Sobre as fases da vida: O Hoje

Desde de muito criança, algo com meus seis ou sete anos, tomei as rédeas da vida em minhas próprias mãos, claro, sempre tive uma orientação cuidadosa, vista muito de perto, mas fui criada para saber tomar minhas próprias decisões e depois viver com elas e suas consequências. Agradeço a Deus todos os dias por isso! Já me salvou a vida, literal e metaforicamente várias vezes.

Mas isso também me gerou um senso de responsabilidade e obrigação muito grandes, e sempre ponderei muito bem minhas ações e decisões, tendo um traço de organização e planejamento muito fortes, quase irritantes. Nunca me incomodou, aprendi de cedo que é melhor fazer as coisas bem feitas uma vez só do que sair por ai corrigindo erros.

Meu planejamento sempre deu certo porque sempre tive planos A, B, C, e quiçá D, para cada situação na vida, sendo assim muito raras as ocasiões em que estes foram frustrados. E sempre cumpri minhas metas, o que dificulta que os planos sejam frustrados. Ainda mais importante, aprendi a ser bambu, e me curvar com o vento forte, ajustando rapidamente os planos e metas quando necessário.

Nos últimos anos da minha vida naveguei por uma boa dose de tormentas, segui o curso, apesar de muitas vezes não ver o caminho. Sempre soube onde queria chegar. Há aproximadamente dois anos me vi numa encruzilhada realmente nova, não sei mais onde quero chegar. Não concretamente. Não tenho mais o emprego dos sonhos, ou a vida dos sonhos, o curso dos sonhos ou a viagem dos sonhos. Alegro-me em dizer que já fiz a maioria desses, check and done on my bucket list! Ainda assim, sei muito bem e cada vez mais como quero viver. O que mudou muito foi meu foco: não penso mais no trabalho que quero ter ou em como minha aposentadoria será. Penso no meu dia-a-dia. Penso no que quero sentir todos os dias e não um dia, quem sabe.

Quero viver tudo de bom que estiver disponível para eu viver hoje, e o que for de amanhã, amanhã. Os planos e as metas continuam ai, sei onde devo ir e onde quero chegar, porque sei como quero me sentir. Mas os nomes, os títulos, esses não me importam mais da mesma forma. Ainda sei o caminho do rio, e as rédeas estão em minhas mão, mas perdi o medo de cochilar sobre o cavalo, já sei que não vou cair. No máximo, quando acordar, estarei algum metros pra lá da rota, facilmente contornáveis, e nessa dita volta, possível perda de tempo, no meu antes tão caxias raciocínio, agora vejo como uma possibilidade. Quem sabe não me aguarda, pela beleza de um dia, uma flor do deserto, ou um pássaro raro.

Quero viver a bonança agora, e justamente por saber que minhas mão não soltaram o timão em plena tormenta, não tenho mais receio de deixar o barco um pouco à deriva, só o suficiente para me deixar surpreender. Não me permitia a surpresa a muito tempo. Agora sei que se não for uma surpresa boa, é só voltar, é só seguir em frente.

Estava, literalmente dessa vez, no meio do Lago Paranoá, outro dia, quando me veio, assim como o vento cantando em meus ouvidos, uma passagem d’O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, que li a mais de uma década, e me senti de novo, a pulga do pelo do coelho do mágico, que sobe o pelo para ver além do coelho, que vê além da cartola, e se maravilha com o mundo, simplesmente porque ele é.

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