Sobre querer abraçar o mundo com as pernas (mais uma vez)

Bebo água. Hoje não está tão frio, apesar de estar de calça, a camiseta é de mangas curtas e os pés no chinelo dispensaram as meias. Onde estão meus muitos shorts? Em Brasília nunca fiquei em casa estudando, lendo, trabalhando, cozinhando, de calças. Sempre short. Até no inverno. Inverno de frio leve à noite. Inverno de short e suéter. Setembro. Setembro nunca fez frio. É a época da seca desesperadora. Do calor seco que me fazia dançar a dança da chuva. De noites insones, banhos na madrugada, fins de semana no lago.

Lavei roupa, mas não consegui pendurar direito, pois as meias que estão no varal a três dias ainda não secaram. Choveu muito e fez muito frio nos últimos dias. Fiquei em casa, entre a T.V., o computador, o videogame, os amigos, os livros, os estudos, e as canecas de chá. Setembro frio e úmido. Semana da Pátria. Folga inesperada. Novidades sem fim. Em outubro lamentarei a falta da Semana do Saco Cheio. Cada cidade, suas folgas.

Na tela do notebook dois documentos do word superpostos, cinco pdfs, chrome com 6 abas abertas: email, facebook, email usp, plataforma online de materiais das disciplinas, google maps, decolar.com. A falta dos amigos, de saber notícias da cidade não me deixa deletar o facebook, nem deixar de abri-lo o tempo todo. A falta de tempo para estudar não me deixa ir vê-los. Três viagens sendo planejadas. Será que vai dar tempo de fazer todas? Será que vão caber no orçamento? Será que a bolsa vai sair?

Um dia pensei que os adultos tinham todas as respostas. Um dia pensei que mesmo que os adultos não as tivessem eu as teria. Passei os primeiros anos da minha vida adulta trabalhando e estudando como uma louca. Chorava de sono. Chorava pelas perdas. Nunca pelas incertezas. Eu sempre soube que ‘daria certo’. A vida vira de cabeça pra baixo. Quando tudo parecia que finalmente estava ‘dando certo’, cai na toca do coelho. Não quis mais. Não quero ser desses adultos que sabem tudo e ‘deram certo’. Não quero que minha vida seja sinônimo do meu trabalho ou mesmo da profissão.

Persigo já faz uns três anos o caminho dos loucos. Das Alices que caem em tocas de coelho. Das metamorfoses ambulantes. Dos Dom Quixotes que enfrentam moinhos urbanos. Das amantes de chocolate que se mudam quando bate o vento certo. E que ficam quando aparece o pirata certo. Que fazem suas próprias cores, seus próprios sabores, redefinem seus destinos. Eu definitivamente prefiro ser essa metamorfose ambulante. E além de não ter as mesmas opiniões formadas sobre tudo, abri mão das certezas e das respostas também. Quero ser feliz. Sou feliz.

Do meu jeito. Às vezes me sinto incrivelmente independente e competente. Aquela que lava, arruma, cozinha, estuda, faz dieta, escreve, disserta, opina, orienta, corrige, prepara aulas, faz traduções, lê cinco livros ao mesmo tempo, se depila, escolhe uma roupa bonita, pega o metrô, o ônibus, anda a pé, pratica a atividade física. Aquela que migra da legging pra camisa social, pra lingerie de renda, pro moletom da universidade com a fluidez de uma dessas supermulheres de anúncios fantasiosos. Sonho feminista.

Em outras sou ainda aquela adolescente, aquela criança, que só queria jogar jogos, dormir na casa da vó com os primos, na casa das amigas com o grupo infalível, andar de bicicleta, tomar um sorvete, comer qualquer coisa, dormir 12h por dia, trocar o dia pela noite, perder tempo, pedir uma pizza, dormir com a blusa do dia e sem as calças, deixar a louça na pia, esquecer que a louça e a pia existem. Perder as horas. Esquecer o relógio. Não abrir o email. Não desejar parabéns a ninguém. Nem falar muito com os outros. Aquela adolescente que ainda cultiva o seu lado egoísta sem culpa. Que faz porque é bom. Que se prioriza. Seus desejos. Sonho niilista.

Em outras horas bate o wonderlust. A vontade de fazer todas as mil viagens que já planejei. A vontade de não ter horários nem obrigações. Vender tudo, arrombar a poupança e sair por aí. Veja bem, muitas pessoas conseguem trabalhar loucamente, juntar dinheiro e passar um fim de semana da praia, outro na cachoeira, ir ver a família num feriado, e quem sabe até numas férias mais longas, de quinze ou vinte dias, fazer uma viagem internacional. Eu já fiz e faço todas essas. Mas não é dessas que eu sinto falta. Sinto também. Mas quando bate esse bichinho, o que queria era a loucura. Era ser Walden no mato, ser Supertramp a caminho do Alasca.

Aquelas viagens de quem se resumiu a uma mochila, ou uma kombi, e que não tem dia para acabar. As viagens de quem aboliu o sonho consumista. De quem não quer ter. Quer viver. Uma grande aventura. Aquelas viagens que vão tentar me deixar mais perto da carta de Hogwarts que não veio, quando eu caminhar pelo interior do Reino Unido a pé. Que vão me deixar mais perto Macondo quando eu atravessar a Colômbia no melhor estilo Diários de Motocicleta. Aquela viagem que vai revelar as profecias Incas e os segredos espiritualizados de quem ronda Bolívia e Peru até Machu Picchu. A transiberiana. Berlim-Bagdá. A transamazônica. O roteiro dos Hobbits da Nova Zelândia. O mundo como meu país das maravilhas. Sonho Alice.

E quando bebo mais um gole de água, no meu belo copinho florido. E levanto a cabeça para ver os livros me esperando enquanto continuo os estudos. Quando checo as abas do chrome e me lembro que tenho que começar a selecionar os programas de doutorado que gostaria de aplicar, pois ano que vem será importante já ficar de olho nas datas. E olho os amigos e a família no facebook e me lembro que ainda não planejei o natal desse ano. Quando olho o namorado deitado no sofá em frente, concentrado entre ligações de consultas, livros de estudo e jogos de computador. Percebo que sou mesmo é uma Menina Maluquinha, que quer abraçar o mundo com as pernas. E ser cada dia um pouco desses sonhos. Cada minuto do dia uma dessas mulheres.

E sabe qual a melhor parte? Cada dia encontro mais Maluquinhos por aí. Sofredores desses sonhos de incompletude, de metamorfoses ambulantes. Outros adultos que guardaram suas crianças e adolescentes com tanto carinho que nunca se despedirão delas, e assim seguirão com essa nossa esquizofrenia de ser tantos em um só. De alimentar esses sonhos todos. E enquanto isso sigo assim, estudando depois da faxina, escrevendo antes de jogar videogame, comendo chocolate hoje e vitamina de chia e linhaça amanhã, economizando enquanto espero a bolsa, e planejando a próxima grande viagem. Vivendo essa vida. Essa vida dos novos adultos que não encontraram as respostas certas. Ou talvez ainda não tenham encontrado a pergunta, mas sim algumas respostas. Vamos assim então, de mochila nas costas, livros debaixo do braço, toalha no ombro, em busca da pergunta do nosso 42.  Abraçar o mundo com as pernas.

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