E as ferramentas?

Eu sempre gostei de uma boa caixa de ferramentas. Meu avô era um verdadeiro Dr. Pardal, MacGyver e senhor buginganga. Cresci numa oficina, visitei várias. Durepox, estopa, e voltímetro faziam parte do meu vocabulário infantil. Além de perfunctório! Palavra preferida herdada do super vovô. Além do gosto por ferramentas. Meu gosto por ferramentas só não é maior que meu amor por artigos de papelaria, canetas e lápis coloridos, cadernos variados, papel colorido. Mas o gosto por ferramentas sutis ficou. Ferramentas intelectuais, ferramentas digitais, ferramentas emocionais. Eu sou daquelas que funciona bem se tiver um sistema. Adoro uma novidade. Mesmo que ela seja uma grande velharia, mas que surge para mim como uma grande e “nova” ferramenta.

A música Vagabunda, da Clarice, de excelente qualidade, vai terminando, num fading providencial. Música, é para mim, uma ferramenta. E das mais usadas. Não sei fazer música, não sei cantar, e isso não é charminho, odeio quem usa o charminho como ferramenta, é sério, sou uma negação em música. Mas é uma excelente ferramenta, em vários sentidos, uso para mudar o humor, para manter o humor, como companhia, para me exercitar, para cozinhar (cozinhar sem música é fatal), para estudar, escrever, ler, com fones, para abafar o barulho do ônibus, do trânsito, dos assédios nojentos de rua, para me manter no meu mundo de paz.

Bem no fading encaixa-se meu alarme, lembrando que é a hora do plus do remédio homeopático que estou tomando para uma queimadura de panela, feia, porém feita de forma muito idiota, fazendo pipoca e bolo. Homeopatia é para mim uma ferramenta. Não só no sentido óbvio, de ser usada como remédio e, portanto, tendo um fim claro e útil. Mas é uma ferramenta pois me permite sair do circuito convencional de saúde-doença, é uma ferramenta para o autoconhecimento, já que já passei muito mal com remédios, é uma ferramenta para fugir de efeitos colaterais.

A cozinha, essa mesma que me gerou uma queimadura fazendo pipoca e bolo, olha a criatura besta sem coordenação motora, é uma super ferramenta também. É meu instrumento de saúde, de terapia, de paz, de felicidade. É a segunda forma, além de escrever, de me compartilhar. Mudar minha alimentação, me tornar vegetariana, e, mais que isso, buscar conhecimento sobre a cozinha, sobre meu corpo, sobre as reações, compreender minhas alergias, intolerâncias, preferências orgânicas, e entender que para ser tudo que eu posso e tudo que eu quero ser, cozinhar é uma ferramenta indispensável. Não é só uma questão de comer saudável, ou seguir o nutricionista, é a minha revolução. Física, emocional, psicológica, social, ambiental.

Cozinhar é a ferramenta que me permite comprar ingredientes de verdade, e fabricar meu alimento do zero. Quase não vou mais ao mercado. Aqui é feira e cereais e farinhas vendidos à granel, comprados como matéria base. E me livrar do sistema, por mais besta que pareça, tem impactos imensos. É o que eu como indivíduo posso fazer de melhor para o meio ambiente, para meu próprio corpo, e com a vantagem de que ainda posso compartilhar isso com os outros. Seja como troca de informações, receitas, visitas, comidinhas. Dar uma fatia de bolo para uma visita é uma ferramenta para inseri-la num debate que pode se tornar muito profundo, e que pode tomar muitos caminhos, mas que é sempre revolucionário.

Ganhei um beijo surpresa do meu amor, que veio me dizer que eu sou linda porque eu estava cantando Clarice Falcão. Sim, eu canto tão mal, mas tão mal, que gera reações desse tipo, com direto ao aviso de “não precisa parar de cantar, só vim dizer que você é linda”! Naquele melhor esquema de quando você vê um bichinho muuuuuuuuuito feio e diz que é lindo de tão feio. Então: eu cantando. Entre risos, um pouco de vergonha e muito de liberdade, segui no meu esganiçado tom desconexo.

Hoje foi um dia muito bom, de muito amor. Foi um dia de extrema conexão comigo mesma. Comecei acordando naturalmente, sem alarme, as 8h30, horário incrível, nem cedo demais nem tarde. Bebi água, tomei um limão espremido, botei roupa para lavar, sempre me sinto eficiente quando a roupa está limpa, o cesto vazio, parece que eu venci a história sem fim da vida adulta. Depois taquei o EVA no chão e mergulhei na minha imensidão azul. Pratico Método DeRose, e esse possui inúmeras ferramentas que eu uso todos os dias, que me são tão caras e queridas! Não tenho como falar das minhas ferramentas sem mencionar essa filosofia que me proporcionou tantos meios de ser, plenamente.

Depois li um pouco. Ler: a ferramenta básica da vida. Inclusive compartilhei hoje um meme com esses dizeres, “ ler é a forma de instalarmos um software em nós mesmos”. Perfeita! Sempre lembro de Matrix e daquela forma de instalar habilidades com um plug na nuca. Na real, isso se faz com os olhos e a leitura. Ou com o som, e a audição, mas basicamente com a retransmissão dos conhecimentos acumulados no mundo pelas sociedades. Na sequência rolou um spa em casa, fiz minhas próprias unhas, com direito a bacia de água quente, creme esfoliante de pedra pome, e gel para pernas cansadas. Amo saber fazer minhas próprias unhas.

Almoçamos comida caseira e fresca, o que aqui em casa é a regra e ainda assim me sinto plena a cada refeição por essa constatação. Depois fui para um workshop incrível, cheio de prática, novos conhecimentos e muito amor. Da Alana Rox, do The Veggie Voice. Ela tem instagram, Facebook e etc. Cheia de ferramentas incríveis e pronta para compartilhá-las com todos. Voltei me sentindo leve, apesar de ter comido muuuito! Voltei me sentindo plena. Sentei para conversarmos sobre o dia dos dois, teve massagem no pé, acompanhada de um chá relaxante.

Sim, a vida pode ser muito boa! Quem me conhece de perto sabe que já passei por muitos momentos extremamente tristes e solitários. Quem lê o blog desde o início, ou já leu todas as reminiscências sabe também. Minha vida sempre foi cheia de privilégios, mas nunca foi um mar de rosas. E aprendi muitas lições. E nesses anos todos sempre ouvi dos amigos e familiares mais próximos que eu sou uma pessoa muito forte. Porque mesmo passando por tudo isso, sou uma pessoa “feliz”.

Garanto que tenho muitos momentos infelizes. Mas sim, no geral, posso dizer que sou feliz. E esse sentimento não vem do nada. Vem da construção diária que faço dele com todas essas ferramentas: a música (que me remete sempre à minha mãe! ❤ E também ao meu avô e ao meu pai), a culinária (que me remete à minha avó, e também à Isadora, minha cunhada-irmã-mais-velha, que me ensinou muitas coisas, entre elas o amor pela comida), o cultivo pela saúde (que me remete à minha mãe, inclusive pela forte memória dos problemas graves de saúde e peso que ela enfrentou e que até hoje são subestimados na nossa sociedade), as palavras (seja pela leitura ou pela escrita, essas me remetem à JuReMa, meu pseudônimo literário. Minha essência).

Referências existem muitas, várias que ficaram faltando, inclusive. Meu maior instrumental de vida até hoje se chama André Reis e quem o conheceu sabe que ele era um rol de ferramentas para a vida inigualável! A ele todo meu amor e gratidão. Mas além dos familiares, que todos construíram esse meu rol de ferramentas, adiciono alguns amigos, algumas personalidades, alguns professores, algumas filosofias. Todos esses mudaram minha vida de forma muito mais profunda do que conseguem imaginar.

Último alarme do plus. A queimadura está quase boa já. O álbum da Clarice já acabou e já estou no meio do da Tiê. O ventilador sopra a toalha que está no cabelo em formato de turbante. E a noite segue quente, mas feliz. E meu calor interno está resplandecente com esse dia lindo e cheio de amor próprio e pelos outros. Mas eu queria terminá-lo compartilhando um pouco de toda essa felicidade e desse amor na forma de palavras, como uma retribuição. Que todos vocês saibam, portanto, que minha felicidade não vem do nada, ela é construída, e eu uso muitas ferramentas.

Algo que permeia todas elas e que me faz me sentir incrível é a autossuficiência. É maravilhoso e totalmente empoderador saber fazer minhas próprias unhas, minha comida, arrumar meu cabelo, andar pela cidade sozinha de transporte público, me exercitar em casa, meditar, cantar (ainda que mal), ouvir o que eu quiser. Ser! Essas ferramentas todas são para que eu seja quem eu quiser, quem eu sou, na minha plenitude. E a JuReMa agradece. Ela sou eu, e além de ferramenta, ela é realização. Obrigada! ❤

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