A Menina que não sabia chorar

A menina rodou o copo de cerveja na mão, segurando-o pela borda para não esquentar ainda mais o conteúdo. O copo ainda estava três quartos cheios, era o primeiro mas ela não aguentava mais. A verdade é que não queria beber naquele dia, naquela hora, mas estava mantendo a postura social. O mesmo não era verdade pra maquiagem, apesar do batom vermelho dar mais trabalho, e de ela passar a língua nos dentes constantemente para evitar os famosos borrões, gostava de estar maquiada. Se maquiava para si mesma, a qualquer hora e lugar e qualquer desculpa pra um batom vermelho era uma desculpa boa.

O menino não tinha bebido muito também, estava no segundo ou terceiro copo no máximo. A conversa fluía, cheia de amenidades e sem seriedades. Conversavam para se conhecer, conversavam pro tempo passar, conversavam por gentileza. Não que não estivesse bom, que não estivessem gostando da companhia um do outro, mas era uma coisa assim, parte da vida, do momento.

Ele virou e perguntou de repente o que ela tinha achado da peça. Tinham ido ao teatro, não juntos, não, não estavam juntos, mas tinham se encontrado, naquela vida social, e descoberto que tinham visto a mesma peça no festival, e de repente a pergunta. Ela suspirou, rodou o copo com a ponta dos dedos, pendurado nos dedos, viu um fio de água escorrer do copo suado, e pensou em como escolheria as palavras. Não que conversar sobre aquilo fosse difícil, não era, mas as pessoas se ofendem por tão pouco. Lhe cansava às vezes essa possibilidade. Não que fosse criticar, tinha gostado do espetáculo, mas é aquela velha história, gosto é igual bunda, cada um tem o seu.

Levantou os olhos do copo, aprumou o corpo e disse: “O texto é muito bom.”, assim, concisamente. Ele levantou os olhos e questionou: “Mas você não achou muito escuro? A leitura muito cansativa?”. Pronto, ele não tinha gostado e já estava ofendido. Que preguiça! Suspirou e retomou as palavras, girando-as na boca para testá-las antes de deixa-las sair: “Sim, é escuro, é entendo que possa ficar cansativo. Outras pessoas já me falaram isso. Talvez por conhecer o contexto, os estereótipos trabalhados não tenha me cansado”, pausou, deu um gole, viu os argumentos se formando por detrás dos olhos dele, pronto para rebater. Não, ela não queria discutir, não estava no humor de ter uma conversa técnica. Resolveu arrematar antes que ele tivesse chance: “Mas gostei muito do texto mesmo, é um poema, né?! Talvez por ter sido encenado em outro idioma muitas pessoas tenham se perdido, eu, como entendo bem, me deixei levar, cheguei a fechar os olhos e esquecer o escuro e me perder nas palavras. Você reparou que em alguns momentos o mesmo verbo é usado com três significados diferentes na mesma frase? Sim, eu sei que isso é bobeira e que um espetáculo é muito mais que o texto, mas sou muito ligada nas palavras e gostei por isso. Entendo opiniões contrárias. Vejo a razão nelas também!”. Pronto, enquanto falava ela assistiu aos argumentos dele se rearranjarem várias vezes por detrás dos olhos. No fim ele suspirou, deu de ombros e disse: “O poema é muito bonito mesmo, já tinha lido antes”.

Rodou o copo nos dedos aliviada, acabou a argumentação, estavam todos certos, cada um com sua bunda, com sua opinião. Odiava discutir gosto. Cada um acha o que quer. O silêncio se estendeu por menos de um minuto e ele voltou a atacar de forma inesperada: “Você tem opiniões muito fortes! Trabalha com teatro?”. Ela suspirou, e pensou: isso de novo?! Não, não trabalhava, mas cresceu em uma família que sempre exaltou e trabalhou com arte, teatro, música, jornalismo. Um ambiente onde foi cuidadosamente ensinada a ter opiniões fortes, onde isso era prezado e alimentado. Achou que tinha sido suave, mas falhara ruidosamente mais uma vez. Olhou pra cima e resumiu: “Não, mas por causa da família cresci na coxia. Assisti a espetáculos de toda forma desde cedo e fiz muitas oficinas, além de aulas de teatro e circo”. “Então você é artista!”, arremata ele. “Não, não sou.”, responde com um sorrisinho condescendente. Estava cansada de dizer que não era artista. Seria se quisesse. Por razões nas quais não costumava pensar muito não era. Escapou da especulação: “Não tenho talento, só conheço um pouco.”. “Aposto que tem talento sim!”. Ai, ele ia insistir!

Suspirou, bebeu mais um pouco. A cerveja já estava oficialmente quente e era ruim, de uma marca que não gostava. Mas não queria falar nada, todo mundo bebia daquela cerveja, não queria levantar outra argumentação acerca de seus gostos e opiniões. Continuou a beber em silêncio. Não tinha o que dizer. Tinha, mil coisas, para o mundo todo ouvir, mas estava desestimulada, desacreditada e tomada de uma preguiça que não combinava com sua personalidade. Nunca tinha sido preguiçosa, muito pelo contrário, mas vinha se escondendo na procrastinação no último ano. Disfarçava a procrastinação com o luto recente.

Perdera sua mãe a cerca de um ano e meio. O motivo parecia convincente para todos menos para ela. Ela sabia que era capaz de muito mais do que andava fazendo, mas já que o mundo se contentava com aquilo ela estava experimentando ser mediana por uns tempos. Cumprir com todas as obrigações tende a ser muito para as pessoas em geral. Até demais. Ela tinha apendido que isso era o de menos. Foi criada para surpreender, para ser a primeira da turma, para pensar mais rápido que todos, viver a vida como um jogo de xadrez, sempre prevendo até dez movimentos consecutivos para se planejar, preparar e estar pronta para cada investida da vida e das outras pessoas. Estava cansada, precisava de um pouco daquilo que é perfunctório! Amava essa palavra: perfunctório. Brincava com ela na cabeça. Lembrava do avô. Sorriu com a lembrança e o garoto achou que o sorriso era algo pra ele, ou algo a ver com aquela conversa com aquele momento e não com algo a milhas de distância no tempo, nas realidades paralelas.

Havia perdido o avô também. No mesmo ano do pai, cerca de seis ou sete anos atrás. Nossa, sete anos já, ela pensou. Como ela tinha vivido nesse meio tempo, tinha feito o que? Se lembrou. Tinha entrado na faculdade, começado a trabalhar seis meses antes disso, formou no tempo previsto, estagiou, teve cinco tipos de empregos diferentes, fez cursos de extensão, línguas, cuidou da mãe e da vó, pagou contas, fez compras, dirigiu mais de trezentos mil quilômetros entre idas e vindas dentro da sua cidade natal como acusava o odômetro do primeiro carro que teve quando o vendeu. Sorriu de novo com os pensamentos velozes e dessa vez o rapaz não se aguentou: “Então, tenho certeza que você tem talentos! Já apresentou alguma peça?”. “Não, só na escola!”, “Nadinha? Não acredito!”. Ela viu que não ia escapar. Resolveu dar um pouco de corda. “Já apresentei pelo circo, fazia malabares e aprendi a cuspir fogo na adolescência!”.

Pronto, estava dada toda a corda do mundo, era só contar que sabia cuspir fogo que as pessoas se empolgavam, queriam saber detalhes, falavam horrores. Sabia também que era um assunto seguro. Podia falar sobre isso, aumentar, diminuir, impressionar. A conversa fluía em campo seguro, longe de seus sentimentos. Assim ela podia apenas falar com a boca, enquanto a cabeça divagava, e ainda parecer interessada, atenta. Não é que ela não estivesse gostando da conversa, sei que é difícil de acreditar quando dito assim, mas é como o cérebro dela se comportava a anos. Mexer com os sentimentos era perigoso, levava a mente a cantos escuros, escusos. Não, era sempre bom manter as conversas alguns níveis acima da superfície. As profundidades eram muito trabalhosas e perigosas.

Percebeu que o menino ainda falava sobre suas habilidades circenses. Se perguntou se ainda as teria. Não as testava a alguns anos. Suspirou, já tinha deixado o assunto se arrastar muito. “Mas é isso, nada de mais”. “Como nada de mais?” ele retrucou, fez alguns elogios e perguntou sobre poesia. Ela respondeu, comentou seus autores e poemas preferidos. Se manteve sucinta e evitou detalhes. Tinha cada vez mais preguiça daquela conversa e ao mesmo tempo se não estivesse conversando com ele estaria fazendo o que? Não fazia parte do seu plano de procrastinar metas e viver perfunctoriamente por um período manter conversas aleatórias com estranhos? Sim, era isso que as pessoas faziam, isso se chamava fazer um social, conhecer gente. Resolveu dar mais uma chance pra essa habilidade social pouco explorada e mordeu a língua antes que o cortasse. Em vez disso deu mais corda, se perguntando onde aquilo ia parar e porque estava contando tudo aquilo. Aos seus ouvidos soava como se estivesse se vangloriando dos tais possíveis talentos. Teve um pouco de vergonha, se sentiu meio mentirosa. Ao mesmo tempo ponderou que não estava mentindo, era tudo verdade. Só não estava acostumada a contar esses detalhes para pessoas aleatórias.

Detalhes? Suspirou de novo! Aquilo não chegava perto de ser um detalhe. Aquilo era conversa fiada. Só não parecia. Deixou fluir, continuaram falando de música, livros, arte cultura.  Mesmo sem se esforçar reparou que conseguia chamar certa atenção. O rapaz acompanhava muito bem a conversa. Conhecia bastante. Conhecia coisas que ela não conhecia, indicava, e quando valia a pena, ela tomava notas mentais dos nomes de autores ou títulos mencionados por ele.

Pensou em como aquelas notas mentais era esforço nenhum perto dos estudos que estava acostumada a fazer. Ainda estaria acostumada? Sentiu um leve pânico na boca do estomago, o mesmo que sentia desde o fim da graduação. Ainda daria conta de estudar daquele jeito, naquele ritmo? Na época parecia fácil. Cada vez mais percebia que tinha sido um esforço considerável. Na época os problemas de família ainda estavam acontecendo, estava no olho do furacão. Não tinha nem chance de pensar se daria conta ou não, se era muito ou pouco, podia apenas seguir fazendo. Cumprindo com as obrigações como o avô ensinara e como tinha prometido a ele que faria pelo resto da vida na véspera de sua morte. Parece besteira, coisa de livro, mas lembrava daquilo sempre.

Tinha aprendido o significado das palavras procrastinar e perfunctório com o avô. Amava aquelas palavras. Odiava aquela ação e aquele adjetivo. Tinha aprendido com ele também a nunca procrastinar e a banir o perfunctório da vida. Tinha aprendido a ser eficiente, pragmática, competente, independentemente de como se sentisse. Era sua obrigação.

Olhou pra frente, gente, o menino continuava ali. Ou ela estava ficando mesmo boa em separar o que se passava internamente da realidade externa, ou ele era muito paciente e persistente. Quem sabe as duas, ou três coisas. Ele reavivou a conversa: “Mas me diz, você sabe imitar pessoas? Você faz leituras muito bem.” ,sim ela pensou, sei. E sei respirar, pelo nariz, pela boca e até a barriga. Consigo fazer vários tipos de dicção e aprendi a mover os lábios e os músculos do rosto para causar diferentes vozes e trejeitos de expressão, cuidadosamente treinados em anos de leitura em voz alta para a mãe. Uma radialista de dicção perfeita, obcecada pela forma como as pessoas falavam. A menina tinha aprendido a assistir filmes e imitar a forma como os lábio, queixo, maçãs do rosto se mexiam. Brincava de dizer a mesma frase no espelho, como se fossem várias. Tinha um trecho de uma música em que o cantor dizia “Lábios de mola”, ela ria, falando “lábios de mola” como se os lábios fossem molas. Achava aquilo fantástico na letra. Via como proposital. Amava letras de músicas. Gostava de brincar com a sonoridade das palavras, de degustá-las e testá-las.

Na infância fazia tanto isso que repetia tudo que dizia em voz alta, em voz baixa, para testar as palavras que tinha dito e o impacto delas. Se tornou um tique. A mãe criticou e reprimiu o tique por anos. Amigos e namorado também. Aprendeu a ser mais delicada, fingiu não ter mais o tique. Às vezes escapava. Era curioso como podia gostar tanto de palavras. Era uma leitora ávida e uma péssima escritora. Suas piores notas na vida escolar inteira eram em português. Sofreu horrores para escrever sua monografia de graduação. Escrevia errado, nunca decorava onde os pronomes deveriam ir. Esquecia regras, odiava regras. Lia gramaticas, fazia exercícios e continuava medíocre. Lia e ouvia todos dizendo que quem lê muito escreve bem. Balela! Odiava aquele ditado. Sempre tinha lido muito. Lia tanto que usava óculos de leitura desde dos vinte e um anos. Hipermetropia por vista cansada era o diagnóstico. Tinha provas médicas do quanto lia. Caixas de livros, mais livros do que cabia em sua estantes. Isso sem falar dos que lia emprestados, das bibliotecas, dos livros eletrônicos no Kindle que não ocupavam espaço, dos downloads, legais e ilegais. Blogs, revistas, panfletos. Lia a pasta de dente enquanto escovava os dentes e a caixa de cereal durante o café da manhã. Lia todos os manuais, as letras pequenas dos contratos, as abas dos livros e os prefácios. E não escrevia. Não conseguia nem manter um diário íntimo. Cresceu sendo cruelmente corrigida em voz alta e em público pela mãe e pela vó. Adorava se expressar, era cheia de ideias, mas tinha preguiça e medo de ser julgada por elas. Pelas ideias, pela mãe, pela vó.

“Eu disse que era talentosa! Você acabou de interpretar essa última poesia que disse!”, era o rapaz. Ele ainda estava lá, e aparentemente seu cérebro estava pregando peças. Poesia! Estava ela a recitar poesia sem perceber? Olho o copo na mão. Já não havia suor no copo. Temperatura ambiente por completo e só tinha bebido a metade. Desistiu, esvaziou o conteúdo na grama, dando um passo pra trás para não espirar cerveja quente nas botas e foi jogar o copo fora. Aproveitou para desanuviar a cabeça de todos aqueles pensamentos no ar frio da noite. Por que não tinham inventado uma penseira do Dumbledor ainda? Sabe, do Harry Potter, aquela bacia de pedra onde o velho diretor da escola tira seus pensamentos como fios de prata da cabeça e os joga na bacia para observá-los mais claramente. Suspirou! Sonho de consumo inatingível.

Se sentiu envergonhada por não estar dando a atenção devida ao rapaz e à conversa. Seu cérebro andava muito inquieto. Voltou para o ponto onde estavam em pé, na diagonal do palco, conseguiam ver o show, mas era calmo o suficiente para conversar. Sim, tinha um show acontecendo. Era parte do festival. A garota estava muito empolgada nos últimos dias por causa do festival. Acontecia todo ano e ela sempre reservava as noite para aquelas duas semanas de imersão em arte, muito teatro, muita música. Já era tarde, cerca de uma da manhã, geralmente estaria dormindo uma hora dessas, ou lendo na cama, e estava lá, de pé, interagindo com o mundo. Só o festival para deixa-la assim. Os amigos não tinham ido. Sempre diziam que iam, a cada ano elogiavam o festival como o melhor evento do ano, e nunca iam. Suspirou.

Olhou pro rapaz, e se mostrou disposta a conversar. De verdade, pela primeira vez naquela noite. Parece que ele viu a disposição por trás dos seus olhos. Disparou: “Você consegue chorar?”, ela olhou pro céu, mirou a lua, a abaixou o rosto. Os olhos instantaneamente vermelhos, mareados. Ele recuou, não sabia se era a resposta a seu desafio ou algo mais. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela viu remorso passando por seus olhos, mas era tarde demais. Ela chorava. O choro seco, sem lágrimas, das pessoas que conhecem o sofrimento. As lágrimas desciam lentamente por dentro de sua garganta, a faziam engasgar, perder a fala, inchavam suas maçãs do rosto querendo sair, o rosto esquentava e ficava vermelho. Ela abriu a boca pra falar e teve que engolir as lágrimas, sentir seu salgado e seu amargor.

Sorriu, um sorriso cheio de ironia e desafiou: “Você sabe sorrir?”. Ele ficou sem graça, abaixou os olhos. De súbito levantou-os de novo, e ela viu a resolução nos olhos dele, havia decidido encarar aquilo como uma interpretação. Não ia se sentir envergonhado nem sem graça. Insistiu. “Mas você nem está chorando lágrimas de verdade. E fácil chorar assim?”. Ela se dividia entre o cansaço, a preguiça, a ironia, e a indignação. “É fácil chorar assim? Sim, chorar é fácil! Não sei por que ainda testam atores, pessoas, por sua capacidade de chorar. Difícil é não chorar!”. Ele enviesou o olhar, percebeu que havia muita emoção ali, e que ela ao mesmo tempo aceitava o desafio. Já que ia chorar, ia mostrar tudo que sabia, fosse atuação ou sentimento. Sustentou o olhar. Ela continuou com a voz embargada, trêmula, o semblante pesado, e o rosto quente. Quente e seco. As lágrimas eram internas. “Difícil é não chorar toda segunda-feira, quando estaciono o carro na escola onde trabalho, colada no local onde minha mãe trabalhou por mais de vinte anos, difícil e ligar o rádio e não chorar. Difícil e ser coordenadora do evento do dia das mãe na escola, fazendo hora extra pra ajudar os pequenos a fazer artesanato e cartões pras mãe e não chorar. Difícil é olhar os números na placa do meu carro toda vez que entro e saio dele e não lembrar que eles correspondem ao dia e mês da morte dela.”. A voz continuava embargada e havia um tom de raiva e um de desespero. Ele continuou sustentando o olhar.

“Difícil é olhar os livros e discos nas minhas estantes e não chorar. Difícil é usar as interjeições de palavrões do meu avô no transito e não chorar. E repetir uma receita da minha avó, ou fazer um bordado, pregar um botão, e não chorar. Difícil é ver um desses espetáculos ou ler um livro novo e não poder contar pra ela”. Os olhos estavam tão marejados que ele se perguntou quando a primeira lágrima cairia, mas o rosto continuava seco e quente. “Difícil é sorrir, ser amável, doce!”, ela continuava cheia de ironia. “Difícil é parecer feliz. É convencer às outras pessoas e à si mesma de que está tudo bem, de que a vida é bela”. Ele sentiu o peso das palavras e começou a vacilar o olhar.

“Difícil é não saber se você algum dia vai sorrir de verdade, vai gargalhar sem sentir que a alegria é como um álcool sobre a ferida, ajuda a cicatrizar, mas torna insuportavelmente consciente o tamanho do rasgo.” Ela passou as unhas nos braços, mostrando o arrepio equivalente à angústia do remédio na ferida. Ele olhava as próprias mãos e não sabia mais o que fazer. Teve certeza de que não sabia onde tinha se metido, e ela viu o arrependimento sincero em seus olhos. Vacilou. Sentiu a ironia escorrer pelos pés. Sentiu um cansaço maior que seus anos, teve preguiça e se lembrou por que não queria conversar com ninguém, por que estava se dedicando à procrastinação e a variedades de coisas perfunctórias.

Ele viu que ela desarmou, e arrematou como só um tenista no match point: “Mas você ainda não respondeu minha pergunta! Você consegue chorar?”. Ela suspirou: “Não! Não consigo!”, levantou, virou as costas e enxugou a primeira lágrima que escorria pela bochecha quente e esfriava rápido no vento frio da noite enquanto ia embora. E se lembrou que lágrimas não podem ser enxugadas ou não param de derramar. Ergueu a cabeça e deixou o vento fazer seu trabalho mais uma vez, enquanto emergia o tique de infância, repetindo em voz baixa e sentindo o salgado e o amargo na língua: “Não, não sei chorar!”.

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One thought on “A Menina que não sabia chorar

  1. Conheço essa menina. Sabendo ou não chorar, ela terá sempre que quiser ou precisar um ombro e um forte abraço de seu primo.

    Lendo seu texto, me lembrei muito do vovô e da Bia. Eles e a vó se foram como os conhecemos, mas vivem dentro da família. No coração e atitudes que nos ensinaram e nas lindas palavras que você escreveu.

    Saudades. Que bom que temos de quem ter saudades, não? Lembro de uma música do Caraivana que uma pessoa querida escutava muito que diz assim: “se eu pudesse escolher onde nascer, e a que família pertencer….

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