Unha Quebrada

O banheiro tinha cheiro do seu sabonete preferido: lavanda. Todos os cheiros eram só seus naquele lugar. Os sons também. Isso era tão reconfortante. A menina pensou em todas as vezes em que sonhou em ter um lugar só seu, só seus cheiros, só suas cores, só seus sons, só seus gostos. O banheiro era um pouco pequeno em demasia, verdade. O apartamento todo era pequeno, mas isso a fazia ainda mais feliz, era seu recanto, sem muito espaço para outros disputarem. Cantarolava, às vezes com murmúrios, às vezes com palavras, Sweet Child of Mine, Guns&Roses. Enfiou os dedos por entre os cabelos molhados, com as mãos cheias de xampu e os olhos fechados. Sentiu aquela gastura: uma unha quebrada!  Sentiu o momento exato que um fio de cabelo entrou na rachadura do dedo médio da mão direita. Em ato reflexo, puxou essa mão rápido de entre os cabelos e olhou. Só viu bolhas feitas pelo xampu, e um mínimo traço branco na extremidade da unha, perpendicular à base. Odiava aquelas rachaduras verticais. Demoravam mais para sair e era necessário lixar a unha toda. Gostava muito de cuidar das próprias unhas, e, embora achasse pouco pratico ter unhas longas, gostava das suas ligeiramente compridas, lhe remetiam à garras e isso gerava um certo orgulho, embora não conseguisse explicar porque isso pudesse ser motivo de orgulho.

Voltou com as mãos por entre os fios de cabelo, lutando com o movimento mecânico, decorado pelo corpo, mantendo apenas o dedo médio acima dos fios. Não, não doía. Unha quebrada não é machucado, mas cada vez que levantada por um fio, de cabelo, ou roupa, que fique bem claro, a gastura não era nada convidativa. Olhou em volta, já com os cabelos enxutos, e viu os potes de cosméticos no chão. Gostava de seus cosméticos. Tinha cultivado o gosto ao final da adolescência, e somente na vida adulta passou a comprar e gostar de cuidar bem das unhas e cabelos. Gostava dos seus cheiros, só seus. Gostava das suas cores, só suas. E sentia o peso, a dicotomia, a dubiedade, entre o quanto gostava de ser mulherzinha, como diziam por ai, de ter unhas e cabelos bem feitos, e ao mesmo tempo de como achava irritante que para alcançar esse resultado demorasse tanto tempo e investimento em produtos.

Não entenda a menina mal, ela amava profundamente e por vontade própria a sensação do próprio corpo depilado, das garras feitas, dos cabelos limpos, arrumados. Se sentia muito mais higienizada, e genuinamente feliz quando assim estava. Mas achava de um ponto de vista ideológico um contrassenso o tempo e valor que mulheres investiam nisso, inclusive ela mesma, e como a sociedade esperava isso como natural. Não, não é. Pra ficar bonita assim leva tempo. Achava injusto e machista que homens e mulheres esperassem que as mulheres ficassem assim sempre e pronto. Pois bem, que inventassem então formas acessíveis e automáticas. Seria ótimo, como num jogo de bonecas, clicar e mudar a cor das unhas ou dos cabelos.

Deixou a divagação sociológica de lado, espremeu os cabelos encharcados com as duas mãos e desligou o chuveiro. Viu os potes no chão e pensou em seu avô. Que vergonha! Uma menina que como ela sabia usar muito bem uma furadeira, e suas coisas espalhadas pelo chão por falta de arrumar os apoios, pendurados irregularmente pela ventosa no azulejo. Fez uma nota mental para comprar buchas e parafusos e arrumar aquela situação. Abriu a cortina de plástico e se secou na toalha. Teria transtorno obsessivo-compulsivo? Se perguntava isso toda vez que fazia sua rotina de higiene pessoal. Rotina é pouco para definir. A menina sempre se secava com o mesmo lado da toalha, fazia as coisas na mesma ordem, passava hidratante no corpo todo antes de se vestir. Tudo sempre na mesma ordem. Com a toalha nos cabelos pegou o rodo. Não gostava de ter que puxar a água do banheiro pro ralo depois de cada banho, por falta de um box de vidro, mas amava sua cortina de bolinhas coloridas. Amava suas cores, suas formas, seu espaço. A unha! Ah, como se secar e não sentir a gastura de novo, da unha levantada dessa vez por um fio de toalha. Ao puxar a água com o rodo o fez em pouco movimentos precisos, tudo mantendo o dedo médio levantado. Colocaria um box ali depois.

Saiu do banheiro, sentiu a diferença de temperatura e humidade entre o ar em que estava e do quarto. Adorava essa sensação antes de se vestir. Colocou o pijama evitando os movimentos automáticos e mecânicos do corpo para não levantar a unha quebrada, mantendo o dedo médio levantado. Deixou a toalha enrolada nos cabelos mais um pouco, absorvendo a humidade e pensou nas coisas que uma unha quebrada significava para uma mulher. Uma quebrada é um sinal de desleixo, na visão mais machista da coisa. É também um sinal puro e simples de que se precisa tomar uma atitude a respeito. Uma unha quebrada não dói, mas às vezes fere o orgulho. O orgulho das unhas longas, garras. O orgulho da mulher perfeita de unhas impecáveis. O orgulho da menina só, que se vira como qualquer pessoa, e faz tudo sozinha. Será que não consegue fazer nada, nem tomar um banho, sem quebrar uma unha? Sabe, racionalmente que isso não faz sentido algum, mas deixa os pensamentos passarem por sua mente sem descriminação. Todos os que vierem.

Pensa que uma unha quebrada é como todos os outros pequenos problemas que enfrentamos no dia-a-dia. Não dói, não é grave, mas basta passar a mão pelos cabelos, ou pela roupa, fazer os gestos mais comuns e automáticos para se lembrar de que ela está ali, esperando para ser resolvida. E que se você não a lixar logo, em breve a rachadura irá aumentar. E só. Esse é o único destino de uma unha quebrada, piorar. Porque, então, às vezes as deixamos lá, sem cortar, sem lixar? Porque esquecemos, ou talvez porque temos orgulho das unhas longas e não queremos uma diferente no meio, ou seja, por comodismo, por orgulho besta, por preconceito. Por todos os injustificados motivos que fazem com que evitemos os pequenos problemas do dia-a-dia. Será que os homens conhecem tão bem a sensação da unha quebrada? Talvez sim, talvez não. Talvez conheçam o metafórico mais do que o da unha, propriamente dita.

A menina se lembrou de que ainda estava com os cabelos molhados enrolados na toalha depois de mais de trinta minutos de divagação. Levantou-se. Pegou o estojo com os instrumentos de manicure. Lixou a unha.

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