Você

São meia noite e meia, quase, estou de pernas cruzadas na cama, e, ao digitar, receio que o som do teclado sendo atingindo de forma rápida, faça mais barulho do que a madrugada me permite. Não estou mais acostumada a não estar só, e por outro lado é tão estranho estar sem você. Correndo o risco de atrapalhar, fui obrigada a acender a luz, embora de porta fechada, e quebrar o silêncio sagrado da noite, pois meus dedos precisam falar. Dizem que sentimentos negativos, dor, ausência, raiva, tristeza, saudades, são os melhores combustíveis para a criação, e talvez estejam certos. O blog aqui é certamente prova de que as reminiscências ficam em baixa quando estou com você, ocupada e tenho com quem conversar. É na solidão que os dedos ficam aflitos.

Em relação à produção artística, creio que é uma questão de estilo. Para os momentos de emoções positivas, felicidade, superação, empreendedorismo, é necessária uma outra abordagem, receitas, viagens, formas de compartilhar amor e alegria com os demais. As reminiscências são para quando meus ouvintes não estão por perto. A ansiedade tem sido grande. Como sempre, recorro a várias fontes, massagens, chás, livros, séries, passeios com os cachorros, trabalho dobrado, e, imagine só, até exercício.

Nessas noites, me vem à cabeça as músicas que você me mandou. Afinal, a música é, talvez, a única que perpassa as emoções de todos os tipos, sendo útil para compor essa trilha sonora da vida, em todos os momentos. Apesar de sempre ter tido esse sono pesado e profundo, que você tanto comenta, elogia, inveja, que até mesmo te atormenta, nos momentos em que você preferia me ver desperta, eu nem todos os dias durmo tão bem assim. Uma parte é de nascença, outra de tranquilidade e rotina cuidadosamente criados ao longo da vida, mas uma parte foi você. Você tanto insistiu para que eu baixasse a guarda, deixasse minhas armas e armadura de lado, e te aceitasse, que finalmente me vejo um tanto quanto vulnerável.

Nesses últimos dois anos, senti ansiedade algumas vezes, muitas até, mas você estava ali, com o peso do seu braço sobre meu corpo, e eu não queria me mexer, para não te acordar. Eu queria aproveitar aquele momento de paz, e assim a paz vinha, e nem 5 minutos depois eu estava dormindo. Agora, nesses últimos dias percebo a falta que aquele braço me faz. Sozinha eu posso simplesmente me deixar dominar pela inquietude, acender as luzes, e, depois de rodar na cama por meia hora, simplesmente digitar furiosamente na madrugada.

Existe algo que vai além das conversar gostosas, dos valores que admiro, da companhia boa. Tem algo no cheiro, no jeito de aninhar. Alguma coisa que me fez confiar. E aproveitar esse momento, abrir minhas asas de verdade, e só deixar. Abrir mão do controle total. E você me testou e testa com isso. Com gosto. Ainda estou aprendendo essa coisa de não ter o controle. Mas tem sido bom. Com você, pela primeira vez, eu fui em lugares sem saber onde estava indo, sem perguntar o endereço antes, sem conferir todas as minhas “rotas de fuga”, sem ter tudo sobre controle. Muitas vezes não saberia voltar sozinha. Mas isso não me preocupa com você, porque aprendi que você me leva só em lugares que valem a pena ir. (Além disso, nessa de ter o controle, também aprendi a achar uma solução mesmo quando não previamente planejada, então também aprendi a confiar em mim, a ponto de saber me virar se desse errado. Quebradas ou não, essas asas tem autonomia de voo agora).

A ansiedade assusta, e os compromissos pendentes também. A incerteza se irei conseguir fazer tudo dentro dos prazos. O medo de algo dar errado. E ao mesmo tempo essa enorme emoção de estar fazendo algo que sempre quis. E que, incrivelmente, você também sempre quis, então vamos fazer juntos. Eu nunca imaginei que teria esse desprendimento todo. E não digo o material, de vender e doar roupas, sapatos, livros. Ah, meus livros quase todos! Digo a de não saber onde vou morar, deixar você escolher nossa casa, carro, vida. Claro que discutimos todos os detalhes, e eu na verdade sei, escolhi junto, vi as fotos, liguei, falei. Mas ainda assim, em outros tempos, ou em relação a outras pessoas, eu não abriria mão do controle total. Mas das minhas ansiedades todas, essa não é uma delas. Mesmo sem saber tudinho, estou tranquila, e não vejo a hora de te ver, e conhecer os novos pedacinhos que farão parte dessa nossa vida.

Sabe, temos a famosa e trágica história da cabra. Ou do cheiro de cabra, do qual fui acusada por você, nas nossas primeiras semanas morando juntos, de ter. Se sobrevivemos a isso, sobreviveremos a qualquer coisa. Mas eu nunca te falei, e, confesso, estou um pouco ansiosa pra verificar agora, depois desse mês longe, sobre o seu cheiro. Desde que te conheci você tinha um cheiro peculiar. Não acho que você vá se importar com essa descrição, depois de ter me dito que eu tinha cheiro de cabra, então vamos lá. Seu cheiro sempre foi algo entre madeira, e mato, com um quê de livro velho.

Imagine só, três cheiros que amo de paixão, mas nunca pensei encontrá-los numa pessoa. Pessoas geralmente ou fedem (me perdoem, mas somos todos mamíferos), ou tem um não tão constante cheiro de toalete refinado, xampu, sabonete, desodorante, perfume. Às vezes, e só às vezes, as pessoas tem outros cheiros, próprios ou das coisas que as cercam. Algumas pessoas tem cheiro de bolo, ou de café. Nos fins de semana meu avô tinha cheiro de graxa e metal. Sabe quando a gente mexe muito com ferro, e fica aquele cheiro metálico na mão? Para mim sempre foi tão característico. Algumas pessoas não sentem. Mas é como carro usado, cada um desenvolve um cheiro próprio. Não é necessariamente bom ou ruim (às vezes é, mas não necessariamente), mas é único.

Quando te conheci você tinha esse cheiro, de livro velho, madeira e mato. Achei que pudesse ser a viagem. Quando te encontrei de novo, vi que não era. Mas quando fomos morar juntos, com o tempo, o cheiro desapareceu. Não sei se eu que me acostumei, ou se o amaciante e os sabonetes novos mudaram isso. Mas acho que não. Nos dias de acampamento, às vezes ainda sentia. E sinto falta. Sempre foram cheiros que me acalmaram. O mato é a tranquilidade. Os livros velhos são a boa companhia. E a madeira é uma certa estabilidade, algo perene.

Antes que me acabe a madrugada, deixo aqui um pedido de desculpas por expor tanta intimidade. E deixo música, como sempre. Bons sonhos para nós. E que os próximos dias sejam leves e breves. Boa noite!

(Minha canção de ninar desde o primeiro boa noite com ela: Blackbird – The Beatles)

(Quando eu finalmente resolvi apostar em nós – Soldier of Love – Pearl Jam)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s