The purpose of life

Essa madrugada estava eu num vôo internacional abençoado e assisti ao filme A Vida Secreta de Walter Mitty. Mitty se revela ao longo do filme, que é entretenimento hollywoodiano, entendam bem. Um desavisado pode ver a estória distraidamente e achar que o personagem sofre uma drástica transformação, de burocrata com problemas de socialização a aventureiro destemido barbado nos Himalayas.
Mas não é bem assim. Na verdade, não é nada assim. Mitty, aos dezessete anos tinha um moicano e ganhava campeonatos de skate. Porém ele perde o pai, acaba não fazendo o mochilão para a Europa que tinha planejado, guarda tudo, arruma um emprego. Dezesseis anos em outro emprego já, e um belo dia, numa curva da vida, leva uma sacudidela que, longe de o transformar em outro, apenas faz com que ele volte a ser quem era. O aventureiro já estava lá muito antes do burocrata.
Os motivos que levam as pessoas a se afastarem de quem elas eram na adolescência são muitos, mas digo com conhecimento de causa que a perda de um pai, definitivamente, ou te enlouquece de vez, ou te joga na tal vida adulta com tudo! De uma hora para a outra você se vê responsável por você mesmo e pela tal vida séria, e nessa transição, ninguém sabe exatamente o que isso significa na prática. Seja por conta dos estereótipos, muitas vezes revestidos de necessidade, ou por falta de opção, mas aqueles que perdem seus cuidadores nessa fase acabam se enquadrando na vida adulta de uma forma pouco natural e forçada. Pode ser a forma que você enxerga os adultos sérios, ou que acha que é esperado de você é de repente, lá está o trabalho, o estudo, a responsabilidade e a falta de tempo.
Eu não tinha dezessete, tinha dezenove. A curva da minha vida que gerou a sacudidela não demorou dezesseis anos após isso para chegar, apenas cerca da metade desse período.
Sou às vezes confrontada por amigos e familiares, e mais freqüentemente por mim mesma, por ter mudado muito em menos de dois anos após a sacudidela. Nesse período passei de aspirante à diplomata para professora aspirante a ser livre, com os cabelos cada dia mais claros, algumas tatuagens e alguns carimbos no passaporte nada oficial.
Pois bem, quando o confronto é pessoal, tento me lembrar de quem sempre fui, e para quem já me conhecia, lembro-os agora, para quem me conheceu depois dos dezenove, os apresento a Juliana adolescente. Ela não tinha tatuagens, mas fez um piercing no nariz sem autorização, viajava todos os anos, dos treze aos dezessete, por conta própria, sem os familiares, pelo menos uma vez ao ano, com suas economias. A Ju comemorou os dezoito fazendo rappel numa cachoeira de 40m. A Ju de dezesseis fazia circo e entre outros malabarismo, cuspia fogo. A Ju fez natação, e pulava de trampolim. Pintava o muro de casa com desenhos em escala gigantesca.
Só que ela era também nerd, CDF, caxias. Formou com a segunda maior média geral da escola e ninguém ligava se ela cuspisse fogo ou se tinha um piercing não autorizado, pois suas obrigações estavam sempre em dia.
Pois bem, a Ju de hoje, eu, continuo nerd e CDF. Não saio sem meus livros debaixo do braço. As contas estão pagas e as responsabilidades em dia.
Então, por favor, entendam, que eu não estou virando outra pessoa! Pelo contrário, sou hoje mais eu do que nunca. E lembrem-se que o sono em albergues lotados, bancos de trem, ônibus, aeroportos, são muito mais confortáveis que o sono em cadeiras de hospital. Lembrem-se que a tensão e o estado de alerta de quem faz uma viagem sozinha não é nada comparado à tensão e ao estado de alerta de quem, a cada telefona, teme que aquela ligação seja a fatídica que anunciará o fim de mais uma vida querida.
Continuo querendo abraçar o mundo com as pernas, como o Menino Maluquinho, exatamente como queria na infância.
Só que existem muitas formas de abraçar o mundo, e depois de passar pelo estupor de perder não um, mas os meus quatro entes mais queridos, levei a sacudidela que precisava para voltar a ser aquela menina que cuspia fogo e fazia um piercing numa bela tarde de quarta-feira.
Walter Mitty não vira outra pessoa e eu não virei outra pessoa. É só um jeito diferente de virar adulto, de ser responsável, um jeito forçado, que faz com que você demore para descobrir como ser adulto e ser o você de sempre ao mesmo tempo. É ser responsável e ser o seu eu aventureiro, às vezes nerd, tudo junto.
Não poderia ter encontrado melhor companhia para a madrugada do meu vôo. A cada wifi a gente conversa.

“To see the world, things dangerous to come to, to see behind walls, draw closer, to find each other, and to feel. That is the purpose of life.”

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