Os personagens reais: Colecionadoras de Histórias

(texto de 2013, vai bem com o fim de semana do dia das mãe e é também um dos definidores da estrutura atual do blog)

Os pensamentos de hoje são difusos, e espero que não me levem a mal.

Já contei para vocês como a rotina noturna minha e da minha mãe se baseava em ela colocar uma música, e discutíamos e analisávamos, aproveitávamos e nos emocionávamos. E depois eu lia um livro em voz alta para ela. Sim, esse era nosso cotidiano.

Percebi que isso acontecia desde sempre. O primeiro livro que li foi Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato. O primeiro livro, porque as primeiras leituras foram Turma da Mônica, Mauricio de Sousa. Mas tudo aconteceu as mesmo tempo, não existiu cronologia nas minhas leituras, apenas um grande momento. Minha mãe estava lendo esse livro, Reinações de Narizinho, em voz alta para mim, eu tinha seis anos, e no meio do livro eu comecei a ler. E ela simplesmente deixou. Continuava a deitar comigo a noite, segurava o livro, só que em vez de ler pra mim, eu lia pra ela. E assim fiz durante muitos anos, desde que comecei a ler, lia para ela.

E aprendi a ler interpretando, ela fazia sonoplastia, repetíamos “os atos” preferidos. Li contos, estórias, histórias, li trechos de livros de estudos, li poesia, li besteira, li gibi, li revista, tudo que gostava, que queria compartilhar eu lia para ela. E ela tinha uma paciência infinita para isso, só para minhas leituras e para a música, mas tinha. E assim eu cresci íntima dos meus personagens. Sempre me fizeram companhia e ganhavam vida dupla, pois além de lê-los eu os encarnava, encenava, ria, chorava.

Mas esse é meu lado, tem o lado dela. Ela fazia a mesma coisa comigo, só que com a música. Bia Reis era uma colecionadora de estórias e histórias. Uma das melhores. Ela buscava, ouvia, tirava, escavava, ganhava de presente as estórias. E transformava em trabalho bonito, espalhava pelo mundo, levava aos quatro ventos. Só que entre a busca e os quatro ventos tinha eu. A incógnita mor, que cresceu atrás das coxias, vendo shows de viés, dormindo nos camarins, esperando, admirando, aborrecida às vezes, maravilhada às vezes.

Quando ouvíamos novas músicas ela me contava as estórias e histórias que não estavam gravadas. A estória da estória, a história da estória, e divagávamos, curtíamos, aproveitávamos e saboreávamos aqueles fatos. Cresci achando tudo tão normal.

Aqui estou cerca de um ano e meio sem minhas estórias. É a parte que mais sinto falta. Essa semana ouvi uma entrevista na Nacional, um músico falando de outro, nem sabia que eles se conheciam, mas conheço o trabalho dos dois. Nenhum deles me conhece. Nenhum deles faz ideia do quanto sei sobre eles e sobre tantos outros. E pela primeira vez percebi algo óbvio. Os personagens da Dona Bia são reais. Alguns já se foram, mas a maioria está aí. Só que conheci as estórias e histórias deles, se compondo ao longo dos anos, em tantos detalhes, de forma anônima, que sempre os percebi como personagens tão (ir)reais quantos os dos meus livros. Me fizeram companhia mais do que imaginam, sem ter ideia de que eu existo.

Esse pensamento é tão estranho e engraçado. Nunca estranhei saber tantas coisas, sempre foram estórias próximas e ao mesmo tempo distantes, como um livro querido, daqueles que a gente sente falta quando acaba.

A gente brincava que ela ia escrever um livro o “Memórias do Memória”. Eu pedia pra ela escrever, ela dizia que eu é que escreveria, quando ela se aposentasse. Faltaram 20 dias… a aposentadoria nunca chegou, nossas histórias cessaram. Meus livros estão no coração e na estante. Meus personagens, tão amigos, comigo para sempre. E os dela estão por ai. Alguns são amigos de amigos, fico sabendo de outros pedaços das estórias, por tios, primos, amigos e amigas. São pessoas que continuam próximas da minha vida, e que continuam sem ter a menor ideia de que eu existo ou de que já os tive tão próximos como personagens de livros.

Eu queria muito que ela tivesse escrito o tal livro. Poderia ter gravado, anotado e guardado relatos. Mas não o fiz. Era só o meu dia a dia. Foi só o meu dia a dia por vinte e cinco anos. Um quarto de século e pelo menos vinte anos de histórias e estórias. Não, racionalizar emoções já é difícil, imagine perceber cada detalhe em cada dia. Os dias bons e os ruins, os com a paciência curta e os com muita paciência. Não, eu não lembro das estórias, não guardei isso. Só a emoção. A percepção da vida de um forma diferente, criativa, íntima.

Tenho certeza de que nesses momentos de trocas de estórias, a minha amizade com minha mãe surgiu e cresceu. Nessas horas não éramos mãe e filha, não falávamos se estava na hora de escovar os dentes ou se eu tinha feito o dever, se a saúde dela estava boa. Esses eram os outros momentos, quando éramos mãe e filha. Durante as histórias éramos só Bia e Juliana, colecionando histórias.

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