Biscoitos, óculos e vestidos

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A menina enxergava o mundo com novos olhos. O que teria lhe acontecido dessa vez? Uma nova revolução interna? A percepção da vida como ela é? Novas pessoas? Novas paisagens? Novas atividades? Não, óculos. Era o primeiro dia da menina usando óculos. E ela não usava óculos antes? Veja bem, havia alguns anos já que a menina sentia sobre seus ombros um peso maior que o de seus anos. Ao estudar e trabalhar ao mesmo tempo, desde os dezoito anos, sem falar nos cuidados dispendidos com a IMG_0064família, aos vinte e um já precisava de óculos de leitura. A diferença era que antes ninguém nunca tinha visto a menina com suas lentes sobressalentes. Apesar de ler muito, e todos os dias, esses momentos eram reservados para sua solidão, luz artificial, madrugada afora.

E agora? A menina suspirou e lembrou-se mais uma vez da médica carimbando a receita e falando: “Não é desse tão famoso e infame óculos de leitura que você precisa, você tem astigmatismo. E o que você tem sentido e confundido com cansaço é só meio grauzinho em cada olho. Nem precisa fazer esses óculos, mas vou te dar a receita. Se quiser testar, faz.” E ao suspirar ela pensava: “Como assim fazer se eu quiser? A gente não vai ao médico para receber uma instrução?” Colocou a receita na carteira e procurou não pensar mais naquilo.

Sentiu o cheiro dos biscoitos. Estariam prontos? Deixou um pouquinho o computador e foi espetá-los com um garfo, ato que a menina sempre achou tão violento, embora soubesse se tratar de método eficiente para checar o ponto de bolos e biscoitos. Ainda moles. Teria errado o ponto? Era a primeira vez que a menina fazia aquela receita e estava um tanto quanto insegura. O bom é que não havia ninguém para provar os biscoitos além dela mesma. Isso tirava qualquer expectativa ou possibilidade de decepção. Por outro lado, não havia ninguém com quem compartilhar os biscoitos. A menina ponderou essas duas situações e chegou à conclusão de que ela mesma era sua mais rígida crítica. Resolveria sua auto avaliação quanto aos biscoitos uma vez que estivessem prontos.

O celular vibrou. Ela viu na tela os desenhos que antecediam o texto da mensagem e reconheceu um grupo de amigas. Parou de escrever um pouco. Sim, já disse que a menina era muito Sofia nesse dia? Estava em tempo real se transformando em palavras. A contradição desse fato é que a Sofia vai de palavras à real. Mas antes de ser Sofia, a menina era Alice. E no mundo de Alice nada é aquilo que parece e tudo é o que não deveria ser. Logo a Sofia da Alice era real e virava palavras. E a mensagem? Pequenas bobagens do dia a dia. Um comentário sobre um filme mencionado na véspera.

O som captou os ouvidos da menina. Estava ouvindo uma banda já conhecida, porém tinha baixado algumas outras músicas. Nada novo, muito pelo contrário, mas qualquer som além do mais habitual se fazia perceptível como uma nova realidade para a menina. Era uma sensação muito parecida com a de ver o mundo com novas lentes. Novas lentes, ela sorriu e testou o peso de suas novas lentes apoiadas no nariz e atrás das orelhas. Via o mundo através de novas lentes. E ainda assim ele parecia exatamente o mesmo. A versão em HD do mesmo canal. High definition, o foco melhorado. A Alice na menina lhe soprou nos ouvidos, ou melhor, de dentro dos ouvidos: “Para vermos o mundo de outra forma, ou para vermos outros mundos não precisamos ver através de lentes e sim através do espelho”.

Isso era uma verdade incontestável. Era através do espelho, olhos em seus próprios olhos, olhos nos olhos de Alice, nos olhos de Sofia, que a menina via o mundo de outra forma. Seus verdadeiros óculos eram os olhos da Alice, que a faziam ver em seu mundo cotidiano o País das Maravilhas, Oz, e as páginas de sua própria história, só esperando para serem codificadas em palavras.

O cheiro dos biscoitos invadiu novamente suas narinas. Mais forte dessa vez. Teriam queimado? Como era difícil às vezes soltar os dedos que batiam no teclado com leveza, porém colados às teclas. Outra música nova. Isso a ajudou a tirar os olhos da tela, e, um a um, desgrudar os dedos das teclas e usá-los para segurar o garfo e a luva de cozinha. Lá ia Alice, espetar seus biscoitos. Ficou se perguntando o que Absolem diria daquele ato. Espetar biscoitos. O que os biscoitos diriam se pudessem? Ela já não se espantava com essa possibilidade. Talvez não compartilhasse os biscoitos com alguém, mas ao invés, na melhor forma Alice de ser, compartilhasse suas ideias com os biscoitos.

A caminho, entre o forno e a cadeira do computador, vislumbrou os vestidos sobre a cama. Três vestidos bonitos, femininos, cheios de estampas. Em mais um momento surreal havia experimentado aqueles vestidos por sobre suas roupas, no meio da rua, mais cedo. Uma amiga estava vendendo-os. Pensando bem, o meio da rua era o meio da rua, mas também não era. Já que a menina Alice vivia em seu perfeito ambiente, uma terra onde nada é o que parece e tudo é o que não deveria ser. A menina vivia numa terra onde o céu era o mar. E onde o meio da rua era um lugar reservado, e os lugares reservados eram públicos.

Pensou novamente nos vestidos sobre a cama. Precisava prová-los novamente, de forma adequada, e responder a amiga se os compraria ou não. Estava em casa há horas já. Porque não tinha feito isso ainda? Tudo bem, havia os afazeres domésticos, cozinhar, lavar, arrumar, guardar, que lhe tiravam parte do pouco tempo livre. Mas era mais do que isso, vinha dessa inércia externa, que correspondia exatamente a crescente inquietude interna. Quando essa lhe subia à garganta, a menina olhava ao redor, via sua pequena casa tão perfeitinha. E mais uma vez constatava que do lado de fora da boca só havia solidão. Se alongava então, estalava o pescoço, e ligava o computador. Seus olhos miravam a tela como quem vê, ou revê, seu verdadeiro amigo. E os dedos batiam as teclas com leveza, porém tão rápidos que era necessário reler o que foi dito várias vezes depois.

Ajeitou mais uma vez os óculos que lhe pesavam sobre as orelhas, sentiu mais uma vez o cheiro dos biscoitos, e nas idas e vindas entre forno e tela, olhou longamente para os vestidos sobre a cama. Sempre a lembrando que haviam tarefas infinitas. Que sempre haveria algo novo a ser feito. Uma outra viagem, uma nova experiência. Outras pessoas, outros cheiros, outras paragens. Isso era reconfortante, embora não o suficiente para expulsar aquele pensamento inquietante a respeito da vida. Era isso então? Como os ovos de Clarice? Trabalhar, preparar, corrigir, arrumar, cozinhar, lavar, guardar. Adicionar novos acessórios que só serviam para lhe assegurar que os anos passavam, e que a lembrariam disso em todos os momentos.

Os biscoitos! Que esforço tremendo para soltar os dedos das teclas e espetar biscoitos. Por outro lado, enquanto não grudava os dedos nas teclas nada mais acontecia. Novas músicas, novas roupas, novos acessórios, novas receitas. Novas pessoas, novas paragens. A vida era assim, e isso não era o bastante. Mas talvez, só talvez, os dedos nas teclas fossem. Sua verdadeira janela para a alma. Um processo digno de Sofia e Alice. Para aqueles que pareciam querer atravessar o espelho, ver o mundo por novas lentes já era o suficiente para encher a alma. Talvez e só talvez o que a menina precisasse não era encher ainda mais sua alma, e sim dividi-la. Dividi-la em várias pequenas palavras, e soltá-las ao vento. Abrindo dessa forma uma janela para sua própria alma. Talvez a encontrassem através daquele espelho que levaria somente a ela mesma.

Os biscoitos estavam prontos. Com cara boa. Talvez estivessem gostosos. O peso dos óculos continuava ali, como o peso das perdas da vida. Nada que a impedisse de continuar, apenas, um lembrete constante de que os anos passam, de que a vida passa, e que entre biscoitos e vestidos, talvez haja algo mais, e talvez não. Talvez seja só a vida. A menina releu suas últimas e linhas e pensou, que talvez, se a vida for isso, não seja nada ruim. Biscoitos, vestidos, acessórios que contam o tempo, e dedos que contam histórias, que falam mais do que sua boca. Toda vez que suas palavras ditas ao vento ricocheteiam na solidão, seus dedos encontram na vastidão das palavras o consolo de muitos olhos anônimos. Que olharão, talvez, através de suas palavras, e verão, talvez, sua alma.

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