Vida Boa de Ser Vivida

Eu sempre tive uma relação muito curiosa com as palavras. Algumas pessoas dizem que as palavras lhes pertencem, ou que poeta tal dominou as palavras, ou que autor fulano tem as palavras nas mãos. Eu não. As palavras é que me tem. Quem me deu de presente para elas eu não sei, mas sei bem como reajo a elas. Sabe aquela descrição de amor insano, que te faz perder as pernas, desabar e aceitar qualquer maluquice? Eu não. Nunca tive um desses e nem pretendo, prefiro os amores saudáveis. Mas entendo que certas pessoas exerçam essa fascinação dominante sobre outras, não por ter vivido algo assim com alguém, mas com as palavras. Não creio que a relação seja mais tão abusiva assim, afinal, a cada dia que passa conquisto um pouco mais de palavras para mim, e assim vamos ajustando nossa injusta relação. Já dei o primeiro grande passo, perder o medo, e o fato de você leitor, ser um leitor das minhas palavras nesse momento, é o único motivo pelo qual posso chama-las de minhas. Eu sou delas. Eu sou das palavras.

Já tive um medo paralisador delas. Hoje venho superando-o aos poucos. Estou certa de que terei um dia vontade de enfiar a cabeça no travesseiro ao ler tudo o que está aqui, especialmente pelo fato de o blog tornar essas palavras públicas, mas preciso dessa terapia para superar minha relação abusiva com as palavras. Preciso desse momento para acreditar que posso domá-las e que um dia possamos conviver lado a lado, numa relação saudável.

Eu tive inúmeros diários ao longo da vida. Os primeiros, logo que aprendi a escrever, eram os mais secretos. Quando terminei o primeiro, fiquei assustada. Como pude ser tão irresponsável, e colocar todos aqueles pensamentos secretos dos meus oito e nove anos de idade num papel, sob o risco de serem lidos e percebidos? Que loucura! Quais devaneios não seriam expostos caso a chave de plástico em formato de coração lilás fosse encontrada? Pânico define meus sentimentos da época. Na primeira oportunidade, pós-churrasco familiar, no qual algumas brasas sobraram na churrasqueira, taquei o diário roxo dentro. Assisti ele queimar até o fim, para garantir que seria o fim daquelas palavras. Das minhas primeiras palavras.

Na adolescência ensaiei o compartilhamento das palavras que vagavam pela minha cabeça. Tive diários coletivos com minhas melhores amigas. Cada uma levava o caderno para casa por uma semana, escrevíamos e decorávamos com esmero aquelas páginas, e ficávamos ansiosas para receber o caderno duas ou três semanas depois, e ler todos os acontecimentos. Acontecimentos estes dos quais já sabíamos tudo, obviamente, ao ler o diário, já que estudávamos juntas e falávamos ao telefone sempre. Mas existiu algo mágico naqueles diários. A magia da amizade, sem dúvidas. Mas para mim foi mais do que isso, foi o primeiro passo da minha superação em relação a dominação das palavras. Um exercício de desapego dos meus segredos. O compartilhamento anterior as redes sociais.

No fim da adolescência começou minha Idade Média. O período em que trabalhar, estudar, e me ocupar eram questões de sobrevivência. E qualquer minuto vago era ao mesmo tempo luxo de descanso inexistente e pânico de me encontrar a sós com meus pensamentos. Minha cabeça esteve em ebulição por alguns anos, e meus sentimentos foram destroçados, ano após ano, em pedaços tão pequenos que virei poeira. Só o pó. Mas foi só quando minha última guerra acabou, ou pelo menos batalha da temporada, que percebi que eu não era pó. Era aço forjado a fogo e gelo. Aço só. Só de sozinho, não de apenas. Elementos, eu era composta de vários, mas estava solitária em meio a tantas palavras não ditas. E elas brotaram dos meus dedos, primeiro lentamente, e depois com mais fluxo. Agora tenho tentado dar ritmo a esse fluxo. Acomodar os acontecimentos da vida às palavras que fluem. Às vezes retendo um pouco o volume, espaçando ele com disciplina. Às vezes olhando o teclado por alguns minutos e pensando, saiam, deixem minha cabeça. E jogo com os dedos os fios de prata na penseira moderna de acabamento com ares de aço escovado.

Para os que me acompanham, já devem ter reparado uma certa tendência nos Bloquinhos de Três para a banda Skank. Sim, é minha preferida. E como vou vê-los esse fim de semana, resolvi brincar com a ideia das escolhas musicais. Passei minha vida ouvindo a pergunta: “Quais as dez músicas que mais marcaram sua vida?’, ditas e repetidas por Bia Reis a mim e a muita gente ao longo de uns vinte e cinco anos. Então eu me propus montar um bloquinho com apenas três músicas do Skank. Quase enlouqueci. Se dez no universo musical global são impossíveis, para mim três no universo do Skank também é. Mas decidi me pautar pelo sentimento e não pela razão.

Minha infância e adolescência foram marcadas pelo medo das palavras, pelas notas sofridas na disciplina Português, pelo medo da gramática, mas também por uma nostalgia inexplicável para alguém tão novo. Uma saudade do que nunca tinha visto, uma curiosidade irreparável pelo mundo. Uma vontade louca de sair andando sem rumo. Promessas não cumpridas de que iria a esmo, procurar minhas saudades por aí. Já o início da vida adulta foi marcado por inúmeras batalhas, e, por fim, aprendi a driblar as desgraças. E foi andando sobre as flores amarelas do ipê, ao anoitecer, que percebi, que depois de tanto, nem o medo das palavras importa mais, porque tudo o que quero daqui para frente é que a vida seja simples, sutil, súbita e suave.

 

 

 

 

 

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