Sinto muito

Eu sou um tipo de gente estranha. Já mencionei que sempre fui muito contemplativa. Não sei se sofro de dupla personalidade. Acho que não. Às vezes sinto que sou várias. E quase todos os dias sinto que nos meus menos de trinta anos já vivi umas cinco vidas diferentes. Acho que o primeiro dos problemas é esse, sentir. Sinto muito. Sinto muito por perturbá-los com meu excesso de sentimentos. Sinto excessivamente.

A questão é que sempre fui extrovertida. Não sou tímida. Nunca fui. Muito pelo contrário, sempre fui oradora na escola, representante de turma e coisas assim. Mas sou introspectiva. É possível ser extrovertida e introspectiva ao mesmo tempo? Não sei, mas eu sou! É como se eu tivesse uma necessidade mais forte que eu mesma de participar do mundo. O mundo é tão raro! As coisas todas são tão intensas! E tudo flui! Ao meu redor, e através de mim. Não é possível ser alheio. Sou o mundo. E por isso mesmo, ao viver tão intensamente toda essa energia, preciso digeri-la. Preciso ruminar. Preciso pensar muito. E para isso preciso das minhas horas sozinha. Às vezes de minutos que sejam, no meio da festa, no meio do trabalho, no meio da rua.

Desde pequena eu tenho o habito de ir ao banheiro muito frequentemente. Em parte isso se dá porque creio ter uma bexiga diminuta. Minha mãe já reclamava horrores da minha necessidade constante de esvaziar meu corpo de líquidos. Some a isso o fato de que eu sempre bebi muita, muita, muita água. Água, chá, suco, sopa, leite, e líquidos em geral. Uma caneca me faz feliz. Mas sempre houve um outro motivo para ir ao banheiro: ficar sozinha. Por dois, três, ou cinco minutos que sejam. Uma pausa naquele mundo todo.

Eu sinto muita falta de pessoas! Sinto saudades do que nunca vivi, como diria Renato Russo. Sempre tive um quê de nostalgia e um quê de solidão por perto. Saudades de lembranças inventadas. Saudades de um futuro que ainda não aconteceu. Ainda? E será que acontecerá? E essa mistura da saudade do que nunca vivi com a nostalgia e a solidão sempre em fez questionar a minha fértil imaginação. Será que todas as minhas lembranças são verdadeiras? Às vezes nem eu sei.

A dicotomia que me assola, desde sempre, é essa dupla necessidade vital de estar cercada de pessoas queridas, e ao mesmo tempo de estar sozinha. Acho que eu sinto muito, e aí o meu balde transborda. É justamente o excesso de extroversão que me leva à introspecção. Eu não sei ser sozinha e ao mesmo tempo tenho uma relação íntima e ambígua de amor e medo com a solidão. Quanto mais sozinha eu fico, mais necessidade sinto de sair, de ver o sol e de interagir. E quanto mais interações ocorrem, mais eu me sinto compelida a me afastar, processar aquilo tudo.

E depois cuspir. Sim. Digestão é uma boa definição do meu processo extroversão – introspecção. Pois ele é cíclico, e depois de digerir, esses sentimentos refinados brotam em palavras. Palavras que às vezes são ditas ao vento. Às vezes compõe longos diálogos mentais entre Ju, Juju, Jujuba, Jurubeba, Julica, Jurema, Juliana e todas as outras que vivem em mim. Às vezes são ditas aos outros, conhecidos e desconhecidos. E mais recentemente começaram a ser escritas. O balde transbordou. Uma, duas, três, infinitas vezes. E os monólogos não foram suficientes. E ela não estava mais lá. Minha ouvinte. E Ju, Juju, jujuba e todas as outras se sentiram só. Se sentiram órfãs. Estavam órfãs de fato. Ai, como a verdade dói! E aí os dedos frenéticos entraram em ação. E sobrou para vocês. Sinto muito.

Sinto muito e aparentemente outros seres por aí sentem muito também. E aos poucos, aos pouquinhos, fui fazendo conexões em níveis nunca dante imaginados com esses seres. Por meio das palavras, por meio da comida, dos livros, dos filmes, dos abraços, e da música, ah, a música! E cada conexão dessas me trouxe uma quantidade de carinho e amor, que simplesmente é demasiada para o meu balde! Eu transbordo! Eu transbordo literalmente, em lágrimas de excesso. Já chorei infinitas lágrimas de saudade! Muitas de tristeza. Várias de desespero. Algumas de amor. Já chorei de raiva, já chorei de dor, já chorei de amor. Mas hoje eu choro, simplesmente, porque não cabe mais. Eu não caibo mais em mim. Eu sinto muito. Eu sinto muito, mas essas palavras são as irmãs gêmeas das minhas lágrimas de excesso. São todos esses sinto muitos que não couberam dentro de mim.

E essa energia flui de um tanto, que minha mente inquieta gira cada vez mais rápido, e esse mundo enorme já está ficando ridiculamente pequeno. Eu estou transbordando de mundo também. E até os autores desconhecidos que leio se conhecem. Seja na realidade, seja nas referências, na intertextualidade ou em mim. E quanto mais eles se encontram em mim, mais eu transbordo.

Hoje eu fiz um chá, orgânico, parte dos meus cuidados pessoais, e fui ler. Enquanto lia um romance, li sobre como os escritores são solitários e os personagens, e, obviamente o autor, discorriam sobre a tautologia da solidão e da escrita, divagando se todo escritor é solitário ou se é a solidão que os leva a escrever. E as lágrimas transbordaram. E as palavras também. Eu, embora esteja longe nesse caminho dos escritores, sei que as palavras que cuspo, advém da solidão. Da falta da minha ouvinte.

Uma hora dessas, a noite, eu já estaria atormentando-a no limite de suas forças cansadas de fim de dia. Exigindo e demandando de sua atenção como só uma filha é capaz. Desrespeitando suas horas de silêncio, e tagarelando loucamente sobre o livro lido. Em mais algumas horas eu começaria a ler o livro em voz alta, palavra por palavra para ela. E amanhã, o inevitável ocorreria, e ela com aquiescência me pediria: – “Você se incomoda de reler os primeiros capítulos e começar o livro do começo para mim em voz alta?” E meu coração dispararia de alegria e satisfação, nessa possibilidade de ler duas vezes, para mim e para ela. E de sentir tudo triplicado, por mim, pelos personagens e por ela. E eu sentiria tudo ainda mais.

Eu sinto muito. Eu sinto demais. E hoje eu não leio em voz alta. Na verdade, hoje em dia, às vezes passo mais de vinte e quatro horas sem usar a voz. Embora esteja falando o tempo todo com os dedos. Seja uma simples mensagem de whatsapp ou esse longo texto, que é o que cuspo hoje. Excessos. Tudo excessos. Sinto muito pelos meus excessos também.

Eis que enquanto eu sentia tudo isso muito, e lia, li também uma mensagem. Era uma amiga, à qual eu tinha me referido nos meus excessos anteriores, já que na falta da ouvinte, já tinha começado a transbordar publicamente mais cedo. A amiga leu meu excesso, que a mencionava, e retribuiu a menção, fluindo em excessos, ao dizer que tinha feito comidas que a remetiam a mim. Saladas, orgânicos, comidinhas de Juju, em suas palavras. E aí eu transbordei de vez. E minha solução para estancar o transbordamento úmido literal, foi recorrer, mais uma vez à essa forma de transbordar pelos dedos.

Eu não sei se é a solidão que leva os outros a escrever, ou se os que escrevem procuram a solidão. Mas eu sei que eu preciso da solidão da mesma forma que eu preciso da companhia. E as duas me fazem transbordar. Seja em lágrimas ou em palavras, a extrovertida e a introspectiva sentem muito. Eu não sei ainda o que será dessas palavras. Elas deixam de ser só minhas quando saem dos meus dedos. E passeiam por ai, ao sabor do vento. Mas eu sei que elas precisam sair. Então mais uma vez, eu sinto muito por incomodá-los. Sinto muito pela necessidade de me expor. Sinto muito por ser extrovertida. Sinto muito por tudo o que eu deixei de dizer também, e olha que não foi pouco. Sinto muito por não ouvir mais. Sinto muito por não ter ouvido minha ouvinte mais. Sinto muito por tudo, mas espero que por agora vocês já tenham entendido, que o problema é justamente esse. Eu sinto muito!

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