Albergue Espanhol

O ano era 2002. Férias de verão. Tinha voltado dos Estados Unidos em julho. Um ano com dois verões. Minha adolescência despontava em seu auge, ao mesmo tempo que começava a estudar à noite, preparação para o vestibular. A vida começava a ficar séria. A vida ia tomando seus contornos sérios não só por conta do vestibular. Na época não tinha consciência, mas hoje sei que foi nesse ano que uma cobra imensa, jiboia ou sucuri, começou sua volta ao meu redor. E que pelos próximos dez anos ela apertaria lentamente esse abraço. Tão lentamente que cada vez que achava que ela tinha chegado ao limite, vinha uma nova volta, mais apertada.

O retorno do câncer do meu pai tinha sido diagnosticado, estávamos nos preparando para uma nova fase de químios e radioterapias. Estava me preparando para o vestibular. Tinha mais do que nunca a sensação de pressa que me atormentaria pela próxima década. Precisava me livrar logo da fragilidade da dependência. Precisava ser dona do meu nariz, das minhas finanças. Precisava estar pronta para ajudar. Precisava estar no topo do mundo. Faculdade impecável, emprego perfeito. Dinheiro para sustentar minha mãe. Ajudar meus avós. Encaminhar a família. E minha liberdade não era um preço a pagar. Não queria ficar ali, presa ao pé da cama, como aquela que não podendo ajudar financeiramente, fica com a colher de sopa numa das mãos e a fralda geriátrica na outra. Tinha pânico desse futuro.

Estudava com unhas e dentes, e cabelos, fios arrancados em tique nervoso e ansiedade, unhas roídas. Dizem que a pessoa está arrancando os cabelos de desespero como uma expressão. Não no meu caso. Cheguei a ter feridas na cabeça. Foi um período de muito desequilíbrio, do qual não me orgulho. Mas nem sempre somos o que queríamos, mas o que damos conta de ser, e naquele momento eu consegui me formar no ensino médio com a segunda maior média da escola, e cabelos de menos. Terminei a faculdade com honras e feridas na cabeça. Cada um faz o que pode, como pode.

Mas eu estava no cinema, com meu irmão. Só eu e ele. Acho que foi a única vez que fomos ao cinema só os dois. Ele tinha um bebê, e estava desempregado na época. Estudava para concursos como um louco, o retorno do câncer do nosso pai pesando triplamente sobre seus ombros de irmão mais velho. Sua esposa viajou para a praia com a mãe e o filho. Depois de casado meu irmão estava sozinho em casa pela primeira vez. Não sei se foi isso, o câncer, ou tudo junto, mas pela primeira vez na vida, dado que convivíamos a pouco tempo, uns quatro anos que ficam pra outra história, ficamos muito, muito próximos. Já nos víamos sempre. Foi graças a meu irmão que começamos a conviver em família, a parte da minha família de pai, mas naqueles dias daquela viagem, eu senti pela primeira vez a parte irmão. Não família completa, não o mais velho que tentava cuidar de mim, um igual, que fazia confissões, sofria e precisava de companhia.

E fomos ao cinema por isso. Para distraí-lo da falta da mulher e filho, para nos distrair da doença, para sermos irmãos. O filme era Albergue Espanhol, no já inexistente e saudoso cinema da Academia de Tênis de Brasília, que na época era conhecido por oferecer filmes fora do circuito hollywoodiano. Amei o filme! Me senti um tanto transgressora por ver aquele filme sem minha mãe, meus pais. Uma sensação de quem começa a ver o mundo com outros olhos. A vontade de se livre e voar por aí doendo no peito. O peso das responsabilidades por vir. Eu era naquele dia uma criatura com as costas coçando, das asas que despontavam, começando a rasgar a pele, louca para voar, mas sem penas ainda. E ao mesmo tempo, o nó da cobra começava a me enrolar. Era um passarinho sem asas que seria abatido antes das penas ficarem longas o suficiente para voar.

Depois do filme tomamos um chocolate no café do cinema, conversando, e ouvi várias confidências do meu irmão, pela primeira vez. Sei que existem dias mágicos na minha vida, e aquele foi um deles. Naquele dia não me senti filha, aluna ou irmã. Me senti ser humano, igual. E sentir isso, naquela idade, foi fundamental para me dar, ao mesmo tempo, força para resistir à cobra, e sonhos, para fazer minhas asas inutilizadas continuarem a crescer, mesmo dentro daquele abraço fatal.

Durante aquele chocolate ouvi as histórias dos dois anos nos quais meu irmão morou na França, depois de terminar a faculdade. Era um tema propício pós filme, e o fazia lembrar-se de dias anteriores aqueles que lhe faziam tanta falta no momento. Para mim eram fagulhas, acendendo meu fogo baixo. Alimentando um fogo que tinha sido acendido naquele verão, ou melhor no inverno daqui e verão de lá. No meu ano com dois verões. Um fogo que eu conheci nas Black Hills, nadando no Sylvan Lake feito pela neve derretida das montanhas. Um fogo que eu conheci enquanto aprendia a fazer dream catchers com a Melissa Two Crows e via uma manada de bisões correr e tremer o chão debaixo do carro em South Dakota.

A brasa já estava ali, e aquele filme, aquelas histórias só serviam para alimentá-la. Alimenta-la platonicamente, lá no plano das ideias. Já que a realidade esmagava loucamente aquela chama, retirando-lhe o oxigênio, retirando de mim a capacidade de respirar, de voar. Eu, que já queria desde o início da adolescência morar sozinha, viajar, ser livre, conhecer o mundo, sair andando por aí, só por andar, só para ver o que existe na outra curva da vida, decidi, naquele dia, que em algum momento iria para um albergue espanhol.

O ano era 2014. Férias de verão. Tinha voltado da Espanha em julho. Um ano com dois verões. Estava no auge dos meus vinte e tantos anos, e a vida adulta começava a me mostrar que eu podia relaxar. Meus pais já não estão mais nesse plano. Meus avós, que me criaram, já não estão nesse plano. Durante dez anos, de 2002 a 2012 aquela cobra gigante apertou seu corpo contra minhas asas. Durante dez anos fui soldado, fui guerreira, fui filha, fui neta, fui irmã. Formei aqui e ali com as melhores notas. Comecei a trabalhar antes de começar a faculdade. E terminei a faculdade trabalhando. Só eu sei a dor que era fazer Relações Internacionais, estudar o mundo e não conhece-lo. Só eu sei a dor de ouvir meus amigos fazendo intercâmbios pela Europa, indo morar em outras cidades, viajando, andando. A cada palavra dita por eles minhas penas se alongavam nas costas, e a cobra apertava forte.

Não havia como ir. Fui enfermeira. Lavei, passei. Fiz comida e supermercado. Fiz companhia. Passei tardes no pé de camas, noites em cabeceiras. Chorei no travesseiro para ninguém ouvir. Sonhei com outras paragens. Em vão. Foi um período de muita submissão. Não submissão a alguém mas à vida. Foi quando aprendi que não importava o quão boa pudesse ser na escola, faculdade ou trabalho, havia outras barreiras, outros problemas. A vida não era uma equação direta, e meus sonhos de boa aluna se desfizeram contra as ondas de um mar cheio de ressaca.

Nesse período tive ao meu lado um soldado, cavaleiro daqueles de cavalo branco. Pronto para salvar uma donzela em perigo. Eu estava em perigo, e dentro do abraço da cobra fui donzela, fui a perfeita donzela, porque estava impedida de ser passarinho. Isso foi essencial para minha tormenta, e durante oito desses dez anos de abraço da cobra, ter um cavaleiro de cavalo branco foi meu porto seguro. Exatamente isso, um porto seguro na tempestade. A cobra já tinha me dado dois anos de voltas quando nos conhecemos. Eu já era um passarinho preso, e não sabia ainda. Fui então donzela.

Dez anos depois me vi só. A cobra e eu, num perto final, morremos juntas. Eu nunca vi o ônibus que nos acertou. Mas vi a luz. Juro que vi. E não era uma luz mágica na qual anjos me revelavam o sentido da vida. Era a luz de quem reabre os olhos. E quando os reabri, foi com as costas queimando nos rasgos dos cacos de vidro sobre a maca metálica do hospital, com a cabeça aberta, reabri nos os olhos de quem sofreu um acidente. Reabri os olhos de quem não mais tinha uma cobra lhe apertando e retirando o fôlego. Ali, lentamente, eu comecei a abrir minhas nunca dantes utilizadas asas.

Demorou alguns meses, veja bem, eu estava literal e metaforicamente quebrada. Mas aos pouquinhos fui me consertando. Já tinha as ferramentas, fornecidas muitos anos antes do abraço fatal, pelo meu eterno Geppetto, Magico de Oz. Ele, que me ensinou tudo, menos a brigar. Me tornei um ser corajoso e pacifico, capaz de resistir aos golpes, mas incapaz de revidá-los. Mas uma excelente reparadora de seres quebrados. Enfermeira por necessidade, sonhadora no âmago.

E minhas asas, ainda necessitando de muito apoio e ainda sobre efeitos da minha medicação homeopática, daqueles super eficientes, mas que me exigiu meses antes de fazer afeito, fui parar em Londres, em 2013. E lá, estiquei minhas asas, e sobrevoei o Lago Ness, na Escócia, e sobrevoei a London Bridge, me perdi na neve e me encontrei nos trens, nas pegadas, no frio, na solidão. Voltei em paz. Em paz com minha guerra, como diria Skank (para não fugir das citações). E sozinha me reestruturei. E ao longo de mais um ano fui experimentando minhas asas, sendo que o primeiro passo foi dar um toque de realidade estampando-as de fato, num arranjo lindo, no qual virei passarinho de vez, com o sopro da música dos meus pais eternamente sobre meu ombro direito. Assim posso sentir a mão da minha mãe sobre meus ombros, alongando minhas asas, trazendo ventos mornos musicais que as ajudem a alçar voo.

O ano era 2014. E em mais um ano com dois verões, eu, finalmente, fui para um albergue espanhol. Saí daqui para lá com a trilha sonora pronta, graças ao novo álbum dos meus queridos, exaltando as areias de Barceloneta. Poucas roupas, poucas coisas, afinal, para voar, é importante ser leve. E foi, até agora, um dos mais belos voos. Indo sozinha, não estive sozinha em momento algum. E não sei, se naquele albergue, fui eu que entrei, ou se ele já estava ali, sei que não estava de batom caqui, mas sonhei com tardes impossíveis, aquecidas pelo sol, com gosto de nectarina, sal e piscina. E minha trilha se desfez e refez, acrescentando versos que me faziam querer fugir e ao mesmo tempo nunca mais sair dali.

Dizem que a gente nunca volta a mesma pessoa de uma viagem. Estão certos. Há doze anos atrás as Black Hillls e os Sioux me ensinaram isso. Hoje o albergue espanhol confirmou. Eu não sei onde minhas asas ainda vão me levar, mas agora já às testei e sei que são capazes de longos voos. E embora eu tenha demorado para começar a usá-las, pretendo que tenham vida longa e se mantenham exercitadas. Sempre me senti nômade no coração, e, embora tenha viajado todos os anos da minha vida, praticamente, as temporadas nunca ultrapassaram um mês fora. Ainda tenho amarras de responsabilidade. Mas vou voando, para ver até onde dá para ir. E de preferência, ir além, sempre. Sempre passarinha!

 

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