Borboletas e o Tempo

A menina era Alice nessa noite. Tinha sido levada mais uma vez por Absolem para uma terra de elefantes velhos, e seus cemitérios. E aqueles grandes notáveis a tinham feito pensar muito. Pensar sobre a vida, sobre as marcas do tempo, sobre as imperfeições do mundo. Mas hoje a menina não estava conseguindo se concentrar nos diários que as viagens com Absolem requeriam. A menina, apesar de muito Alice nessa noite, era também Jurema. Jurema estava cada dia menos dissociável das demais meninas, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e tantas outras.

A menina estava em outra toca. Havia a toca de Absolem, mas havia outras, em outras paragens, e a menina, Alice que era, vivia se perdendo naqueles túneis fantásticos da vida surreal que vivia, tão real. Sua mente divagava sobre uma queda não muito distante. Naquela outra noite Alice havia caído num túnel sonoro e acordado num belo jardim. Riu da coincidência e lembrando-se que, sendo Alice, era muito curioso e conveniente acordar num belo jardim, mesmo que daquela vez não fosse Absolem que a tivesse transportado.

Esse jardim era belo, simples. Um pequeno lago na parte baixa. Num primeiro olhar parecia ser um lugar com poucos detalhes. Minimalista até, embora enorme. Aos poucos, conforme a luz do sol ia aquecendo seu corpo, despertando suas pernas, acordando sua mente, a menina Alice começou a achar os tesouros daquele jardim. Primeiro foram as corujas, duas pequenas amigas arregaladas e pintadinhas, que a olhavam da grama, vigiando seus próprios buracos. Mais tarde a menina foi sendo guiada, e descobriu as galinhas e galos, e perus. Descobriu os coelhos, de várias cores. As laranjas no pé. A lama, a grama e o sol.

E sua mente foi ainda para outro momento. Outro dia, outro sol. Num momento ainda mais surreal, embora o surrealismo estivesse competindo duramente com a realidade na sua vida de Alice. Entre telhados surreais de fato, conversando sobre o mundo, a menina lhe disse “Sabe, o problema é que tenho medo de borboletas!”, ao que ele lhe olhou chocado, como costumava acontecer e disse “Como? Elabore, por favor!”. Elaborar? Bom, isso era um pouco menos usual que o choque. A menina pensou muito, as palavras lhe escapavam, momentos de pouco domínio sobre essas danadinhas que lhe enganavam, torcendo a língua antes de lhe escaparem por entre os dentes. No papel, elas ficam presas, eternas nessa transferência entre mundos. Na boca, elas se perdem no ar, e voam longe. Mais perigosas do que borboletas.

“Tenho medo de borboletas. Simples assim. Sei que não é racional. Simplesmente fico aterrorizada na presença de borboletas. Admito que são muito bonitas, e delicadas. Mas prefiro que fiquem lá, longe de mim.” E ele lhe respondeu: “Mas borboletas não apresentam perigo nenhum! Não vão te machucar, não vão te fazer nenhum mal. Porque isso?”. A menina respirou fundo. Era tão difícil explicar. “Não é um medo normal. Como algumas pessoas tem medo de feras. Eu enfrento o que for. Bestas feras, monstros mitológicos, ratos e baratas, cobras e onças. Mas borboletas não!”. Ele tentava entender. Não era uma insistência baseada na irritação. Parecia querer que a menina pensasse mais sobre aquilo. “Entendo ter medo de leões, ou tubarões. Tenho pânico de tubarões. Mas de borboletas”. “Acho que é isso.”, Ela respondeu. “Não é medo. É pânico. Irracional. São aqueles bichinhos nojentos. Às vezes até fascinantes, pelas cores. Mas perigosos, venenosos. Queimam, machucam. São pequenos e fascinantes, mas fazem mal. E vivem para comer, até que se transformam. Criam asas, e saem por ai, se espalhando.”

A menina já estava arrepiada. Ele lhe olhava como se visse algo curioso. Continuou: “Mas é isso, se transformam. Não há nada mais incrível que a transformação. E depois que ela acontece, já não apresentam risco nenhum. Voam por ai, sim. Mas apenas para polinizar. Espalhar cor, alegria, vida, boa sorte. Nada mais. Não há o que temer.” A menina pensava. Ele tinha razão, é claro. Mas como explicar o pânico? O pânico é irracional. Não há explicação. Só a paralisação do medo. A inutilidade. A inação. A falta. O vazio.

A menina Alice estava no jardim. Observava a grama, a lama e o sol. Ele lhe disse: “Olha! Uma borboleta!”, e olhou sua reação. A menina já havia visto a borboleta de esguelha. Seu olhar captado pelo leve movimento. As vibrações daquelas pequenas e levíssimas asas. Ficou imóvel. Ele prosseguiu: “Parece ser uma daquelas borboletas curiosíssimas, que tem um número na asa. É o número 8, não?”, o tom era entusiasmado, mas ela sentia a leve tensão no ar. E, apesar de imóvel, continuava olhando a borboleta. Era muito pequena, muito mesmo. Não havia qualquer razão para teme-la. Mas, de novo, não era uma questão racional essa.

Ele, com um leve sorriso no rosto, continuou falando: “São raras essas? Não sei. Mas nunca vi uma antes? Você já? É mesmo uma daquelas com o número? Você consegue ver o número? Não dá para ter certeza sem ver, dá?” E o olhar da menina acompanhava o bater daquelas asas. Ela tinha quase certeza de que era a borboleta do número nas asas. Mas de fato, não dava para ter absoluta certeza sem ver.  A borboleta pousou numa folha há cerca de um metro, talvez até menos da menina. Sua respiração era controlada, e os movimentos precisos. Sem tirar os olhos da borboleta, ela ajoelhou.

Ele perguntou de novo: “E aí? Viu o número? É mesmo uma daquelas?” e ela respondeu: “Parece que sim, mas não dá para ver o número daqui. Mesmo de óculos, precisaria chegar mais perto para ter certeza.” Ele riu baixinho: “ Tá com medo?”, e a menina Alice, controlando a ironia, o pânico, que já não sentia na forma de pânico, talvez um leve desconforto, respondeu: “Bom, eu não fugi ainda né! Talvez não consiga chegar tão perto assim agora, mas to aqui, paradinha.”. Ele ajoelhou também e disse: “É um bom começo. E olha só, ela pousou. Talvez assim te dê um tempo para ver melhor. Talvez até para ver de mais perto, e ter certeza se é ou não aquela borboleta rara”, levantou e saiu.

Na noite de hoje, entre elefantes, a menina não se lembrava mais quem tinha voado primeiro, ela ou a borboleta. Mas sabia que não tinha fugido. E talvez, com o tempo, aprendesse a ver as imperfeições, as marcas, os números nas asas, as rugas dos elefantes. Talvez.

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