Uma cesta de orgânicos

Hoje eu acordei com a campainha antes das sete da manhã. Última semana de férias. Normal ainda estar na cama antes das sete. Levantei zonza. Dormi tarde, vendo filme. Acordei durante a noite, faz calor. É verão. O verão de 2015. O primeiro verão do meu mundo novo. Não tem água na torneira para lavar o rosto. A higiene mínima matinal é de caneca, bacia e balde de água armazenado embaixo da pia. Eu me lembro dos casarões antigos que já visitei e dos conjuntos de louça trabalhada, bacia, jarra e caneca, apoiados sobre uma cômoda, toucador ou penteadeira. Talvez os tempos sejam mesmo cíclicos e tenhamos alcançado o esgotamento que nos fará retornar ao passado no futuro. Meu presente não é tão romântico, e embora a pia ainda seja a encanada, pregada na parede e de louça, a caneca e o balde são plásticos. Talvez esse seja o futuro com ares de passado.

Recebo na porta uma caixa de papelão contendo vários alimentos orgânicos. Selo estampado na lateral. Nota fiscal impressa no topo. Confiro, os dados estão certos. Foi o pedido que fiz pela internet. Futuro e passado batem à porta as sete da manhã. Alimentos de quintal. Pedido feito pela internet. No rodapé da nota fiscal é possível ler a mensagem que diz que o pagamento pode ser feito em dinheiro, cheque ou por depósito/transferência eletrônica para a conta especificada. Passado e futuro batem à porta. Guardo os de refrigeração imediata e volto a dormir. Ainda estou de férias.

Estou de férias? Acordo uma hora e meia depois remoendo a pergunta. Sim e não. Meu passado recente e meu futuro de uma semana adiante chegam a mente. Troquei de emprego. Estou de férias do último. Mas começo na próxima segunda em um novo. Férias? Eu tive férias nessa passagem de 2014 para 2015? Em dois meses tive até agora cinco dias espaçados para não fazer nada, ou fazer uma pequena viagem à praia. Descanso não tive. Em menos de dois meses empacotei tudo o que tenho. Resolvi pendências há muito estagnadas. Pendências bancárias, pendências burocráticas, pendências cotidianas, pendências emocionais. Entreguei o aluguel de um apartamento, meu primeiro refúgio só meu. Pedi demissão. Me desliguei de muitos vínculos. E fui. E vim.

Já estou aqui. Recebendo uma cesta de orgânicos que bate à porta às sete da manhã de uma terça-feira qualquer. Uma terça-feira qualquer? Não. Hoje não é um dia qualquer. Todo os dias desses últimos dois meses foram únicos e inigualáveis. Meu presente tão presente. Presente pela intensidade da sua vivência em cada segundo. Presente pela necessidade que me fez viver esses dias pensando neles e só neles. Presente por conterem um futuro incerto. Presente por conterem um passado tão próximo. Presente por serem tão únicos. Presente por serem minha escolha. Meu presente para mim mesma. Presente por cada um que tem feito parte deles. Presente porque são o meu agora e isso é todo o meu mundo.

Meu passado recente (recente?) dos últimos dez anos incluem seis mudanças de endereço, a perda dos meus pais e dos meus avós maternos, que me criaram. Incluem a mudança para lugares cada vez menores e cada vez mais afastados da casa onde cresci. Uma parte dessas mudanças ocorreu por decisões maiores que eu, e só pude acatar. Nunca me incomodei. Me cansei. Muito. Trabalhei loucamente. Estudei mais horas do que cabem em um dia. Vivi semanas de muito mais do que sete dias, e dias de muito mais do que vinte e quatro horas. Vivi dez anos que valeram por uma vida inteira.

Outras mudanças foram voluntárias. Viagens, lugares só meus. Lugares compartilhados. Mudanças que escolhi. Todas possuem algo em comum. Todas foram necessárias. A necessidade é algo muito curioso. Normalmente vemos a necessidade como algo negativo. Como falta de opção, de alternativa. Uma força maior nos obrigando a algo. Esquecemos que sempre há uma escolha. Às vezes essa escolha nem é pensada, pois a alternativa está além das nossas capacidades físicas, financeiras, morais, ou algo assim. Mas sempre há uma alternativa. Por isso nem toda mudança voluntária é desnecessária. Muito pelo contrário. O caminho que fiz até aqui foi absolutamente necessário.

Precisei viver todas as adversidades que passei. E precisei viver todas as superações também. E preciso viver os sonhos. Preciso viver as vontades. Preciso viver as curiosidades. E esse caminho me trouxe à uma cesta de orgânicos às sete da manhã dessa terça-feira. Ainda estou pseudo-acampada. Mais da metade das minhas coisas ainda estão empacotadas, encaixotadas, lacradas. Nos últimos dois meses vivi dias intensos. Exame demissional, exame admissional. Entrevistas, treinamentos. Um novo caminho de metrô para aprender. Um trajeto de ônibus fácil e bem sucedido adicionado à lista de caminhos conhecidos e traçados. Um descontentamento com o Google Maps num ônibus que me levou para o meio do nada. A alegria do Santo Waze.

Mais de novecentos quilômetros de estrada. Falta de água. Racionamento. Políticos que dão outros nomes ao fato de que a água é cortada ao longo do dia. Ao fato de que a pressão que vem da rua não é suficiente para que o fluxo de água acione a resistência do pequeno chuveiro elétrico. Banho frio. Higiene básica feita de caneca e balde. É esse o futuro? É esse o passado? É verão. Eu não ligaria o chuveiro mesmo que houvesse alternativa. O calor incomoda. O banho bom é frio. E o inverno? E o futuro? Lavo as folhas orgânicas na bacia de água que peguei do balde, e cozinho o almoço. Nada de água corrente. Economia e silêncio, no movimento que lembra passado e traz gosto de futuro. Assim como minha cesta de orgânicos, que pedi pela internet.

Mais um apartamento para ver à tarde. Vou a pé. É perto. Se conseguir fechar a documentação, poderei ir para o novo trabalho a pé todos os dias. Uso o aplicativo do iphone para scanear os documentos necessários e enviar para o corretor e tentar garantir o apartamento.  Recorro ao Google Maps e ao Waze na volta para casa. Lavo a louça e a roupa enquanto tem água na torneira. Mas já sei que na hora de escovar os dentes antes de dormir, será com caneca e balde. Jantarei uma sopa. Fiz com os orgânicos. Receita da vó. Um filme no netflix antes de me sentar para trabalhar um pouco no notebook. A roupa seca no varal, e a umidade que evapora, ao lado do ventilador, amenizam o calor do verão. Meu futuro tem ares de passado e assim mesmo é desconhecido e incerto. Às novidades relembram meus gostos mais antigos e pessoais de infância e adolescência.

Sou tão eu. Me sinto feliz nesse novo mundo, que tem ares de passado. Familiaridade no desconhecido. Saudades do que ainda não vivi. Jamais Vú todos os dias. Banho de caneca e orgânicos pedidos pela internet. Ainda estou de férias e a cabeça tem tempo livre. Tempo para divagar sobre tudo o que já estudei. Meu gosto tão predileto por história, política e filosofia. Sim, o futuro tem gosto de passado. Assim como a sopa da vovó, feita com orgânicos pedidos pela internet e lavados na caneca. Meu futuro inclui muita leitura, muito estudo, assim como minha vida inteira. Meus jogos, meus gostos, minha sopa da vovó. Me repito, repito meus ancestrais. E tudo é novo. Tudo é futuro nesse meu presente tão bom, tão novo. O presente é um futuro com gosto de passado. O presente é tudo que trouxe do passado para fazer um futuro novo e único. Deja Vú. Jamais Vú.

Uma cidade nova. Uma casa nova. Um emprego novo. Estudos novos. Namorado novo. Corte de cabelo novo. Ano novo. Vida nova. E uma cesta de orgânicos lavada sem água encanada. Num verão ardente. Uma receita antiga. A música que me acompanha enquanto cozinho vem do itunes. Salvo meu texto na cloud. E escrevo para viver. Para me tornar Sofia. Para virar história em palavras, como a humanidade sempre fez. O futuro tem gosto de passado renovado. O mundo é redondo e gira. E o meu fez uma volta de 360, para uma vida nova. A vida que eu sempre quis e não sabia. Um sonho que nunca sonhei e se realiza assim mesmo. Meu presente.

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One thought on “Uma cesta de orgânicos

  1. Passado e futuro se confundem. O que chamamos de presente é apenas uma questão filosófica. Vivemos todos os tempos ao mesmo tempo. Somos surpreendidos com ciclos que se repetem e renovam e tornam a voltar, mesmo que com uma maquiagem nova.
    Viva seu mundo novo!
    Obrigado por transformar sua linda vida em palavras tão belas quanto.

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