Brasília, domingo, onze da manhã, de um ano qualquer

Era domingo. Onze da manhã. E daí? – você me pergunta. Acordou tarde? Não. Não é isso. Não importa que horas acordei. Que horas fui dormir. Domingo era o dia dela. E onze da manhã sua hora. A hora do rádio. Não era a hora da Voz do Brasil. Era a hora da voz do meu Brasil. Do meu mundo. Da minha mãe.

Olhei a xícara de chá ao meu lado. Dourada com corujas, algumas de óculos. Tão eu. Presente de aniversário. Olhei o pequeno bule roxo, cheio do chá matinal, orgânico, detox. Tão eu. Comprado sob os auspícios de casa nova, e já vão lá um ano e meio de uso, de casa, de chás. Cocei a cabeça, cabelo preso, embaraçado da noite de sono ainda. Tão eu. Sempre assim. Um dia de folga, e de pijamas e com uma xícara, preferencialmente uma caneca, de chá nas mãos, e já lá estou, com um livro, uma leitura, uma aventura. Ou com letras nos dedos.

Ah essas letrinhas que não me deixam mais. Falo pelos cotovelos, e como dizia ela, ainda bem que nasci só com dois, se não ninguém aguentava. Melhor traduzir em palavras. Em rabiscos. Tanta ideia, tanto sentimento, tanta vontade de se pôr para fora. Minha voz era minha ouvinte número um. E tão boa que cresci mal acostumada no que diz respeito às boas companhias.

Ainda que fossemos mãe e filha, por diversos motivos, por sermos as duas filhas dentro da casa dos meus avós, por sermos as duas meninas, por sermos as duas só nós duas, fomos amigas. Não exatamente como amigas, claro. Eu diria mais como colegas de quarto. Minha mãe foi sim, minha roomie. Desde muito nova pude participar nas escolhas de como nossa vida seria, e ajudá-la a dar contorno e forma a todas as pequenas escolhas. Em parte porque ela deixava, estimulava e cultivava em mim a liberdade de escolhas e a tomada de decisões. Em parte porque ela mesma estava perdida e precisava de ajuda. Em parte porque fui criada, por ela e todos os demais familiares, como um ser humano, cujas ideias e sentimentos deviam ser respeitados, independentemente da idade.

Nosso ponto máximo de vida de roomie foi a casa do condomínio. Quando moramos sozinhas de novo. Já tínhamos vivenciado essa aventura muitos anos antes, na 407 norte. Naquela época moramos só as duas por cerca de três anos num apezinho pequeno e aconchegante. Com estantes feitas pelo vovô Gepeto, cheias de violetas e o rádio, embaixo da janela da sala. O banquinho de índio da vovó, emprestado para nós, com o telefone e mais uma violeta em cima, ao lado do sofá. O telefone verde, que para discar era necessário girar aquela roda de acrílico, já amarelada, e esperar cada número fazer sua quantidade de tec-tec-tecs até poder discar o próximo.

Naquela época eu ainda era muito nova. Vivemos lá entre meus cinco e oito anos. E lá aprendi a fazer vitamina de café da manhã, do jeito que ela gostava, com leite de soja e castanhas do Pará. E aprendi a noite a fazer a sopa de aveia e cenoura da vovó. Minha vida de sopas começou lá e eu nem sabia. De tomadora de sopa começou muito antes, desde que nasci. Mas de fazedora, começou lá. E um dia fomos buscadas por vovó magico de Oz, salvador de toda intempérie. Aquela empreitada não deu em nada.

Mas o que é na vida que tem que dar em alguma coisa? Que mania de buscar resultados mirabolantes de contos de fadas essa! Aqueles anos, com tudo que eles trouxeram, com os risos e o choro. Com minha frustração em não poder correr para minha árvore no jardim depois de uma briga em casa, que me fazia esconder debaixo da mesa da sala para chorar. E os risos de mel dela ao descobrir que metade do meu emburro era pela briga e a outra metade pela falta da árvore. As tempestades de verão assistidas da janela, com muita música alta acompanhando. As vitaminas de café da manhã aos domingos de sol, com as janelas abertas e, sempre, o rádio ligado. A primeira vez que ouvi ETC da Cássia foi assim. No rádio, tomando uma vitamina, ao som das gargalhadas dela, que se divertia tanto com a vitamina, o rádio e a letra.

Muitos anos depois, no condomínio, estávamos sós, não por escolha, mas por falta dela. A coisa mais significativa que apreendi com as perdas foi que o sofrimento de um ente querido que morre tem como alívio doce a certeza de que apesar de todo o sofrimento, a única coisa que cada um deles com toda certeza não queria, era me deixar sozinha. A maior preocupação de quem se vai para cumprir com as missões dessa vida é a preocupação de que quem fique, fique bem. Com muito amor na alma. Tudo o mais dói muito. É, em quase todos os sentidos, a pior dor que se pode sentir. Mas seu afago na alma é esse. A certeza de que os que foram, estariam, e de certa forma estarão, comigo sempre.

É o exato oposto das dores de um coração partido. As pequenas, e às vezes grandes, dores de um amor são o contrário disso. Existem infinitas variáveis, que mudam a cada caso, a cada dia, a cada estória, a cada amor. A única constante, é a certeza de que aquela pessoa não queria mais estar com você. E é por isso que dói. Mesmo quem se vai pela mais definitiva das razões, a morte, queria estar junto. Quando são por incompatibilidades do coração, nada é definitivo, além da certeza de que não se quer estar junto nunca mais.

Acho que por isso tantas vezes as pessoas, e incluo a mim mesma nessa lista, sendo ser humana que sou, sentem tanto receio de iniciar novas fases, ou de se jogar em novas situações. Existe o medo do desconhecido. Existe o receio de se revelar e de descobrir as entranhas alheias. E a cada ano que passa existem mais bagagens sobre os ombros de todos que andam sobre a Terra. E as bagagens lhes pesam os ombros, e lhes fazem lembrar de tudo o que já foi.

Não se apegue ao que já foi. Nem por motivos de amor, nem de morte, nem de vida. Quando olho no relógio e vejo que são onze horas de domingo, lembro dela. Dos risos de mel. Das músicas cantaroladas. Do rádio. Da sua voz duplicada dentro de casa, ao vivo, e a gravada, a me contar as mais maravilhosas histórias da nossa música. Lembro das violetas e da vitamina. Lembro das cócegas nos dias de bom humor e das caras fechadas nos dias de mau humor. Lembro com carinho. E guardo essa luz dourada em meu peito para sempre.

Olhei para a caneca dourada, com corujas de óculos. Olhei para as flores na almofada. Olhei para as fotos na estante. Os discos e as violetas na janela. Tenho vivido essa nova aventura e já se vão lá um ano e meio de vida sozinha, mas nunca solitária. De viagens incríveis. De aproveitar as vantagens de ser rainha do meu castelo, imperadora, podendo dar todas as ordens, por não dividir o poder com ninguém. E ao mesmo tempo cumprindo com todas as ordens, por ser também a única executora delas nesse espaço. Tão eu. Olhei meus passarinhos, os de barro na estante, o de madeira, Espirito-Santo mineiro, os de pano, no fundo azul da cortina filtrando o sol pela janela. Tão eu.

Olho para tudo isso, e guardo essa luz dourada em meu peito para sempre. Isso é o meu hoje. Aquilo foi meu ontem. E só a vida dirá o que meu amanhã me reserva. Não tenho medo do futuro, embora, hoje, tenha mais saudades dele do que do passado. Vivo hoje, penso e planejo o amanhã, me delicio com as memórias de ontem. Às onze de domingo sempre serão dela. Mas existem ainda todos os outros seis dias da semana, e as outras vinte e três horas do dia, os pores do sol, em terras distantes, os nasceres do sol acompanhados de tapiocas, para serem preenchidos. E enquanto isso vou me traduzindo em palavras. Sofio-me dia a dia. Inclusive, e, especialmente, às onze horas da manhã, de domingo.

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