Por Bia

Às vezes eu choro. Às vezes é uma lágrima sutil, um escorrer de canto de olho. Às vezes chega a me embaçar as vistas. Mas as vezes é um dilúvio! Choro, fico desfigurada, o nariz incha e avermelha, os olhos saltam do rosto, a coriza escorre em torvelinhos por sobre o lábio e meleca a blusa, ou a coberta, o que estiver mais próximo. Não é bonito! E eu não sou a Bailarina, que nem remela tinha. Choro, choro com força, choro com alma.

Hoje estava comentando com um amigo, mais cedo, sobre a realização de metas. Ontem com outros amigos muito queridos, comentei a mesma coisa. Todo fim de ano eu sempre tive o hábito de fazer aquele famoso balanço, checar as realizações, os sonhos, as preguiças, e sempre sobrou algo na minha lista. Um certo item por fazer, daqueles que provavelmente nunca ia receber o check, na minha check list.

Ano passado foi diferente. Terminei 2013 me sentindo extremamente cansada, mas muito feliz. Depois de um ano de desapego, desenganos, e desassossegos, consegui na verdade, ter um sossego só meu, e descansar. 2013 foi um ano de recuperação, um ano sanativo, para fechar feridas, e tornar a pele mais áspera, ralando ela por aí na lixa da vida de todo dia. 2014 foi diferente. Foi um ano de olhar para dentro. De colocar fermento nas ideias, de amassar esse pão até suar, e doer os braços, e depois enrolá-lo no pano, e colocá-lo em lugar morno para fermentar. Em 2014, eu fermentei. O pão assou, e está com aparência muito bonita. Só poderei comê-lo e reparti-lo, contudo, em 2015, e daí em diante. Depois eu conto se o gosto era tão bom quanto o cheiro.

E se no anoitecer de 2013 veio meu cansaço, meu desassossego, meu eu solitário, percebendo-se, único e indivíduo, como nunca antes, em 2014, antes que as luzes se apaguem me sinto coletiva. Nunca me senti tão bem quista, tão amada, por pessoas tão diferentes. Sinto o calor vindo de velas invisíveis, e apesar dos braços doloridos e da testa suada de tanto amassar o tal pão, não sinto o cansaço. Sinto uma certa ansiedade para poder parti-lo, mas só. As mudanças que 2015 me trará prometem ser grandes, e só o tempo, o longo prazo, me dirá o quão grandes elas poderão ser. Mas não me antecipo. Tenho, no mínimo, uma década nas costas de aprendizados para saber que a vida se vive um dia após o outro, com a cabeça no presente, que é a verdadeira dádiva.

E essas mudanças que os ventos de 2015 me antecipam me fizeram remexer gavetas. Quis limpar física, psicológica e mentalmente algumas gavetas antes de me levar para outras trilhas, antes de abastecê-las de novas relíquias. E ao remexer as gavetas me encontrei. Todinha lá. Há mais de uma década atrás. Do jeitinho que sou! E ao mesmo tempo outra. Cresci e aprendi mais do que em algumas vidas inteiras nessa década. E parte desse aprendizado culminou num mês de desapego, no qual estou me desfazendo de muita coisa: um terço de guarda-roupa, dois rabos de cavalo de cabelo meu da adolescência doados, várias lindas e maravilhosas cartas de infância jogadas fora, porque o amor fica, mas o papel precisa ser reciclado, fotos distribuídas, outras scaneadas, e muitas camadas de Jurema lixadas e polidas, no melhor esquema pedra-pomes para a alma.

Nesse processo eu reli algumas cartas que minha mãe, maravilhosa, me escreveu. Chorei. Li para uma amiga, e chorei mais modestamente. Reli sozinha e me acabei no travesseiro com baba e meleca escorrendo pelo queixo. Não consegui comer, fiz chá, resolvi ver TV. Enjoei de cinco filmes bestas modernos e achei que ia precisar sair e ir passear no parque para acalmar a alma, mas estava chovendo. Achei na lista de filmes disponíveis Como Água para Chocolate, um dos favoritos de dona Bia. Vi inteiro. Chorei no fim de novo até o ponto melequento. Desisti das melecas. Me refiz. E resolvi lidar com essa nova onda de emoções que mesclam uma saudade absurda, com um desejo incompreensível de ter minha mãe por perto, e ouvir suas opiniões e conselhos, ainda que eu fosse negá-los e fazer tudo do meu jeito, como sempre foi. Ela nunca deixou de falar, eu nunca deixei de ouvir e tanto ela como eu sempre fizemos o que bem entendemos. Com muito amor, muito respeito mútuo e grande admiração.

E a minha forma de lidar com isso é escrevendo. Compartilhando a alma. Me abrindo para o mundo. Me quebrando em sílabas e letras para me refazer nessa mensagem de palavras que já não me pertencem quando deixam meus dedos, mas que levam e lavam minha alma. E hoje faço algo inédito, algo célebre e que creio não terei oportunidade de fazer novamente. Divido com vocês a transcrição exata de uma das cartas de dona Bia para mim! Olha a honra, hein! Hoje abro em palavras uma parte muito íntima da alma de outro alguém. E contrariando-a, pois na carta está escrito que é particular. Eu, entretanto, não consigo ser privada. Com vocês, Bia Reis:

“Eta, eta, eta, é a lua é o sol é a luz de Tieta… milhares de casinhas coloridas, aquele típico casario baiano, de casinhas pequenas e coloridas. Eta, eta eta, é a lua é o sol… encerramento do filme no clímax, é claro que sinto sua falta. É assim, nos detalhes, às vezes os mais comuns, que a saudade aperta, né o coração só não, aperta tudo: o peito, o estomago, a barriga e a cabeça. Aí eu sinto muita falta e consigo ter alguma noção do quanto estamos ligadas. É por isso mesmo, do quanto foi bom você ter se metido nessa aventura maravilhosa de passar um tempo em outro país. Assim, de repente, só 1 mês, no meio da final da Copa do Mundo, Brasil ganhando, vocês foram… Eu, que nem sabia como ia te criar, quando você nasceu, fui correndo, e aprendendo, e fazendo tudo o que era preciso, e aprendendo, e tentando, e sentindo, e aprendendo, e até que foi tudo dando certo. Com todas as dificuldades iniciais, você foi, ou nós fomos, superando uma por uma e crescendo, bem, saudável, bonita e inteligente e etc… Eu fui à luta de crescer também, batalhei e continuo batalhando para sempre estar consciente, ligada no seu desenvolvimento pessoal, no espaço que você necessita para crescer e ser e também no meu crescimento. Sei que seus voos serão cada vez mais altos e espero estar à altura, para apreciá-los com orgulho. Você cresceu, e nós duas precisamos exercitar nossa individualidade, ir diminuindo a intensidade da energia do cordão umbilical. Que é eterna, graças a Deus, que nunca será possível extinguir, acabar. Sempre seremos ligadas e eu sou feliz e agradecida aos céus por isso, mas é importante exercitar o ser independente. Por isso gostei que você foi. De vez em quando um detalhe aciona a saudade e o peito aperta, te deixando meio sem ar, a barriga dói, você suspira… Te adoro. 06/07/2002 – sábado”

É mãe, tem hora que um detalhe aciona a saudade, e o peito aperta, a barriga dói, a cabeça dói, tudo dói, e eu não só suspiro, como explodo em lágrimas, exagerada nas emoções como sempre fui. Não há palavras suficientes no universo para demonstrar o quão incrivelmente grata eu fico por poder ler essas palavras doze anos depois. Não apenas porque elas contêm muito amor e uma reflexão emocional louvável para qualquer mãe, o que me faz admirar dona Bia mais do que nunca, mas também porque nesses momentos de transição, eu às vezes sonho em saber o que ela diria para mim, qual conselho daria.

Pois bem, aí está seu eterno conselho. Tenho certeza de que essas mesmas palavras poderiam ser ditas por ela para essa minha próxima aventura. Tenho certeza de que foram ditas, e não a toa reli essa carta hoje. Reforço com essa experiência a importância de sermos seres humanos bons e conscientes. Ela não sabia que não estaria aqui doze anos depois para me dar o conselho apropriado para cada momento. Mas eu fui criada com conselhos que valem para a vida toda, e isso não tem preço! É um nível de amor e de respeito aos quais agradeço diariamente! Obrigada mãe, obrigada universo! Obrigada 2014! Obrigada!

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