La Seu es Seva – Trilha 3

Antes de falar da trilha, queria fazer alguns esclarecimentos. Estava empolgado pra descrever as duas primeiras trilhas e pulei alguns passos. É importante informar sobre o mapa que tenho utilizado. É um mapa de excursionistas de Alt Urgell, pode ser encontrado em livrarias. Pertinho da Plaza Catalunya, em La Seu d´Urgell mesmo pode-se comprar um por 6 euros e alguma coisa. As trilhas (onde só se pode ir a pé), estradas (permitem passagem de carros) e pontos de referência que uso são a partir desse mapa. Na trilha 1, por exemplo, dei como referência a altura de um pico, para melhor localização de acordo com o mapa. Tem coisas nele que não estão corretas, mas no geral tem sido extremamente útil. Dito isso, podemos dar continuidade!

mapa-la-seu

Trilha 3 – 10/12/16

Roteiro – Bescarán (1) – Riu de Bescarán (2) – Paluc (3) – Refugi del Coll de Midós (4)- Coll de Midós (5) – Coll Jovell (6)

Essa trilha começa já em Bescarán. Não acho que seja possível fazê-la em 1 dia a partir de La seu d´Urgell, a não ser que você tenha uma velocidade e resistência excepcionais e esteja andando no solstício de verão! Um carro ou uma carona serão necessários aqui.

1 – A vila de Bescarán é simpática, mas não encanta como Arcavell. Durante a manhã a cidade é sombreada pela montanha atrás dela, deixando o frio de dezembro ainda mais agudo. Algumas casas estão bem reformadas e parecem ser de quem tem o suficiente para ter uma segunda casa, mas outras estão decadentes ou reformadas sem a preservação do estilo local, o que quebra um pouco a magia. Eles tem, porém, uma torre de estilo lombardo que sobrou de uma igreja do século XI ou XII! Infelizmente eu não tenho nenhuma foto boa da torre. Um ponto interessante que pude perceber aqui é que as construções de pedra antigamente eram rebocadas. Uma das casas ainda tem restos do reboco. Parece que a intenção de expor as pedras é mais recente.

Campanar de Sant Martí.jpg

Campanar de Sant Martí – construída no ano de 914 d.C.

2 – Saindo pelo norte da cidade, a parte mais alta, há uma trilha bem marcada. Ela anda muito pouco até bifurcar, aqui o caminho da esquerda parece ir em direção a Andorra, mas meu plano estava em subir à direita. Depois disso, é só manter à esquerda por um bom tempo! O começo da trilha beira um vale bem fundo, com o som da água corrente e vista para um cachoeira do outro lado. A subida segue acentuada até uma passagem daquelas que impede a saída de gado e uma seringa para gado também. Aí sairemos em uma estrada. Mantendo à esquerda, essa estrada segue por uma boa distância, eventualmente se aproximando do Riu de Bescarán o suficiente para descer e colher água ou apreciar a vista. Do outro lado do rio há algumas casinhas bem preservadas. Quando passei, o trecho todo de estrada estava entre gelo e neve. O gelo reduz a velocidade e há um grande risco de escorregar. A neve alta só reduz a velocidade e cansa um pouco. A neve baixa é uma delícia de andar! Eventualmente, a estrada serpenteia pra cima. Eu tentei cortar caminho por fora da estrada, mas me arrependi. A neve fofa acabou com meu fôlego! Esse trecho todo até aqui é feito na encosta norte, o que significa frio!

3 – Quando a estrada contorna o Pico Paluc, a vista se abre para o sol e para os vales abaixo! Há uma casinha de pedra bem junto a estrada, quase impossível de não ver. Só não digo impossível porque eu não vi. Voltaremos nela mais tarde. Se você seguir a estrada do lado sul, eventualmente você se afastará do Pico Paluc e irá na direção de Cerdanya, a província mais a leste. O pico mesmo não tem trilha que leve a ele e imagino que seja território de caça. Ele não faz exatamente um pico, mas há uma clareira mais larga em seu topo. Eu subi pela encosta mesmo, a passagem é bem limpa e a inclinação não é um impeditivo. Fora da trilha é possível ver sinais de cervídeos, como patas na neve e fezes em síbalas. Em um trecho, foi possível perceber que uns 2 ou 3 deles estavam correndo quando passaram. Também parece haver javalis, mas ainda não sei identificar tão bem os rastros! O topo tem uma vista incrível para o sul e sudoeste, sendo possível ver até o aeroporto e Castelciutat (La Seu fica escondida atrás de uma serrinha), mas do lado norte as árvores bloqueiam a visão pras montanhas de Andorra. Ainda assim, é lindo e a neve entra no seu tênis de tão alta em alguns trechos. Aliás, vale reforçar, vá com calçados confortáveis!!!

4 – Descendo de volta até aquela casinha de pedra, temos um local perfeito pare ler Toureau ou Hemmingway. O refugi de Coll Midós estava trancado, mas sua vista para o oeste dá um panorama incrível. A construção é muito simpática e a estrutura em volta para lidar com gado cria uma imagem curiosa do que o trabalho e o isolamento deveriam ser em outros tempos, ou pelo menos no verão. Há um cocho com uma água limpíssima e, agora no fim do ano, com gelo cobrindo algumas partes da água. Num mundo paralelo perfeito, eu moro aqui com um Bernesse e trabalho de lenhador ou guarda florestal. Um excelente lugar, não interessa pra quê.

5 – A descida eu fiz fora da trilha, descendo exatamente para sul. Supostamente há uma trilha ali, mas eu não vi nada. Mas também o caminho é bem suave. Parece que tem uma trilha que desce do refugi mais para oeste, mas eu não fui checar. Saí numa estrada que faz parte da trilha de Sorri, uma trilha que se sobrepõe a essa minha algumas vezes e que é bem demarcada. Virei a direita (oeste) e segui a estrada. No mapa diz que há um Dólmen de Coll Jovell no caminho, mas eu não vi nada. Esse trecho todo é um bosque com uma estrada bem aberta, apesar de pouco usada. Depois descobri que ali é fechado pra carros (não fiz muitas perguntas quanto a ser fechado pra pedestres), mas que passam caminhões e há extração madereira. Diferente da primeira trilha, eles não devastaram o bosque todo, mas tiraram algumas árvores somente. Fiquei refletindo sobre a necessidade da geração de empregos e produtos contrapostos à exploração do ambiente. Me pareceu uma saída viável usar a área daquela maneira, mais responsável.

6 – A única bifurcação dessa estrada eu mantive à esquerda. A trilha estava com bastante neve, mas nada que atrapalhasse o caminhar. Depois de alguns quilômetros, saí exatamente onde estava a seringa para gado do trecho 2. Ali havia a placa de proibido passar, estipulando multa e tudo, e eu estava voltando “por dentro”. Mas me pareceu seriamente que isso se destinava a carros, até porque havia mais pegadas na neve nesse trecho todo (parecia de um casal, pelos tamanho, formatos e disposições). Dali tomei o mesmo caminho de antes até Bescarán, marcado como 30min a pé, pois a estrada estava sinalizada como mais 5km.

Resumindo, adorei essa trilha, caminhar pela neve foi uma experiência nova e encantadora, e a vista também foi incrível. A combinação da montanha com a neve deu uma sensação curiosa, de felicidade sem alegria. Eu não estava querendo rir, brincar, contar piadas, só estar ali, ouvindo o barulho da neve sob meus pés. As cores e os cheiros acalmavam e davam uma sensação de plenitude. Pensei muito sobre os primeiros povos a viver ali. Não à toa as primeiras deusas e primeiros deuses controlavam a natureza e seus elementos. Este final de outono também é um período interessante, a vida parece estar se despedindo do sol e preparando pra se esconder. Tudo é silêncio e recolhimento.

As montanhas e o frio sempre abrigaram seres mitológicos, mágicos. Os da montanha sempre foram trabalhadores, industriosos. Os do frio tendiam a ser perversos e sorrateiros. É possível entender tudo isso, a vida nas montanhas antes das facilidades modernas devia ser penosa, e o inverno devia colher pessoas como as pessoas colhiam as abóboras na estação anterior. Hoje, liga-se o aquecedor, move-se de carro, alimenta-se do supermercado. Ainda bem que pudemos enquanto espécie facilitar nossas vidas, mas estar em contato com esses elementos até instintivos da nossa espécie é ainda impactante.

bescaranbescaran-12

Bescaran 13.jpgbescaran-11bescaran-10bescaran-9bescaran-3bescaran-4bescaran-5bescaran-6bescaran-7

Coll de Midós.jpg

bescaran-8bescaran-2

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s