Confissões de não-adolescente

Eu, como muitas outras pessoas, já passei pelas aventuras e desventuras de ter uma televisão por assinatura e tudo o que cancelamentos, discussão sobre preços, planos, renovações, fidelidades, e assinaturas podem gerar. Da euforia a depressão, da mágoa à raiva, da alegria simples a desilusão, por fim, eu desisti. Mantive apenas a conexão vital da internet e me rendi as modernidades, adquirindo uma Apple TV que conecta minha conta Netflix a minha tv. Propagandas a parte, por enquanto estou feliz, e dediquei minhas noites de férias a colocar em dia a sétima temporada de How I Met Your Mother.

Para aqueles não familiarizados com a série, trata-se, grosso modo, de um grupo de amigos contando suas peripécias ao longo de nove anos, e falando de todo tipo de relacionamentos. Tenho um cérebro que se dedica, em plano de fundo, a fazer conexões de todo tipo, seja relacionar livros lidos, citações, músicas com letras correlatas ou acreditar num mundo cabalístico, e, fato é, que estou sempre vendo ligações entre qualquer coisa e coisa nenhuma. Citando Skank, para exemplificar o que acabei de dizer, se Tom Jobim pode, eu também posso, embora as minhas palavras sejam muitas e não uma nota só, já vivi tanta coisa que não acredito em nada, ou no meu caso, acho que passei a acreditar em tudo.

E um dos episódios assistidos mostra os amigos num ritual de a cada três anos assistirem juntos a trilogia Star Wars e conversar sobre como suas vidas estarão em mais três anos, na data do próximo ritual. Pois bem, deixando a série de lado, tentei ir dormir, e me peguei fazendo a mesma coisa. Imaginando não como estará minha vida em três anos, mas em como eu imaginei, nos últimos nove anos, que minha vida estaria a cada três, e como, obviamente ela não esteve. Assim como na série, meus melhores amigos são os mesmos, há muito mais do que nove anos, embora novos tenham se adicionado com parcimônia ao longo desse tempo. Agora, finalmente, cheguei, em termos de casa e situação financeira, em algo parecido com o que acreditava que estaria há uns seis anos atrás, embora nunca fosse capaz de sonhar com as circunstâncias. Sabedora de que a vida é sempre mais estranha que a ficção, deixei, numa espécie de meditação ativa, meus pensamentos simplesmente virem e irem e o resultado foi tão inusitado que resolvi escrevê-lo.

A cerca de nove anos atrás comecei um relacionamento que se tornou sério e ocupou oito anos da minha vida. Nunca imaginei que isso aconteceria, mas deixei que acontecesse e agradeço por assim ter feito. Hoje sei como é ter um relacionamento sério e longo, e mesmo sabendo que cada relacionamento será diferente, tenho a oportunidade de me conhecer num desse tipo, e ainda estar numa idade em que tudo é possível, já tendo experimentado algo assim. Por outro lado, nesse um ano que se completou, de solteirice, tive a oportunidade de me testar e saber como reajo a circunstancias fugazes. Não me decepcionei. Pelo menos não no conjunto da obra. Obviamente, tive inúmeros momentos de decepção, comigo mesma e alheios.

Mas entre pensamentos que iam e vinham, pensei em como conheci e me relacionei, fossem novas amizades, ou não, com pessoas de todos os tipos. Sou eclética, embora mantenha um bottom line alto. É como na música, raramente ouço aos hits do momento, embora eles estejam presentes e marcantes, mas gosto do lado B de muitos artistas, e fuço para conhecer aquilo que não é visível a todos que os escutam fugazmente. Ou como com os livros, já li muito best seller, mas também detenho títulos muito pouco conhecidos, sem falar nos clássicos. E em meio a maré de pensamentos lembrei das brincadeiras de Barbie e de como meu Ken nunca teve nome. E é aqui que eu parei, e pensei de verdade. Minhas primas davam a seus Kens, naturalmente, seus nomes preferidos. Eu não. Eu não queria estigmatizar o Ken. Não queria escolher seus atributos e depois sonhar com eles. Queria que o Ken simplesmente fosse. Desde que eu pudesse brincar com as outras meninas, e que minha Barbie tivesse uma família, não queria decidir nada a respeito do meu Ken. Nem seu nome, nem seu trabalho, queria que ele existisse apenas. Logicamente ele era um boneco, e nunca foi nada. E ficou ali, aquela interrogação. Sempre deixei o espaço do Ken em aberto, para ver o que a vida me traria. Vale ressaltar que passei alguns anos escolhendo cuidadosamente minhas Barbies, e embora sempre tenha amado todas as que ganhei, tinha um orgulho escuso de ter uma família completa, Barbie, Ken, Stacy, e duas filhas menores, onde todos tinham cabelos castanhos, e dois deles, a Barbie e a criança, olhos mel. Por mais besta que pareça, era muito difícil não ter só Barbies loiras. Com alguma sorte juntei a Bela (da Fera) com um Ken inspirado no Tom Cruise (moreno) e consegui essa façanha. Não que eu tenha preferência por pessoas loiras ou morenas, mas era um feito ter uma família de castanhos em um universo de loiros.

Passada a infância, e com ela as Barbies, continuei sem dar nome ao meu Ken. Ao contrário das minhas amigas, que faziam listas de atributos desejados no amor de adolescência, eu só queria viver. E, secretamente, sempre desejei que a vida me surpreendesse. Com isso fiz amigos de todos os tipos e gostos, e continuei eclética. Não namorei na adolescência, por opção. Tive um longo relacionamento, só porque queria ver como seria. Vi e gostei. Acabou e gostei também.

Eu sempre soube do que não gosto, e quando começo a não gostar de algo, saio logo de perto, e aquilo acaba. E então, finalmente, caiu a ficha. Eu sempre soube do que não gostava. Mas, do que eu gosto? Ou melhor, o que eu desejo? Nunca me arrisquei a desejar nada! Pelo menos não no campo do amor. Sempre achei que queria deixar a vida, o destino, Deus, o Universo, decidirem por mim. Será que eu teria direito a algo? Será que seria merecedora a encontrar alguém algum dia? Nunca quis definir uma resposta pra isso. E você me pergunta, oito anos num relacionamento e você não sonhava com o futuro? Sim! Sonhei muito. Só que sempre com os futuros. Nunca um só. Sempre vi todas as portas abertas, para você e eu, citando Skank de novo (olha o vício). Imaginar cenários sempre foi fácil pra mim. Vivo a vida jogando xadrez, e tenho vários movimentos planejados para cada um que a vida faz. E assim tenho conseguido ir me adaptando.

Sempre tive orgulho disso. Quem não gostaria de conviver, seja como filha, prima, sobrinha, irmã, amiga, namorada, com alguém flexível, disposto a ver o que a vida lhe reserva depois da curva, aberto a possibilidades? Isso tudo tende a ser muito bom. Mas e o que eu quero? O que eu gostaria? Eu não sei. E eu não sei porque nunca me permiti sequer pensar nisso. Nunca quis dar um nome para o meu Ken para não identifica-lo com alguém e criar expectativas. Continuo achando que não é bom criar expectativas. Odeio quando vejo as pessoas procurando por relacionamentos como quem procura preencher uma vaga de emprego, currículo à mão, sempre excluindo aqueles que não atendem os pré-requisitos. Não acho que isso funcione.

Mas comecei a pensar que também é preciso saber o que se quer. Eu ainda tenho que pensar melhor sobre isso. Eu ainda não sei o que eu quero. Mas agora sei que para ter, tenho que querer. Tenho que saber querer (e olha a citação ai de novo). Claro, nessa brincadeira meditativa, se eu simplesmente deixar os pensamentos virem, eles virão e também irão. As pessoas virão, e também irão. Mas onde eu quero chegar? Ou por onde eu quero ir? Não me importa o como, mas seria interessante saber pelo menos o que.

É um rascunho ainda, assim como eu sou um rascunho ainda, rabiscado sobre um papel amassado. Declaração mor de amor pra mim é a letra de Sutilmente. Mas será que eu sei ser simples, sutil, suave, súbita? Eu não tenho medo de me deparar com o desconhecido. Mas hoje eu descobri que tenho medo de querer. É como meu medo de borboletas. Sim, eu tenho pânico de borboletas. Cobras, aranhas, baratas, bestas-feras, já enfrentei e enfrento de novo a qualquer hora. Mas corro, perco a compostura, com borboletas.  Entranho? Muito! Sempre achei sem explicação. Hoje, comecei a entender. Não tenho medo do que todos tem medo. Aquilo que é desafio por definição eu enfrento de olhos fechados. Mas rapaz, pense num medo de tudo o que é simples, sutil, suave e súbito.

E pela primeira vez eu sei uma das coisas que quero. É a primeira da lista, e espero de coração que essa lista nunca seja extensa. Quero que minha lista seja simples, sutil, suave. Súbita? Talvez. Mas sei que desejo que algum dia, seja lá quem for o Ken, seja alguém que compreenda que apesar de enfrentar todos os monstros da vida, eu preciso que me dê a mão e me leve como se levaria uma criança, quando se tratar de lidar com aquilo que é simples, sutil, suave e súbito.  Sempre amei a poesia, e sou admiradora, seja Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, ou mesmo Pedro Gabriel, a.k.a. Antônio (último dos meus vícios, paixões). Sei reconhecer a poesia. Mas só hoje reconheci que sou eu também poeta, e não aprendi a amar.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s