Diários do Cena Dia 2: O Sorriso do Gato

Hoje eu ainda não tomei chá com o Chapeleiro, mas vi o sorriso do Gato e estou até agora me perguntando se ele sorria triste ou feliz, nostálgico ou amargurado. Provavelmente todos em um, como só o Gato sabe sorrir.
Hoje fui ao CCBB e assisti uma monologo muito impressionante, Cine Monstro (Henrique Dias – RJ).
Seguindo o coelho, assim como a Alice, me perdi. E de repente estava em um ambiente branco, quase estéril, não fosse pelo vermelho do triciclo infantil vintage e do vinho em uma das taças contrastando com o transparente e branco de todo o resto. Uma claridade que demonstra um ambiente possivelmente seguro, mas daqueles ligeiramente desconfortáveis. Sim, desconfortável é uma ótima palavra pra descrever o sorriso do Gato, ele muda, fascina, parece ser um amigo, mas te faz se sentir só, perdido, remoendo emoções e pensamentos.
Alguns dos diálogos me remeteram a lembranças muito familiares, mérito de um excelente texto. Nessa reflexão começo pelo começo, Silencio, imbecil! Imbecil! Usada assim como interjeição essa é uma palavra que me remete imediatamente ao meu avô. Homem bom, maravilhoso, melhor não há nem houve. Com uma paciência as vezes curta, e uma inclinação pelo uso da “interjeição”, Imbecil!
O segundo trecho que me tocou pessoalmente foi a questão dos pesadelos. Não dá pra falar pro pesadelo “Para!”, não sei, nunca testei. Mas comigo aconteceu algo semelhante.
Aos doze anos, depois de ter visto meu primeiro filme de vampiros, que naquela época eram assustadores de verdade, comecei a ter pesadelos. Por meses dormi mal e sonhei todos os dias com vampiros no teto do quarto. Foi uma época difícil. Um dia minha mãe me disse que só eu mesma poderia resolver esse problema e voltar a dormir bem. Naquela noite sonhei que caminhava por uma rua, de dia, e no meio da rua tinha uma névoa, da metade pra lá era noite, com postes de luzes vermelhas e névoa fria, da metade para cá era dia, sol, uma rua como qualquer outra. Parei na beira da linha da névoa, tudo isso dormindo, sonhando, e pensei “Então é aqui que os pesadelos começam!”, virei as costas pra névoa e voltei caminhando pra parte ensolarada da rua. Aquela foi minha primeira noite sem pesadelos em três meses. Nunca mais tive problemas com pesadelos desse tipo.
No texto da peça ele usa a frase “Como Reis e Rainhas de seus mundos, que enfileiram os pesadelos para serem fuzilados pelo pelotão”. Sarcasmos a parte, foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Por uma casualidade do destino o sobrenome da minha família é Reis.

Ainda não sei se amanhã verei as flores e cogumelos do jardim, se encontrarei a lebre, os gêmeos confusos ou Absolem, a lagarta sábia. Mas lá estarei, quem sabe na estrada de tijolos vermelhos, leão, espantalho ou homem de lata me fazendo companhia. Depois conto pra vocês. Hoje dormirei com a voz do meu avô falando “Imbecil!” e não terei pesadelos!

O filme já começou, silêncio (imbecil!) e boa noite!

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