíndrica da ruína de uma igreja que esse edifício foi antes de ser a Biblioteca Sant Agustí, penso na distância. Muitos temos falado aqui sobre as viagens, a trilhas, as dicas, e nisso o Natal passou, o Ano Novo é amanhã e eu fico aqui, com minhas reminiscências, sem tempo de processá-las, sendo que elas nunca me abandonam. Nem quando estou enrolada em cobertas no sofá da sala, analisando a luminosidade que invade esse local ainda desconhecido que chamo de casa, e nem nas trilhas, enquanto as coxas doem, a água invade o pé, vindo da neve que entrou e vai derretendo com os passos e o fôlego falta nas lentas subidas em altitude.

Passei meu primeiro Natal longe do Brasil. Confesso que passar um natal no frio, vendo a neve e comendo cookies com leite foi realizar um dos sonhos de infância, e me sentir num filme ou seriado americano, daqueles que a gente tanto vê, imita com neve de isopor e algodão, e acaba passando a festa suando a maquiagem no vestido de alcinha na sala da vó ou da tia. Essa parte foi muito bonita. Mas nem de longe me tocou como eu esperava. O que reviveu dentro de mim foram sentimentos profundos, nem todos muito bonitos, e pensei muito se iria expô-los aqui ou não, mas decidi que preciso.

Natal pra mim sempre foi a festa da casa da Vó! Nunca me importou que faltasse a neve, porque tinha piscina! Nunca me importou que faltassem as frutas vermelhas do hemisfério norte, porque tínhamos nectarinas!  E mais importante de tudo, tinha a parte de pintar pinhas e cascas de árvore em spray dourado com minha vó, e arrumar uma mesa antropofagista e cheia de Tropicália, e de artesanatos manuais, que barateavam a festa pro bolso dos meus avós e ocupavam as crianças, nos envolvendo numa produção local de dias. Os embrulhos e laços eram por nossa conta. O dia de montar a árvore era um evento. O dia do presépio outro.

Esperávamos o dia que os primos podiam dormir em casa e fazer tudo junto. Nunca vou esquecer do céu incrível pintado em papel pardo, feito pela tia e artista plástica Monica, cheio de cores lindas, e iluminado pela instalação elétrica do vô André que garantia a luz da estrela-guia aos Reis magos, afinal, estávamos na casa dos Reis. Eu costumava ir para a sala a noite no mês de dezembro só pra admirar tudo no escuro antes de dormir. Às vezes minha mãe me achava lá. Me oferecia um pouco de sorvete e ficávamos abraçadas em frente às luzes de natal, no calor dos tópicos e do nosso amor.

Esse tempo acabou bem antes da neve chegar.

Com as internações, doenças e mortes, esse natal tropical, familiar, coletivo, onde cada um levava um prato e tudo era muito unido, foi se desfalecendo. Algumas pessoas na família foram assumindo as responsabilidades, e as coisas foram ganhando outras caras, outras cores. Alguns natais foram muito bonitos, mas se perdeu muito daquela coletividade, e dessa coisa simples, até tosca, caseira, remendada, feita com as mãos, que na verdade eu tanto amava!

Os natais ficaram mais profissionais. Os presentes já vinham embrulhados. Eram bons, de loja. Não eram os repasses loucos da minha vó, que ganhava presentes ao longo do ano e guardava pra dar pra outros depois. Nem as coisas que ela mesma fazia, como bolsas e casacos de tricô, gorros e luvas, ou os brinquedos caseiros feitos da oficina do vovô. Ou potes de doce. Eram coisas “de verdade”.

A decoração também vinha pronta. Comprada na loja, quiçá mais barata que artesanato caseiro. Não era mais a guirlanda feita à 6 mãos, por 3 gerações de mulheres, que entrelaçavam pedaços de cipreste do jardim, com fitas vermelhas e pinhas pintadas de dourado. Com bolinhas de isopor fazendo às vezes de neve. Nem as árvores malucas, criadas pelo nosso inventor de carteirinha, como uma que era um enorme cilindro feito de tela de galinheiro, recheada de galhos de cipreste podados da cerca de casa, com uma estrutura interna para a iluminação, e mil tipos de bolinhas (vidro, isopor, metal, plástico) que se acumularam ao longo de décadas numa caixa cheia de bolinhas de isopor. Só de bater o olho dava pra ver umas de vidro pintado em rosa e dourado e com listras com cara dos anos 60 e 70, e umas que mais pareciam bolhas de sabão azuis de plástico translúcido, recheadas de “neve” bolinhas de isopor e conectadas pro laços em tecido xadrez, com aquela cara de anos 2000.

A comida não era mais “cada um trás um prato” e sim uma bela encomenda profissional. E a bagunça da cozinha, as receitas de família, os custos e as contas que seu André fazia pra ver se ia dar, a porca do Cícero, que tanto nos assustava, mas que chegava todo ano. Isso tudo ficou pra trás. Ficou mais fácil. Mais adaptado pra vida moderna, onde as crianças cresceram e agora todos trabalhavam. Tinham dinheiro e não tinham tempo.

E aí piorou um tantão!

Respiro fundo pra não chorar em público enquanto escrevo, e ao olhar pro lado vejo algumas meninas de não mais de 12 anos que chegaram com seus casacos de gominho (tipo boneco da Michelin) cor-de-rosa, pra usar a biblioteca, todas tão acostumadas com essa maravilha pública daqui, fazendo trabalhos de férias escolares em grupo!

Mas vamos lá, que ainda falta um tanto de memória e outro de emoção.

Sem a vó, sem o vô, e depois sem minha mãe, fiquei sem meu natal de vez! Claro, minha família é enorme e nunca faltaram convites dos tios e tias para passar com eles. Mas todos pararam de se reunir da mesma forma. E eu me senti um apêndice. Foi ruim e doeu mais do que imaginam! Não foi culpa de ninguém e eu tinha 10 opções de casas pra ir, nenhuma era minha! Não com aquele sentimento. Eu tava lá e as pessoas me queriam lá, mas tinham o natal comigo e os arranjos próprios de cada núcleo familiar. E a preocupação de com quem eu ia ficar. Isso foi em minando por dentro.

E eu senti necessidade de me afastar. De criar meu natal. Em 2014, antes de ir pra São Paulo, convidei meus irmão pra fazermos uma ceia nossa. Meios irmão que somos, não passamos a infância juntos e nunca tínhamos passado o natal juntos, ou pelo menos não como programa principal, só em passadas rápidas entre outras casas. Meus irmãos estavam sem filhos no dia, cada qual tinha ido ficar com as famílias maiores e mais cheias de primos e de sentimento natalino. Fizemos uma ceia vegetariana em minha homenagem. Comemos horrores. Minha Monnita, amiga do coração, levou um chocotone de morrer de bom.

Não doeu tanto porque foi novo, e com isso menos perceptível a falta dos que não estavam ali. Mas ainda assim, não tinha o mesmo gosto de natal.

Em 2015 passei o Natal em São Paulo, com a família do meu então ainda só namorado, André. Foi um Natal em família, simples e bonito, com direito às tradições todas. Não tinha crianças. Os mais jovens estavam todos no celular o tempo quase todo. Aquele sentimento de comunhão da infância também me faltou. Me senti de novo um apêndice. Uma “estranha no ninho”. E vejam, não foi por falta de recepção calorosa. Mas existem tradições, que toda família tem, e que quem vem de fora, não pega, não entende, não faz parte da piada interna.

E aí temos 2016. Outra terra, Mundo Velho, neve e uma grande dose de solidão. Só eu e meu marido. O primeiro natal dele longe da família, o que também pesou um pouco pra ele. Não sabíamos bem o que fazer. Sendo ambos vegetarianos nem fazia sentido aquelas comidas tradicionais, além disso, só duas pessoas, ia sobrar pra vida inteira, mesmo que optássemos por algo sem carnes. Comemos muito bem. E uma comida especial, mas algo que fazemos com alguma frequência. Não tinha exatamente cara de ceia de natal.

Nada no dia indicava natal. Não tinha presente, árvore, excitação, crianças, ninguém esperando o Papai Noel, nenhuma visita que chegaria depois. Nada. E aí saímos de casa.

 E a cidade estava em festa! E as luzes de natal estavam por toda parte! E a catedral estava aberta. E tinha Minairons passeando por aí! E uma enorme fila cheia de famílias com crianças, que passavam pela praça dos Minairons, que catavam em volta da fogueira sobre o espiríto do natal, que tinha mais a ver com o inverno e as pinhas do que com o papai noel vermelho da coca-cola. E uma mesa gigante com chocolate-quente e pão doce, simples e gostoso, sendo distribuído. De graça. Presente da associação comercial e da prefeitura para a população. E todo ali na rua. Com ou sem família. Cheios de cachorros. Com luzes, com música, com comida. Depois entramos na catedral, e mesmo sem ser católicos aproveitamos para admirar a arquitetura e os ritos, aqui tão medievais, envolvendo inclusive espadas durante a Missa do Galo.

Fui pra casa aquecida, na alma. Apesar do frio nas bochechas. Sentamos e conversamos. Tomei leite com cookies. Fiquei no sofá. Bateu uma certa solidão? Sim. Mas pelo menos a falta dos que ali não estavam era clara e generalizada e não apenas aquela ausência profundamente ignorada dos anos anteriores. Não apenas a ausência da minha família, daqueles que já não estão entre nós, mas a ausência daquele natal, aquele dos artesanatos e das comidas e dos presentes inventados.

Era só a ausência dos vivos mesmo. E essa com whatsapp a gente remedeia. Fazem falta. Claro! Mas pra mim doeu menos. Pode ser que seja egoísmo? Talvez. Mas talvez eu precisa de natais assim pra conseguir voltar e sentir que há alegria e comunhão. Não é só a falta da família. É também a falta do sentimento de comunhão do natal. Não foi exatamente um natal feliz, mas foi um natal bonito. E eu vi comunhão de novo. Entre estranhos.

Não teve presente, mas vivemos o presente, e não o celular e a distância! Não teve ceia, mas teve couve-flor com queijo gouda, chocolate-quente e pão doce, e cookies e leite! Não teve fartura, mas teve coletividade! Dormimos cedo, nos escondendo do frio em baixo das cobertas. E meu coração aqueceu!

Feliz Natal e Bom Ano Novo! Que venha 2017, com suas descobertas.

 

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