Horta

Aquela preguiça de domingo pairando no ar. Acordei com ele vindo do banho, aquele cheiro bom de manhã no ar. Abri a janela e o sol me deu bom dia. Enquanto ia para a cozinha, ele soltou as ratinhas, Marceline e Jujuba, que percorriam a sala, uma em saltos rápidos, a outra com sua calma exploradora, cheirando os cantinhos, comendo banana na nossa mão. Depois de fazer um chá e uma vitamina, voltei para me sentar ao computador, rotina infalível, e me dedicar à leitura de alguns textos referentes ao mestrado. Não, pós-graduando não tem domingo, nem segunda, nem quinta. Todo dia é dia. O bom é que dá pra conciliar com outras atividades também. Sentei ao computador, li os e-mails do dia. A vitamina na boca, e eis que ouço um “Ju” quase baixo, como quem fala com bebês, “vem ver” e fui.

rucula

Na horta os primeiros brotos apareciam entre as pedrinhas. Na calha de cima as primeiras a dar bom dia foram as rúculas, na calha de baixo um tímido broto de rabanete se desenrolando lentamente de dentro pra fora. Me senti uma mãe orgulhosa. Nossa horta brotou. Tive que documentar o momento desses nascimentos, tirando fotos. Depois voltei para o computador, para a vitamina e o chá e todas as outras coisas do meu dia-a-dia, mas fiquei pensando, eu podia fazer algo diferente. E aqui está! Apesar do tom narrativo que me acompanha nesse blog, esse é um post bem diferente, porque resolvi fazer um DIY (Do It Yourself) ou FVM (Faça Você Mesmo).

Desde que vim para São Paulo que nosso sonho conjunto é ter uma horta em casa. Mas sabe como é, apartamento pequeno, pouco sol, pouca luz, vida urbana, prédios altos, ruas estreitas. Em janeiro, visando algumas mudanças na casa, reposicionamos móveis, abrimos espaço na sala e aí a ideia da horta voltou. Voltou, e voltou forte, de verdade, não mais como uma ideia que existe na cabeça, mas com ares de planejamento real. Devorei o Pinterest (sim, tô lá também, quem quiser é só seguir!) coletando mil referencias de horta urbana e horta vertical. Li alguns blogs, ficamos sonhando acordados, pensando em viabilidade, preço, disponibilidade de materiais, luz, e disposição dentro da casa. Virei a louca dos pallets, lendo tudo que existia sobre eles, mas percebi que no nosso diminuto espaço, próximo da janela, não daria para fazer uma super estante vertical.

Numa bela quinta-feira, dia de feira, literalmente, aqui na rua em frente, estava na janela sonhando com a horta quando vi o pessoal desmontar as barracas, ir embora e deixar uns caixotes velhos para trás. Desci correndo de chinelos e fiquei revirando o lixo da feira, restos de comida no chão, procurando os caixotes mais inteiros. Confirmei com um senhor do bar em frente que tudo aquilo ia pro lixo, e após receber um olhar de “olha a louca” e um “sim” monossilábico, me empenhei ainda mais e subi com uns cinco ou seis caixotes. A madeira deles era bem precária, leve demais, quebradiça demais, cheia de farpas, ou seja, um lixo.

Ficamos olhando aquele monte de lixo jogado no meio da sala e confesso que minha vontade inicial foi fazer uma fogueira. Mas os pensamentos foram fluindo, e decidimos que embora aquela madeira não servisse para fazer nenhum apoio real, poderia ser nossa decoração de fundo. Nos blogs e pinterests que li, comentavam que a parede atrás da horta vertical costuma ser pintada ou revestida para que a possível sujeira resultante da terra, e de se mexer nela, não destaque na parede. Então resolvemos que aquele seria nosso revestimento. Pensei em usar tinta-lousa, daquelas que dá pra escrever com giz, mas a parede que usamos é uma parede longa, e ficaria muito estranho pintar só um pedaço, sem termos nenhum tipo de divisória, coluna, móvel nem nada separando.

Fui à casa de tintas da outra esquina (vantagens de se morar no centro de São Paulo, tem feira, loja de construção, loja de tinta, bar, restaurante, shopping, costureira, loja de produtos naturais, hotel, supermercados e banca de revista, tudo no meu quarteirão), e pesquisei sobre verniz, tintas e possibilidades. Claro que antes de sair foram mais umas 2h lendo blogs, vendo vídeos e coletando printerests de pintura e tratamento em madeira. Decidi pelo verniz com cor. Compre em 3 cores, que pelo catálogo deveriam ser um vermelho amarronzado (framboesa radical- check), um amarelo forte (folha de cobre – check) e um azul profundo (artesão – fail) que ficou verde na real, mas gostei no fim das contas. Cada lata de verniz já colorido custou cerca de R$25,00 e a loja preparou na hora, esperei cerca de 15 minutos.

pintura tábuas

Foi uma tarde pintando tudo, sem lixar, mantemos o ar “rústico” e quando tentamos lixar as tábuas se partiam. No dia seguinte a segunda demão. Todos sugeriam 3 demãos, mas fiquei contente com duas. No terceiro dia pregamos as tábuas com pregos comuns na parede. “Pregamos”, na verdade significa que eu segurei os pregos e apoiei a tábua na parede enquanto ele pregava. Ainda rolou a ida a loja de materiais de construção, e compramos os pregos, parafusos bem longos, uma calha de alumínio de 2m, que pedimos para cortar na metade (1m cada parte) na própria loja. Quatro tampas de calha, um tubo de veda-calha, e quatro braçadeiras próprias para calha. Todo esse material foi cerca de R$40,00.

Fomos também na loja de jardinagem, e compramos um saco de 5kg de terra preparada e outro de 4kg de pedra decorativa própria para jardins e vasos. Cerca de R$5,00 cada. Ah, e compramos uma pazinha de jardinagem do tipo estreita também.

tábuas

Aí passaram-se vários dias, mas contando com a ajuda de um valoroso amigo, os quatro furos na parede foram feitos com a furadeira dele. Esse foi o dia de comprar nylon de pesca, para reforçar a sustentação. Cerca de R$5,00. Nesse ponto entra a vida real, os seminários e workshops, o trabalho, as consultas, as aulas e um bom tempo passou. O carnaval veio e foi. Os fins de semana vieram e foram. E eis que subitamente semana passada a energia e o tempo voltaram às nossas vidas e decidimos terminar.

O processo começou com a colagem das tampas nas pontas das calhas, usando o veda-calhas. O tubo é daqueles que precisa ter aplicador, e nós não tínhamos. Num arroubo de maker, a tentativa consistiu em empurrar com o cabo do martelo o fundo do tubo. Não deu certo. Quebrou o tubo, vazou veda-calha viscoso pra todo lado (sorte que tínhamos jornal velho forrando o chão), e foi uma bagunça. Mas com uma dose bem generosa de veda-calha espalhado em cada ponta e cerca de 15 a 20 min de compressão nas pontas e a coisa ficou. Deixamos secar de um dia para o outro e no seguinte o veda-calha estava seco e firme e quando testamos com bastante agua dentro, nada vazou. E ainda conseguimos salvar o martelo, com muita paciência e muito Thinner.

O passo seguinte foi fixar as braçadeiras, de um lado com os parafusos, e do outro com o nylon, fazendo “triângulos”, até o próprio parafuso, só para garantir a estabilidade. Aí encaixamos as calhas, e colocamos em cada: uma camada de pedra, uma terra e outra de pedra. Fizemos furos com os dedos e colocamos as sementes. Nessa primeira tentativa fizemos metade de cada calha com um tipo de semente, alface e rúcula em uma e rabanete e mini cebola em outra. Aguamos bem pouco. No dia seguinte coloquei mais um fio de água em cada calha. E eis que no terceiro dia somos brindados com essas imagens cheias de ternura, num belo domingo de manhã, com os brotos de rúcula e de rabanete começando a nascer. Ainda não sei se vingarão. Mas espero que sim! Já estou bem animada, e o domingo começou muito bem. Agora já posso voltar para os textos do mestrado, para os afazeres do dia. E meus brotos continuarão a crescer.

horta

rabanete

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