Ando tão à flor da pele

O sol bate em meu rosto. Depois de hesitar algumas vezes, verifico que o ônibus está quase vazio. Uma moça no banco do outro lado do corredor, comendo uma maçã, dois senhores na parte da frente. Um homem de terno uns três bancos à frente. Ninguém atrás. Ninguém pra me observar. Pego finalmente o celular e começo a digitar o texto. Esse é daqueles que vem me consumindo há dias, talvez semanas. Esse é daqueles que preciso cuspir. Vomitar palavras pelas pontas dos dedos. Pauso pra tirar o cabelo do rosto, observo o MIS ao lado. O sol bate gostoso, ainda é inverno e dias de sol são tão raros em SP! Essa é a combinação que me exige expor o texto agora, o sol, que alimenta a vontade de sair por aí, e a música, sempre no fone, onde o Zeca Baleiro afirma sua vontade de chorar e nesse ponto eu percebo o quanto estou à flor da pele! Não vejo novela, mas qualquer demonstração de emoção tem me feito chorar! Seja uma reunião de orientação, uma conversa com o marido (ainda é muito curioso chamá-lo assim), um e-mail, um sonho de padoca, adicionado da culpa por o ter ingerido, ou o brigadeiro negado! Tudo me faz chorar, ou pelo menos ter vontade de chorar. Sim, estou à flor da pele.
O trânsito empacou! Checo o relógio e me pergunto se chegarei na USP a tempo de tudo o que preciso. Não aguento mais precisar tanto de tantas coisas. Como diz o Zeca na minha orelha, não preciso de muito dinheiro, Graças a Deus! Mas cumpro meus compromissos, e agora são 4 meses pela frente de compromisso! Amanhã defendo a quali! Estou mais calma do que esperava. Só torço para não chorar! Essa flor da pele toda me complica muito às vezes!
As passagens estão compradas! Vou ficar quase um mês longe do meu amor, o que aperta o coração com antecedência! Mas vou ficar sabe-se lá quanto tempo longe de todo o resto. E isso aperta mais a boca do estômago do que o coração. Ansiedade! Vontade de ir logo! E ao mesmo tempo aquela expectativa adiantada.
Não é a primeira vez que vou! Longe disso! Sei bem, desde os 11 anos de idade, depois reforçado aos 15, que uma vez que essa mosquinha da viagem pica a gente, já era. É uma doença pra vida. Chega uma mensagem. Paro para responder. É justamente ele, pedindo informações sobre documentos que estamos organizando para as burocracias. That’s it! Agora é diferente. Por vários motivos. Vou sem saber de muita coisa. Quase sem certezas! Mas não vou só! Como a vida da voltas. Já fui várias vezes e todas com a estadia, a volta, todos os detalhes nas mãos. Mas geralmente sozinha. Às vezes até tinha um grupo, mas o sentimento foi encarado só. Nem todos nos grupos são picados pela mosquinha da viagem. Nem todos voltam sem saber seu lugar no mundo, pelo contrário. Para alguns ir mostra exatamente qual o lugar que esse ser de insere, seja aqui ou lá. Alguns são nômades, aliens, E.T.s, peças sem quebra-cabeça. Às vezes acho que quebrei uma parte da minha peça e por isso não me encaixo em lugar algum. Depois lembro que não foi um acidente, fui criada assim. Nessas horas sou Mafalda.
Paro pra pegar um mini Halls cereja sem açúcar. Ainda estamos no trânsito. Essa cidade me envolveu de uma forma inexplicável, viciante, encantadora e desesperadora ao mesmo tempo. Às vezes só quero fugir, ir embora, não ter que enfrentar o trânsito, as horas no ônibus cheio, os preços altos, a pressão inerente à tal da “locomotiva do país”. Às vezes tenho medo desse lugar e das pessoas daqui. Às vezes amo! Amo todas as padocas portuguesas com PFs em toda esquina. Os salgados veganos espelhados por aí aos montes, os casarões velhos, os museus, as exposições, o centro, os imigrantes, os refugiados, a miríade de línguas ouvidas numa volta pra casa de 15 min a pé passando pela Paulista, e, principalmente as pessoas. Amo as pessoas desse lugar! Pessoas inteligentíssimas que conheci aqui, gente com muito amor pra compartilhar, dispostos a ser família um dos outros, já que tantos nesse caos urbano deixaram suas famílias pra trás. Os serviços bem prestados. A Augusta cheia na hora de voltar pra casa a pé à meia noite sem medo!
São tantas sensações! Às vezes não consigo lidar! Bate um sono! Uma preguiça, uma vontade de chorar, um amor, uma liberdade, um medo.
Daqui a pouco o ônibus chega e as palavras ainda não saíram todas. Talvez tenha que acabar de escrever depois. E aí já não sei se as palavras vão colaborar.
Hoje me peguei pensando enquanto fazia o almoço “amanhã é a quali, será que minha mãe vai querer assistir…” E nem consegui terminar o pensamento. Às vezes eu ainda esqueço. Mesmo que seja por 1 segundo. E aí tem as emoções. Sabe, a parte mais importante de ter emoções e poder compartilha-las! E por mais que eu tenha um companheiro maravilhoso, amigos incríveis, uma família unida, tenha acesso frequente a todos graças a tecnologia, e além de tudo o blog, pra compartilhar com o mundo, ainda assim faz falta. Não ter minha mãe, meus avós, meu pai. E os momentos mais felizes são aqueles que projetam as sombras mais longas. No dia-a-dia já nem penso. E quando penso é leve. Tranquilo. Mas nesses meses tenho sentido uma falta que não dói, não gera choro de desespero, é só uma ausência tão presente! E entre uma feira e outra, um almoço e outro, uma aula e outra, a ausência está lá, ao meu lado. Mostrando toda sua falta! E quando recebo um abraço, um elogio, ou uma crítica, vem as lágrimas, tão à flor da pele. Bom, cheguei, melhor guardar o celular e descer do ônibus. Deu tempo, e agora não tenho tempo pras minhas flores e peles. Elas ficam pro próximo devaneio. Pro próximo dia de sol, pra próxima vez que ouvir Cássia Eller, cantando 1 de julho e acrescentando o “meu Chicao” depois de “meu amor”! Só sei que meu desejo é tão grande que nem sei o que. Flores pra nós!

(*texto de 04/08/16, que tava entalado até hoje no celular, eu na dúvida se publicava ou não, por isso o blog acabou sem post na última terça. Ficou pra hoje. Dia de sol e sombras longas. Feliz dia dos Pais ❤ !)

(Vídeos: Ando tão à Flor da Pele – Zeca Baleiro;  1 de Julho – Cássia Eller – acústico MTV)

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