O resgate dos passarinhos

A menina abriu os olhos e percebeu que era hora de ver o interior. Fechou-os novamente e brincou de olhar para dentro. Não como quem dorme, mas como quem vê. E viu, uma a uma as marcas. As cicatrizes que traz na alma e no coração. Nunca se incomodou com elas e a visão continuou sem incomoda-la. Para a menina, marcas não eram estranhas. Estranho eram aquelas pessoas que se mostram perfeitas, sabe-se lá quais marcas muito piores e mais profundas não escondem sob sua pele de porcelana. Ou ainda, que sejam espíritos tão jovens e inexperientes que ainda estejam imaculados. E no caso desses, a menina já sabia, que era só uma questão de tempo para que começassem a ficar marcados.

Abriu novamente os olhos, percebeu a luz azulada, a luz da manhã, filtrada por suas cortinas turquesas, aquele eterno ar de dia de céu azul, com passarinhos voando, mesmo que lá fora fizesse chuva. Ela piscou de novo, e tentou entender que cisco era aquele, que a fazia piscar. E soube, imediatamente que não era um cisco real, ou melhor, que era um cisco muito mais real do que uma partícula de poeira, era um cisco da alma. Sim, ela estava acostumada com esses ciscos, que gostavam especialmente das manhãs de domingo para se soltarem, como pele velha, cílios gastos, poeira levantada pela lembrança, que cai no olho e arde. E a vontade de chorar se camufla em cisco de alma.

Então ela decidiu que era hora. Não hora de levantar, nem mesmo hora da faxina, ou do exercício. Era hora de polir. Polir cada uma daquelas cicatrizes, para que elas soltassem a carne envelhecida, os pelos soltos, e saíssem assim os excessos, para que os ciscos não lhe caíssem aos olhos em momentos indevidos. E agora você me pergunta, mas como é que se pode polir as cicatrizes da alma? Com ternura. Com muita ternura. E a menina sabia disso, sempre soube. O problema era que a menina não gostava dessa palavra: ternura. Sabia o que havia de bom nela, mas era algo que a irritava. Irritava pois era facilmente confundida com compaixão ou mesmo pena. Lhe gerava asco aquela transposição, aquela pena disfarçada de ternura. E por isso, a palavra parecia amarga em sua boca, desgostosa, ter-nu-ra. Revirada entre a língua e o céu da boca quase que com nojo.

Mas ela sabia que só a ternura serviria para polir suas cicatrizes. Por isso estavam tão acumuladas, nunca às havia polido antes. E, esse comportamento, durante algum tempo é bem razoável, mas depois que ela viu que só a ternura lhe amenizaria os calombos do espirito, não havia mais como não ver. Assim, a menina inspirou longamente, sua luz azul filtrada, e começou a polir. Começou, como deve ser, pelo coração. E por isso saiu ao sol. Saiu e andou muito, absorvendo toda aquela luz dourada-rosada com o calor incandescente do sol, capaz de derreter como cera de vela as queloides do coração. E sabendo que o polimento não apagaria às cicatrizes, apenas suavizaria o relevo, foi que a menina conseguiu continuar. Não tinha nenhuma intenção de se desfazer de sua história. Apenas achou que era hora de deixar seu interior faxinado, e aparar algumas arestas. E se na manhã de luz filtrada em casa a menina olhou e viu, na tarde de sol incandescente ela poliu o coração. E como as circunstancias de sua vida são sempre simbólicas, ela terminou a tarde toda suja de graxa e terra, após desmontar e montar sua bicicleta, que a levou até a luz do sol, onde poliu, poliu e poliu o coração. E com ele morno, com o que tinha calcificado no frio lá dentro, derretido e polido, ela seguiu, rumo a lua.

Sim, era noite de lua cheia, e o dia da menina era longo, pois ainda era fim do verão. E sob a luz prateada-azulada da lua a menina poliu o espírito. E acalmou aqueles sentimentos quentes torturantes como a angústia e a ansiedade, que torcem a alma. Esfriou o calor inquietante do medo do desconhecido, e poliu, poliu e poliu a alma. E os banhos de sol e lua lavaram a menina. Que durante todo o longo dia, olhava e via. Olhava e via a luz, olhava e via o seu lado de dentro, olhava e via o coração, olhava e via o espírito. E assim, ela sorriu. Sorriu não porque estivesse especialmente feliz, mas sorriu porque estava a caminho da paz.

E sob o luar, voltando para casa, a menina lembrou da rainha. E seu asco pela ternura se desfez. Dentre todos, logo a rainha é que viria lembrar-lhe a ternura? Essa sim era uma reviravolta que só servia para comprovar o bom serviço de sua limpeza interna. Ternura tinha seu avó mágico de sobra, daquela alegre, que ocupa e preenche os espaços vazios do mundo e da alma. Daquelas amarelas, cheias de risadas, assobios, e toques fortes e seguros. Ternura tinha sua mãe, com voz de veludo e mel, que cantava a ternura para dentro da gente, e enchia a alma sem perceber, sem ver, sempre com um que de melancolia no fundo da melodia, da tenra melodia.

Mas a rainha. A rainha dava às ordens, comandava o castelo, ensinava, servia e era servida. Era também carinhosa, mas tenra? E nesse momentos os pássaros voaram dentro de sua mente, e a menina viu! Toda a ternura, a ternura inumana da rainha, que era capaz de curar os passarinhos com sua suave e rara magia. E a menina se lembrou de todos os resgates de passarinhos que ela viveu com sua avó, a rainha soberana de seu castelo. Naquela mulher de fibra, existia uma ternura reservada aos animais, da qual poucos humanos eram merecedores. E por mais amor que ela tivesse aos seus cachorrinhos de estimação, mimos e passatempos, ternura era um sentimento que ela reservava aos pássaros.

Com mãos de plumas ela era capaz de pegar aqueles pequenos filhotes que caíam do ninho antes de saberem voar. Com assertividade e delicadeza raras e tão especiais ela envolvia os pequenos seres voadores quando esses confundiam o vidro com o céu. Ouviam um estrondo e ela gritava para a menina correr e afastar os cachorros. A menina corriam sem nem saber ainda o porquê, e chegando lá, sempre havia um pequeno passarinho machucado, desesperado, alvoroçado no chão. E quando a rainha chegava, eles ficavam imóveis, e aceitavam seu abraço, com uma calma irreal. E a rainha tinha sua própria enfermaria para alados. Com ninho de algodão, e água dada no bico, essas pequenas fadas disfarçadas de animaizinhos ficavam hospedadas por alguns dias no castelo, ganhavam tratamento e comida, e mesmo quando todos achavam que morreriam, um dia voavam. Voavam como se nunca tivessem deixado de voar. E alcançavam os céus, deixando sua música como presente de agradecimento.

No castelo sempre havia um pote de alpiste e a enfermaria, que era uma gaiola sem porta, que vivia destrancada. Além de vários bebedouros espalhados pelas janelas, para acomodar e sanar a fatiga dos que voam. E eles vinham e iam, sempre em liberdade. E pousavam na rainha como quem via nela uma mãe. E não era o alpiste, nem a gaiola sem portas, nem o ninho de algodão que os curava. Era a ternura daquela mulher. Uma ternura que poucas vezes vi. Uma ternura que ia muito além da compaixão e da pena. Pois havia nela a certeza de que o amor cura e renova. Ela não acolhia os passarinhos aleijados para que tivessem uma morte tranquila. Ela os devolvia a vida. Sempre! E quando isso acontecia cessavam as ordens, parava-se a cozinha, e toda aquela assertividade era convertida em ternura. Ternura dessas que só conheci na luz dourada do sol, na luz prateada da lua, e no resgate dos passarinhos da avó-rainha.

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